O CORPO CONTROLADO. Por Carlos Barros

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O CORPO CONTROLADO

Por Carlos Barros

O anseio de continuidade esteve enraizado em diversas culturas antigas, como foi caso do Antigo Egito com suas mumificações que buscavam preservar o corpo para um pós-morte na eternidade. O cristianismo não escapou de tal anseio. Com uma fórmula bem elaborada, se apropriou da morte e da ideia de eternidade. Com isso, conseguiu, em certa medida, abrandar o medo que emerge diante do inevitável e misterioso destino da finitude. A morte é desenhada como uma passagem, uma ponte para outro mundo eterno no seio de Abraão ou, a depender do veredicto divino, para os aquecidos braços do Diabo.

De qualquer maneira, a morte não é concebida como o fim último da alma ou mesmo do corpo. Não devemos esquecer que, no cristianismo, esta ânsia pela continuidade não exclui a esperança de ter um corpo também inacabável. E a fórmula cristã não deixa este problema teológico sem elucidação: a vitória sobre a morte, sobre a morte do corpo encontra-se na ressurreição que ocorrerá no dia do Juízo Final.

Mesmo antes da invenção da Psicanálise, Sigmund Freud já não escondia sua adesão às concepções ateístas que, em parte, foi nutrida pela filosofia iluminista do século 18. Freud vai encarar a religião de uma forma crítica, em particular a ideia de Deus como algo produzido pelos próprios homens.  Sob essa ótica, portanto, a religião e todo seu discurso doutrinário não passam de uma ilusão. Para o inventor da Psicanálise, tais ilusões possuem raízes fincadas na infância, ou melhor, na relação da criança com o pai.

A religião emergiria como uma espécie de “patologia psíquica”, pois a ideia de Deus encontra-se relacionada a um determinado processo de substituição da figura paterna. Em outras palavras, o desejo de proteção diante da conjuntura de desamparo volta-se para seu genitor, aquele que lhe garantirá a segurança diante dos perigos. Com o passar do tempo, a figura paterna vai gradualmente sendo substituída pela ideia de Deus ou outras entidades protetoras. Não seria arriscado afirmar que o medo está conectado em tal processo que, de algum modo, irá acompanhar o indivíduo ao longo da sua existência.

O cristianismo institucionalizado emerge principalmente a partir das interpretações dos textos paulinos que acabaram se tornando hegemônicas entre tantas outras interpretações. Neste ponto devemos observar que, equilibrando-se numa moral de “sujeitos ressentidos” diante de sua condição de sofrimento, o projeto do apóstolo Paulo foi vitorioso ao reforçar determinadas ideias. Lembrando que, na interpretação do filósofo Friedrich Nietzsche, o sujeito ressentido é o niilista que não age nem reage, é um fraco que quando busca agir é apenas sob a forma imaginária. Os textos de Paulo são incisivos no que tange à dicotomia entre o bem e o mal, ao pecado e à esperança da salvação eterna. Tais ideias serão cruciais para ajudar a definir e acentuar, de certo modo, os contornos da invenção de um Deus bom e de um Diabo maléfico. Figuras imaginárias que serão de extrema valia para o exercício do poder disciplinar contra os ímpios e em favor da manutenção do rebanho de fiéis.

A revolta de Nietzsche contra o cristianismo paulino se justifica. É principalmente com o apóstolo Paulo que, segundo ele, a terra deixa de ser o lugar de expansão da vida. Em Paulo, a terra transformar-se num mundo ilusório que abriga o mal proveniente do pecado, um mundo de renúncia das pulsões, um mundo onde brota o sentimento de culpa. O cristianismo, em nome de Deus, acredita erguer o estandarte do bem e da verdade, e elege como seu principal alvo o próprio corpo dos indivíduos, esta alcova de Satanás, este campo profano do qual jorram o desejo e o gozo. Para Nietzsche, o cristianismo tomou o partido de tudo o que é fraco, baixo, incapaz, e transformou em um ideal a oposição aos instintos de conservação da vida saudável.

Sabemos que as práticas de vigilância e punição sobre o corpo não desaparecem com o advento da Era Moderna, embora se apresentando encobertas com uma roupagem secularizada. Michel Foucault vai chamar a atenção sobre este aspecto ao demonstrar o investimento disciplinar exercido com o propósito de inibir o desejo e a própria expansão da sexualidade. Na perspectiva foucaultiana, o poder passa a atuar sobre os corpos objetivando controlá-los, torná-los dóceis a fim de melhor servirem à nova ordem econômica que se estabelece. O “mercado”, em certo sentido, emerge como este novo Senhor que substituiria o antigo Deus da cristandade, e refletindo a imagem e semelhança do cristianismo que afirma que o corpo deve ser o templo do Espírito Santo, a divina Razão também resplandece sobre este mesmo corpo.

O corpo agora deve ser purificado por meio da norma e da disciplina de modo a se constituir em força de trabalho produtiva. Sendo assim, o corpo encontra-se também mergulhado no campo político e econômico. Todo aquele que resistir e não se encaixar no que é ordenado e normatizado pelo “deus-mercado” deve ser destituído e expulso do paraíso do consumo, não deve existir lugar na sociedade moderna para os que insistem em comer do fruto da emancipação a fim de afastar-se do rebanho servil. Os filhos das trevas devem ser rechaçados e diabolizados.

No que diz respeito à diabolização do outro, as ideias cristãs também vieram, sorrateiramente, a impregnar o mundo moderno. Análogo ao cristianismo, a Modernidade também procurou não poupar esforços para colocar em prática o exorcismo de todo o mal que circunda a sociedade de maneira geral, ou até mesmo o mal que porventura possa se alojar no corpo do sujeito que não se adapta à nova ordem. Daí a perseguição e o enclausuramento dos loucos, a intolerância para com os estranhos e diferentes, pois são agentes que se insurgem contra o poder e ameaçam a ordem da Razão.

Estes e outros subversivos devem ser expulsos do jardim e ficar à mercê do poder disciplinar de modo que o restante do rebanho não seja contaminado e continue sob controle. O poder deve expulsar e suprimir os desobedientes, diabolizar e impor o medo aos outros que não querem perceber a diferença entre o certo e o errado, que não são suficientemente capazes de distinguir o falso do verdadeiro.

Por Carlos Barros


Saberes e Olhares

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2 Respostas »

  1. Nada melhor do que começar um dia com um texto tão fantástico quanto esse! Leitura simples porém bastante densa. Ganhou um fã professor Carlos. Espero encontra-lo lá em psicologia. Inté

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