QUANDO FREUD CHOROU. Por Carlos Barros

Fredu

QUANDO FREUD CHOROU

Autor – Carlos Barros

Sigmund Freud, o inventor da psicanálise, está ansioso. Apesar de saber do seu diagnóstico de câncer na boca, não larga seu charuto. Sua ansiedade tem um motivo: é seu terceiro encontro com Friedrich Nietzsche. Por duas vezes conversou com o autor de “Zaratustra” neste mesmo bar. Foram encontros breves.

Freud olha para a rua. Pensa como foi sua vida. Pensa nos últimos dias da sua existência. Lembranças. Lembra-se de Jacob e Amália, seus idolatrados pais. Lembra-se de Martha, a mulher com quem casou. Martha, a mulher da sua vida. Lembra-se de Anna, sua amada filha. Lembra-se de Lou Salomé, sua paixão da velhice. Lou Salomé que também foi o grande amor de Nietzsche. Lembra-se dos discípulos. Especialmente Gustav Jung. Jung, o discípulo amado e talvez seu grande amor masculino. Lembra-se do início da carreira. Não queria ser médico. Amava a Filosofia e os filósofos. Mas tinha sangue judeu. Não teve outra opção. Tornou-se médico. Buscou compensar. Os deuses da mitologia grega emergem em suas teorias. Lembranças. Saudade. Medo. O câncer lhe devora a boca. Dores insuportáveis. Sabe que vai morrer. Sabe que vive o crepúsculo da sua existência. O homem que descortinou o inconsciente está melancólico. Carece desabafar. Após quinze minutos de expectativa, Nietzsche chega.

– Como vai, meu caro Freud?

– Nada bem, meu caro Nietzsche.

– Problemas com seus pacientes?

– Queria que fosse. O problema sou eu. Minha vida que passou e minha morte que se aproxima… – respondeu Freud com profunda tristeza.

– Estou sabedor do seu problema de saúde. Mas como posso lhe ajudar?

– Apenas me escutando. Não vejo outro homem na face da terra que seja capaz de me compreender.

Nietzsche fica impressionado com tais palavras. Os dois nunca foram bons amigos. Ao contrário. Nietzsche, através dos seus escritos, criticou e acusou duramente Freud de plágio. Foi incisivo com o inventor da psicanálise. O filósofo que anunciou a morte de Deus, por diversas vezes, escreveu: “Esse senhor Freud não passa de um plagiador barato. Copiou minhas ideias e as de Arthur Schopenhauer”. Freud tentava negar. Dizia que o senhor Nietzsche era um louco, um melancólico. Um neurótico que precisava de uma boa dose de análise. No entanto, mesmo para os amigos mais próximos, Freud não era tão original quanto queria demonstrar. Segundo um dos seus discípulos dissidentes, Freud era ambicioso. Um sujeito tomado pela vaidade. Um filósofo frustrado e médico medíocre. Depois que inventou a Psicanálise, teria ficado obsessivo. Ambicionava transformar suas ideias em paradigma científico. Queria ser reconhecido pela ciência. Não teve muito êxito. Acabou permanecendo no campo paradoxal da Metafísica. Não sabemos se a história é verdadeira. O que se sabe, com toda certeza, é que Freud andou lendo às escondidas os livros de Shopenhauer e os escritos de Nietzsche. Mas isso já não importa.

Encontram-se agora sentados um olhando para o outro. Freud com seu inseparável charuto e saboreando cerveja. Nietzsche bebendo um copo de água fresca. Não há clima de disputa. Não há rivalidade. Homens que interpretaram o mundo cada um ao seu modo. Prefiro não discorrer de suas diferenças. Melhor falar de algumas semelhanças. São ateus. Críticos ácidos da religião. Críticos da modernidade. Críticos da Razão. São apaixonados por Lou Salomé. Mas por que Freud procurou Nietzsche? Logo este homem que é um super-homem. Este filósofo que é avesso a qualquer tipo de compaixão. Este sujeito que criticou todos os valores humanos. Este homem que está além do bem e do mal. Talvez por tudo isso! Nietzsche é humano, demasiado humano para entender seu sofrimento.

– Devo me redimir, meu caro Nietzsche. Quero pedir perdão por ter negado seu valor em minha vida.

Nietzsche apenas escuta. Fica mexendo em seu avantajado bigode. É altivo. Sabe que Freud está próximo da morte. Sabe que toda sua teoria psicanalítica será incapaz de aliviar sua dor. É a hora da verdade. “Se a verdade existir!” – pensa Nietzsche. Mas veio escutar o que o médico vienense.

