O VELHO E O CÃO. Por Carlos Barros

Diogenes - Jean-Léon Gérôme

O VELHO E O CÃO

Autor – Carlos Barros

Noite fria. Lua clara. O velho e o cão. Um homem e seu estimado animal. Sentados à beira de um rio, olham para o reflexo que cobre as águas. O cão percebe o semblante triste do seu dono.

– O que passa em teu coração, meu querido amigo? – Indagou o cão.

– Tu sempre foste perspicaz meu querido cão. Sim, estou angustiado – disse o velho.

– Não poderia deixar de perceber. Conheço-te desde que eu era um filhote.

– Tu não és apenas um cão, é o único amigo que tenho.

– Como posso amenizar tua tristeza? – perguntou o cão.

– Infelizmente tu não podes. Estou triste porque estou velho e sei que a morte é próxima.

– Meu estimado amigo, tu não viu que teu cão também envelheceu?

O velho afaga o animal. O remorso toma-lhe o espírito. Como fora egoísta. Pensando apenas em seus anos que passaram. Como esquecer que os cães vivem bem menos que os humanos? Seu amigo de quatro patas completou quinze anos. Era um diálogo entre dois idosos.

– Nesses anos de vida pude aprender um pouco da existência humana – disse o cão.

– E a que conclusão tu chegaste? – perguntou o velho.

– Se fosse possível nascer outra vez desejaria continuar uivando para a lua.

– Não desejarias nascer Homem? – indagou o velho surpreendido.

– Longe de mim tal desejo. Convivendo contigo, meu velho, aprendi como vocês humanos sofrem por tolices. Quando não estão presos ao passado, ficam imaginando como será o futuro.

– E tu não pensas no tempo?

– Se eu fosse tomado por tal preocupação com o tempo, me sentiria igual ou inferior aos humanos – respondeu o cão.

Diante da resposta, o velho fica em silêncio. O cão se aproxima e deita sobre seus pés. Uma suave brisa noturna sopra sobre eles. A lua, as estrelas e o rio são testemunhas desse diálogo entre o velho e o seu cão. A sabedoria de um animal deixada para seu dono.

– Tenho inveja de ti, meu caro amigo – disse o velho com olhos lacrimosos.

– Infelizmente não posso dizer o mesmo, meu estimado. Não invejo os humanos. Sofrem porque não querem ser como os animais “irracionais”. Jamais trocaria um dia de cão por séculos humanos. Vivo cada instante. Não sei o que é lei nem pecado. Gozei sem pudor com várias fêmeas em público. Não matei nem causei ferimentos por motivos tolos. Vivo sem cultos e deuses. A vida é meu corpo e meus instintos. Não tenho alma, tenho potência de vida – disse o cão.

– E o que devo fazer com esse medo da morte que me sufoca? – perguntou o velho.

– Meu caro, talvez não possa ajudá-lo. Ambos morreremos em breve. Quem sabe um conselho: nos últimos instantes da tua existência, procura aprender com os animais. Observa como eles nascem, observa como eles vivem, observa como eles morrem. A espécie que habita em nós é que nos faz correr do perigo. Se porventura há um deus, ele se chama “instinto”. Viva cada segundo da tua existência. Não olhe para trás. Busca não pensar no futuro. A morte é certa. Morrerei, e daí? A espécie que vive em mim permanece. Lembra-te do ditado que os homens inventaram? “Não se chuta cachorro morto” – respondeu o cão.

O velho escuta do seu cão palavras que penetram em sua soberba alma humana. Fica pensativo. Levantam-se e retornam para casa. Antes de dormir, o velho afaga e beija seu cão.

– Obrigado por tuas sábias palavras meu amigo – disse o velho.

O cão não responde. As sementes foram lançadas sobre o árido pensamento do seu velho amigo humano. Caminha vagarosamente para o lugar onde sempre dormiu. Foi sua última noite de cão. A madrugada trouxe para o velho a tristeza de ver seu cão morto. Deu-lhe um enterro humano. Chorou sobre a sepultura do amigo. Lembrou-se da última noite. Das palavras do seu companheiro. Talvez a vida lhe conceda esta oportunidade. Viver os derradeiros instantes da sua existência aprendendo com os animais. Um sorriso iluminado se mistura com as lágrimas. Levanta-se. Hora de voltar para sua velha casa. Descanse em paz, meu velho e amigo cão.

Por Carlos Barros


Saberes e Olhares

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4 Respostas »

  1. Que texto lindo professor!
    Uma verdadeira lição de vida…
    Parabéns!

  2. Belíssimo texto.

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