SABERES DA SAÚDE E OS MORIBUNDOS. Por Carlos Barros

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SABERES DA SAÚDE E OS MORIBUNDOS

por Carlos Barros

Nas sociedades ocidentais contemporâneas a prática de negação da morte continua se mantendo. O que nos leva a suscitar uma questão: como é encarado o moribundo, aquele que morre gradativamente numa sociedade que busca abolir a problemática da morte? Padecendo de algum tipo de doença considerada grave, e que possivelmente possa perdurar por meses ou anos, o indivíduo, de um modo geral, deverá saber lidar com o afastamento brusco ou gradativo tanto do grupo familiar como dos amigos. Durante este processo, não há um discurso elaborado para a ocasião, e os que cercam o doente não sabem exatamente o que falar. Como agir perante um sujeito que se encontra na fronteira entre a vida e a morte? Eis uma questão crucial para os “saudáveis”.

 

No que diz respeito ao espaço hospitalar, o moribundo fica aos cuidados de uma instituição que, de certa forma, encontra-se despreparada para lidar com a morte. O hospital é o lugar que deve exercer a função da cura e da preservação do corpo, por isso busca-se abolir os aspectos referentes à morte através de todos os mecanismos possíveis, entre os quais está a estratégia do silêncio. O próprio discurso hospitalar concorre para o distanciamento dessa realidade. O processo de negação da morte emerge no âmbito dos discursos e das práticas no campo da saúde, na medida em que os indivíduos se encontram expostos, na maior parte do tempo, às circunstâncias ligadas à finitude humana. Embora a convivência um tanto próxima da morte do outro possa nos levar, num primeiro momento, a acreditar em uma “adaptação tranquila” no que tange a esse acontecimento, o fato é que médicos e enfermeiros, em seu cotidiano, não escapam às ansiedades e conflitos provocados pelo sentimento de perda e pela sensação de impotência.

 

A falta de respostas sobre essa problemática e o despreparo no que diz respeito aos aspectos existenciais ligados à morte acaba produzindo efeitos na prática desses profissionais. Cumpre lembrar que a relação do saber médico com a finitude humana possui certa peculiaridade, pois, desde a formação acadêmica, o estudante de Medicina já entra em contato direto com a morte ou, mais precisamente, com o morto.  Contudo, o discurso da objetividade nesse encontro com o corpo morto se acentua. Os aspectos subjetivos e emocionais desse contato devem ser reprimidos, ou seja, qualquer comportamento que possa revelar algum tipo de medo ou mal-estar deve ser dissimulado. Assim, os mortos, agora transformados em objetos de estudo, não devem ser dignos de qualquer tipo de emoção que possa ser considerado um tanto constrangedor para os futuros “profissionais da vida”. Em outras palavras, o discurso médico enuncia que o cadáver não passa de algo a ser estudado e analisado com a máxima objetividade, algo sem identidade e sem história, um corpo que revela o oposto da vida e, portanto, incompatível com a racionalidade médica e científica.  

 

No caso específico do “paciente terminal”, o comportamento que se espera daquele que exerce a prática médica faz emergir, de algum modo, certo nível de ansiedade. O médico muitas vezes acaba por reconhecer sua incapacidade em curar e salvar um corpo portador de determinada doença.  Não deixando de lembrar ainda a dificuldade encontrada no momento do diálogo com o paciente sobre questões relativas à terminalidade. Desse modo, o saber e o poder médico encontram-se enfraquecidos diante da morte eminente, o sentimento de onipotência cede lugar à frustração, ao sentimento de impotência e fracasso. 

 

A equipe de enfermagem, por sua vez, compartilha a responsabilidade com os médicos. A prática desses profissionais também apresenta situações conflituosas no que se refere à morte, ou seja, a angústia que emerge, de modo geral, é acentuada em decorrência dos mesmos aspectos que interferem na prática dos médicos. No entanto, parece haver um maior envolvimento afetivo, já que o contato é mais frequente. É estabelecida uma relação bem mais direta com aquele corpo que logo deixará de viver.

A equipe de enfermagem tem o seu comportamento, de certo modo, alterado diante do moribundo pelo que este representa.  A fragilidade do corpo do doente e a certeza de sua finitude breve acabam provocando certo desconforto, pois este acontecimento revela a impotência e o temor que a morte produz. Desse modo, o contexto hospitalar emerge como um espaço onde os discursos e as práticas seguem movimentos contraditórios.  Se por um lado o paciente tem que ser mantido limpo, confortável e bem alimentado, por outro, ele terá que ser ‘bem preparado’ para uma morte tranquila. Tais objetivos, entretanto, apresentam dificuldades de serem conciliados, na medida em que os profissionais de enfermagem trazem em sua formação acadêmica as percepções e os discursos de uma sociedade que trata de negar tudo àquilo que diz respeito à morte e ao morrer. 

 

No que tange aos moribundos, a “onipotência” que se espera daquele que exerce o poder médico faz emergir um campo de ansiedade e tensões, pois o médico é compelido a reconhecer sua incapacidade em curar e salvar um corpo portador de uma determinada doença. O indivíduo que está prestes a morrer, por sua vez, encontra-se numa posição desfavorável. Não apenas pela dor que possa, eventualmente, acompanhar o momento da morte, mas também porque ele institui, de certa forma, um discurso que não se quer ouvir. Enfim, a percepção do outro que morre parece não produzir, em princípio, qualquer tipo de ponderação existencial sobre a “morte-em-si”, mesmo entre aqueles que têm a morte e o morrer como parte do seu cotidiano.

 

De qualquer maneira, mesmo com a emergência de um discurso racional, o indivíduo continua em sua busca de viver eternamente, em seu persistente desejo de preservação de sua individualidade. A problemática da morte e do morrer ainda se mantém crucial em nossos dias.

Por Carlos Barros


Saberes e Olhares

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2 Respostas »

  1. Acredito que, a grosso modo, muitos desses problemas encontram no seu cerne interpretações que, ao meu ver, são infantis, arcaicas e improdutivas com relação a dualidade vida e morte. O homem ocidental tende, de certa forma, a rejeitar a importância do “estar vivo” ansiando por um “ser vivo”, sendo esse um reduto de uma estaticidade eterna e feliz. Ignorando o constante fluxo de transformação da vida, acabe-se não entendendo um dos momentos mais básicos desse fluxo que é o deixar de ser. A partir daí encontramos ações que transformam a morte em dor e desalento para os que ficam, ansiedade e medo para os que estão indo, e desencanto para os que se propoem a ser os “bastiões” da vida… e por aí vai…

    • Olá Renato. Mais uma vez agradeço sua visita e comentário. E devo salientar que fez uma ótima análise da questão abordada no texto. Parabéns. Seja sempre bem-vindo e continue postando seus comentários. Grande abraço. Carlos

Obrigado por sua visita. Seja sempre bem-vindo!

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