LIVRAI-NOS DO MAL. Por Carlos Barros

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LIVRAI-NOS DO MAL

Por Carlos Barros

 

A Figura do Diabo, no período medievo, alcança seu ápice. A Igreja Católica, ao longo dessa época, investe densamente na propagação de um discurso demonizador do mundo e de uma iconografia em torno de Satã e do inferno. Tal discurso, que possui raízes fincadas nos textos bíblicos, busca reforçar a ideia de um universo dividido entre o bem e o mal e, portanto, palco de uma eterna batalha espiritual.

Com a emergência do mundo moderno, as concepções mágico-religiosas, de um modo geral, pareciam estar com seus dias contados. A Igreja Católica perde sua hegemonia, e a morte de Deus começa a ser anunciada em nome da Razão que passa a cruzar todos os campos do saber. O avanço da ciência deveria sobrepujar antigas superstições, deveria explicar o mundo e suas leis sem os entraves metafísicos.

Mas, se a Modernidade alcançou parte desses objetivos, certamente ela fracassou no que dizia respeito à morte do Diabo, pois ele sobrevive aos persistentes ataques da racionalidade científica. Além disso, a resistência de Satã significa também a sobrevivência de Deus, a dualidade cristã entre bem e mal ainda prevalece, mesmo no contexto de uma nova ordem social, política e econômica. Aliás, o mundo moderno preservou certa similaridade com as concepções cristãs ao se manter atrelado a uma visão dualista.

Os valores bem e mal continuam sendo alicerces importantes da moral moderna, embora não mais interpretados a partir de uma perspectiva sobrenatural. O mal passa a significar tudo que escapa a ordem da razão, que foge das normas estabelecidas, que se recusa em aceitar o discurso do progresso e a verdade da ciência. Sendo assim, o poder disciplinar deve expulsar e suprimir os insubordinados, prender e enclausurar os estranhos que não sabem perceber a diferença entre o certo e o errado, que não conseguem distinguir o falso do verdadeiro. E para estabelecer tanto a coerção como manter ao máximo a coesão social, não se pode abrir mão de um elemento fundamental: o medo.

Cada vez mais a questão do medo tem sido ponto de interesse entre pesquisadores de variados campos do saber.

Historiadores, sociólogos e psicólogos têm buscado se debruçar sobre essa problemática, tentando compreender em que medida o medo é eficaz como forma de garantir a subordinação e o controle social. De fato, se trata de múltiplos medos que perpassam as sociedades contemporâneas, medos reais ou imaginários que, institucionalizados e geridos pelo poder, muitas vezes são ampliados por certos setores, como é o caso, por exemplo, da mídia escrita e televisiva. Apesar de todo avanço técnico-científico, do domínio cada vez maior da tecnologia digital e de certa apologia ao “mundo globalizado”, atualmente estamos testemunhando e sendo reféns de novos medos. Medos que também alimenta o discurso religioso, especialmente o cristão. O medo do pecado e do castigo divino, medo do destino pós-túmulo, medo do Juízo Final, medo do inferno, medo do Diabo, medo do mal. No entanto, no campo pentecostal, o medo é apontado com produto da ação maligna, pois aquele que aquele que se “converte”, que aceita Cristo deixa de ser escravo do medo.

O crescimento do pentecostalismo obtém uma ampla visibilidade, especialmente no Brasil e na América Latina. Mas são as Igrejas neopentecostais, especialmente a Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), que vêm, nos últimos anos, chamando a atenção de estudiosos e pesquisadores. A IURD vem se expandindo de forma vertiginosa. São inúmeros templos espalhados em todo território brasileiro, e que vão se ramificando por outros países. A hierarquia eclesiástica da Universal, composta de obreiros, pastores e bispos, demonstra ser bastante rígida no que tange, principalmente, a conduta ética desses “gestores do sagrado”. Ou seja, embora tenha como uma de suas características a flexibilidade quanto aos costumes e a certa inserção no mundo, a IURD ainda conserva, como os pentecostais tradicionais, uma posição inflexível no que se refere, por exemplo, a questões como “infidelidade conjugal”, “homossexualidade” e “virgindade”.

