Nudez. Por Marcia Tiburi

Marcia Tiburi

Marcia Tiburi

Nudez: No tempo do culto ao corpo, quando ficamos nus?

A bailarina entra calma e decididamente na opacidade da cena. Calça e camiseta cinzentas ajudam a apagar seu corpo. Do saco preto de lixo retira um frango envolto em plástico, como é encontrado no mercado. Mãos enluvadas iniciam o trabalho de retirar as vísceras igualmente plastificadas para serem acomodadas ao lado do que ali é cadáver, mas também alimento. De dentro da roupa a bailarina saca objetos úteis, entre eles uma faca mal afiada com a qual abrirá uma fenda no peito do animal morto. Antes do transe eletrônico ao som de Marc Houle, a bailarina enfia a camiseta cinza no ventre esburacado da carcaça. Tudo é analogia em Carne, a performance de Micheline Torres.

 

Tudo se dá entre corpo e roupa, mesmo a nudez. Micheline, nua, veste a própria nudez. Não é seu corpo sem roupas que nos faz ver que está nua, mas o ato de despir-se por meio de garrotes de borracha, desses usados em laboratório para fazer exames de sangue, que, amarrados em suas pernas e braços, são vestidos e desvestidos. O frango que ela eviscera já fora industrial e previamente eviscerado. A víscera pertence ao corpo apenas antes que a cultura – linguagem e imagem – venha dizer algo sobre ele. Agora a roupa é a nova víscera. A bailarina atua na zona de indistinção entre a cultura e a natureza, devolvendo ao corpo morto a roupa como o que dele surge. A roupa é a duplicação do corpo no elemento estético da existência, aquilo que o filósofo Emanuele Coccia chamou de vida sensível, pela qual sabemos que o corpo é uma sucessão de véus.

 

A roupa é imitação – ou mimetização – de uma víscera. A mais profunda de todas: a pele. Afinal, o que é o corpo senão o que é envolto por uma víscera que se apresenta por meio dele mesmo? Chamamos de nudez não o corpo, mas sua forma exposta: a pele como órgão mais profundo, diria Valèry. A pele é o mais exposto e, no entanto, como órgão, é víscera. O que podemos saber do corpo é esse paradoxo. Como víscera, a pele sobrevive porque, estando no limiar do corpo e sua imagem, é protegida pelo que nela é morto. Se há uma natureza em nosso corpo, é a de que já nascemos invertidos: nosso órgão mais exposto é eviscerado. A fórmula da verdadeira nudez pode ser expressa de modo linguisticamente deselegante: uma víscera eviscerada. A roupa que vestimos apenas esconde a nudez enquanto é, ela mesma, a nova nudez. A nudez jamais foi outra coisa do que roupa.

 

Assim, o ato de Micheline Torres, o despir-se dos garrotes, mostra-nos que, ao tirar a roupa, tiramos nosso mais profundo e que, no entanto, sempre esteve à mostra. Nudez é vestimenta. A moça do filme pornô está vestida de pornografia, a amante com sua lingerie sensual veste-se de erotismo, os ativistas do Peta nus em manifestações nas ruas vestem-se da causa animal, assim como a madame envolta em sua pele veste-se hoje com a marca da violência contra os animais ou o poder do capital. Heresia que o ecologista combate: usar a pele de outro, seu mais significativo corporal, como mercadoria. A prostituição de nossos dias é uma perua vestida de peles que não lhe pertencem.

 

Travestimento, ou a consciência da nudez

Homens vestem-se de fisiculturistas musculosos. Antes vestiam-se apenas com a nudez teatral ou esportiva que nunca foi, a rigor, nudez alguma, mas vestimenta. Aos poucos, vestem-se da sensualidade em revistas gays. Homens ou mulheres, não importa, a roupa que veste os gêneros é sempre travestimento. A travesti choca pela consciência que nos oferece desse fato.
Micheline Torres elabora uma dança agônica com os garrotes para, por fim, mostrar-nos que a nudez é da ordem da máscara. Veste-os e desveste-os até escancarar a boca em um ricto gorgônico. Não é a consciência da nudez que é nesse instante mais que estética, mais que chocante, mas a experiência de um desvelamento que se elabora levando à consciência do horror por meio de outra abertura, a da boca, pela qual se mostra outra camada de nudez. Pavor é tudo que vemos. No ápice da agonia, o pavor é a nudez da nudez. O fato de que nos damos conta dela. Não apavora a nudez, como no conto do rei nu/vestido de Andersen; o que assusta é a consciência que dela temos e, muito mais, a consciência em si mesma, a mesma que fez Adão e Eva serem banidos do Paraíso.

 

Aquilo que muitos chamam de culto ao corpo – esse hábito corporal situado entre o prazer e o exibicionismo – em nossa sociedade da libido industrializada aparece como a mais profunda ilusão que tivemos até aqui do significado do corpo nu. Só ficamos nus quando estamos vestidos porque, quando vestidos, estamos nus. A nudez propriamente dita ou é a vestimenta da nudez ou não existe.” Fonte: CULT


Saberes e Olhares

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