– Inventei a psicanálise. Hoje sou famoso. Tudo o que mais queria. Inventei categorias psicológicas. Fiz as pessoas embarcarem no meu discurso. Fiz pensarem que sofriam.

– Entendo – disse Nietzsche.

– Sei que entende. Só você me entende, meu caro. Tudo que escrevi sobre o subterrâneo humano se deve ao seu pensamento. Você, meu caro Nietzsche. Cujo amor pela vida como ela é me causa inveja. Vou morrer em breve. Estou com medo da morte. Sempre tive medo da morte. Não suporto mais as dores físicas e psicológicas.

– E o que pretende fazer, meu caro Freud? – perguntou Nietzsche.

– Sei que não vai apreciar o que vou dizer. Mas tenho que desabafar. Penso em me matar. Não suporto sofrer.

– Não concordo. O sofrimento é parte da vida. Deve encará-lo até o fim. Se tiver que sair desta vida, saia dançando… – disse Nietzsche impassível.

– Imaginei quais seriam suas palavras. O que é o sofrimento e a morte para um super-homem? Nada que não seja apenas a vida. Descobri que não sou um super-homem. Sou um engodo. Por isso lhe procurei. Peço perdão meu amigo. Que a história seja justa contigo. Eu não fui além de nada. Você, meu caro, foi além da alma e do homem, foi além do bem e do mal.

Freud parece ter conseguido seu objetivo. Colocou em palavras a culpa preservada. Não poderia morrer em paz sem purificar-se ante o filósofo. Mas não escuta o que queria ouvir: o perdão de Nietzsche. “Zaratustra” não perdoa os fracos, os ressentidos. Freud chora! Friedrich Nietzsche, pelo menos desta vez, não consegue conter sua compaixão diante das lágrimas deste homem que, no fundo, admira. Abraça Freud que chora em seu ombro. Despedem-se em silêncio. Foi o ultimo encontro.

Autor – Carlos Barros


Saberes e Olhares

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13 Respostas »

  1. Carlos, carlos….. Tem uns Freudólotras que ficarão doentes lendo isso. Não seja tão cruel com o pobre Freud….

    • Olá professor carlos, muito interessante o modo que vc escreve, vejo-o como hermético, e bem amarradinho, não sei explicar muito bem como defini-lo mas me agrado muito. Posso explicar um pouco dessa impressão que tenho nos seus escritos utilizando-os: “…acabou permanecendo no campo paradoxal da Metafísica. Se essa história é verdade ou mentira, não sabemos.” isso eu também percebo no seu texto quando vc recorre a esse fenômeno tão interessante da literatura, se vc começasse falando que Freud era isso tudo certamente seria muito criticado, mas como no texto define-o pelo olhar de Nietzsche (e contradize-lo hj não é permitido porque Nietzsche é Nietzsche e quem é intelectual não pode disdize-lo! ) as críticas que são suas soam da melhor forma possível. parabéns, e até para mim, um freudiano, essas criticas soaram tranquilas.

  2. kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk…..
    Adorei tuudoooooooo!!!!
    PERFEITO!
    Adorei não apenas porque FREUD chora, se angustia ou pede perdão; o que gostei mesmo foi:
    “Jung, o discípulo amado e talvez seu grande amor masculino”.
    Carlos Barros, SUAS CRÔNICAS são maravilhosas!!!! 😉

  3. Adorooooo esse BLOG, hoje ainda mais!!!
    Adorei FRED chorar, ainda mais nos braços de Nietzsche! Rsrs… 😉

  4. O pensamento freudiano foi notadamente marcado pelas influências de Nietzsche e Shopenhauer. Não acho que ele leu às escondidas não, foi declaradamente mesmo! rsrs.
    O texto tá ótimo. Desconsidero a disputa “boba” de quem é “detentor” de tal conceito, concepção, pensamento… O importante é que todos, Freud, Nietzsche, Schopenhauer, Marx, Jung etc., foram/são importantes em suas épocas e até hoje para o fomento da reflexão… Freud se destacou por inúmeros motivos, desnecessários aqui relembrar…

    Beijos, Carlos! E Parabéns ao blog, à sua bela escrita! Mas sendo ou não freudiana kkkkk, marquei aqui meu ponto de vista, diverso, e ainda bem que sim, né! hehehe

  5. Quem é mais triste, Freud ou Nietzsche ?
    Agora Freud dizendo: “Fiz as pessoas embarcarem no meu discurso. Fiz pensarem que sofriam.” Foi triste pra todo mundo. Affs.

  6. Excelente. É necessário saber e ter sensibilidade para o que escreveu. Na existência, só quando atinge a essência.

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