No campo iurdiano, as práticas mágico-religiosas giram em torno, principalmente, da dualidade entre bem e mal. A ideia de uma “batalha espiritual” entre Deus e o Diabo é um ingrediente importante da demonologia iurdiana. A intransigente perseguição e diabolização de outras religiões concorrentes, em especial as afro-brasileiras, brotam como uma pratica “natural” no âmago dessa guerra santa. Contudo, no concorrido campo religioso brasileiro, a disputa pela alma, ou melhor, pelas ofertas, dízimos e colaborações financeiras dos fiéis é bastante acirrada. Por isso mesmo, apesar das religiões afro-brasileiras serem os alvos mais visíveis, a IURD não deixa também de atacar outras religiões, como é o caso, por exemplo, do catolicismo e do espiritismo kardecista. Mas não podemos esquecer que a própria IURD também é alvejada por críticas vindas desses grupos, e até mesmo dos “irmãos” de outras denominações evangélicas que a acusam de “heresia” no que diz respeito a sua doutrina.

De qualquer maneira, a Igreja Universal do Reino de Deus continua crescendo em meio a toda essa contenda religiosa a partir de uma prática aparentemente não tão distinta dos antigos pentecostais. Porém, o discurso em torno da cura e da expulsão de demônios não são invenções ou monopólio da IURD, embora ela busque exacerbar e tornar mais visível suas práticas de exorcismo. Mas para o fiel iurdiano, certamente o que mais importa são os resultados obtidos ao buscar os serviços dessa Igreja. Levar milhares de pessoas aos templos, fazer com que acreditem que foram curadas, que tiveram seu casamento resgatado, que conquistaram prosperidade e que se livraram completamente de todo o mal, faz da IURD um lugar seguro aos olhos de muitos. No entanto, faz-se necessário manter o fiel estável no seio Igreja, não é interessante para a Universal um “rodízio” de clientes que escapam ao seu controle, que não sejam perseverantes na obra de Deus e na manutenção financeira dos projetos iurdianos. Sendo assim, a IURD lança mão do medo como um elemento importante e muitas vezes subjacente em seu discurso.

Embora assegure que o indivíduo cercado de múltiplos medos encontra-se, na verdade, sob o controle do maligno, e que a fé pode libertá-lo, a Universal continua empregando tal elemento em seu favor a fim de manter a coesão e a ordem disciplinar. Deixa o fiel entre o “poder do medo e o medo do poder”. Em outras palavras, se o mundo jaz no Maligno e o Diabo é a fonte de todos os males, cabe ao fiel estar ciente que é no âmbito da Igreja que ele encontrará segurança. Por outro lado, uma vez sob a proteção de Deus e dos seus ministros na terra, o fiel iurdiano deve vigiar, dever estar atento ao seu testemunho e, principalmente, ao seu compromisso financeiro com o trabalho da Igreja. Caso contrário, há um sério risco, segundo a IURD, de perder todas as bênçãos que porventura tenha alcançado, de retornar ao domínio de Satanás e de perder a própria salvação da alma.

Acredito que a hierarquia dessa Igreja também se nutre a partir do medo, do temor de contestar a disciplina instituída na esfera da Universal. Bispos, pastores e obreiros devem conhecer os códigos éticos e, sobretudo, os perigos de uma provável insubordinação ou dissidência. Todos os lideres devem apresentar um comportamento ilibado, uma vida que não escandalize o evangelho, pois sabem dos riscos de perderem a legitimidade e a dominação sobre o rebanho. Sendo assim, a IURD busca manter sua maquinaria pedagógico-disciplinar em constante alerta. É contundente quando se trata de punir aqueles que, aos olhos da moral iurdiana, cometeram pecados graves.

De todo modo, a forma como tem se consolidado no Brasil e como vem se expandindo por vários países do mundo denota o quanto a Universal tem tido sucesso em sua estratégia de ganhar fiéis sem esconder seu perfil antagonista contra outras religiões. Seu slogan “Pare de Sofrer” resume bem até que ponto consegue captar e mediar os sofrimentos dos indivíduos, especialmente os mais pobres. A IURD não oculta seu projeto expansionista, sua vontade de levar ao mundo sua própria ética, seus próprios valores. Na lógica iurdiana, o mal existe porque se faz necessário para apontar de onde emerge o bem. Sendo assim, Deus e o Diabo continuam resguardados no âmago dos discursos e das práticas dos seus fiéis agentes.

Por Carlos Barros


Saberes e Olhares

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