DAS PALAVRAS. Por Carlos Barros

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DAS PALAVRAS

Por Carlos Barros

Sinto-me exausto das palavras. Cansado de não conseguir sobreviver apenas do pão. Cansei de toda palavra que vem da boca do Homem. Das palavras de honra de homens sem palavra. Encontro-me entediado de um mundo de palavras que inventa palavras. De um mundo inventado e reinventado por palavras. Das palavras sem sentido. Do sentido das palavras não sentidas. Palavras insignificantes de sujeitos significadores.

O Homem e suas palavras cultas, curtas, incoerentes. Os que falam. Os que escutam. Os que ouvem sem nada falar. A palavra na ponta da língua. A palavra dita sem pensar. Os que ponderam qual palavra dizer. Das palavras de amor. Do amor pelas palavras. Das palavras de ódio. Das palavras afinadas pelo rancor. Palavras que ferem o espírito dos humilhados e ofendidos. Palavras e palavrões dos moralistas divisores de águas. Águas do Bem e águas do Mal.

Da inveja expressa em palavras. Da gula de palavras. Gulosos engolindo e vomitando palavras mal digeridas. Dos vaidosos e suas vaidosas palavras. Dos orgulhosos e suas soberbas palavras. Dos avarentos que poupam palavras. Dos lascivos e suas palavras de luxúria. Gozando com a sensualidade das palavras. Dos melancólicos e suas lacrimosas palavras. Dos especialistas da mente e suas palavras não ditas, escritas, sublinhadas, interpretadas.

Da religião e suas palavras. Benção e maldição das palavras. A palavra de Deus e a exegese do Homem. Palavras divinas da divina comédia humana. A doutrina e os doutrinados pelas palavras. Palavras de salvação, perdição dos que não creram nas palavras. A palavra não revelada dos intérpretes dissimulados. Das promessas que não passam de meras palavras. Palavras proferidas no momento certo. Palavras que nunca deveriam ser articuladas.

A ciência e suas palavras científicas. Os tolos e suas palavras pretensiosamente verdadeiras. Palavras categorizadas, analisadas, avaliadas. O poder das palavras e as palavras do poder. Das palavras políticas e a política das palavras. Rebanhos seguindo palavras de ordem. Encaixados na ordem das palavras. Engolidos pelas utopias, pelos simulacros, pelas ardilosas palavras prometidas. Seduzidos pelos narcisos das palavras.

Meu cansaço terá um fim. Minha boca novamente se abrirá. Meus ouvidos igualmente escutarão palavras de Vida. Quando as palavras estiverem libertas da razão, do poder, do pecado, do interdito. Quando as palavras anunciarem novas palavras. Quando a Vida gerar palavras para além das palavras.

Por Carlos Barros


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