DÚVIDAS DE UM SUICIDA. Por Carlos Barros

Policial de Dallas tenta convencer uma mulher a não se jogar do edifício. Wikipédia

DÚVIDAS DE UM SUICIDA

Autor – Carlos Barros

Veridiano tentou suicídio duas vezes. Tentativas infrutíferas. Na primeira vez pulou na frente de um carro. O motorista muito hábil conseguiu desviar. Na segunda tentativa, tomou vários comprimidos. Não fizeram efeito algum. Mas a vida para ele não tem mais sentido. Está desempregado. Sua mãe viúva recebe uma pequena pensão do falecido. A esposa fugiu com outro levando os dois filhos. É hora de acabar com tudo isso. Será de um jeito que não possa falhar. Mas qual a melhor maneira de se matar? Medita. Descobre um modo infalível: saltar de um edifício. Procurou o mais alto. Vinte e cinco andares. Escritórios do primeiro ao último andar. Olha para o relógio. Onze e trinta da manhã.

– Vou morrer antes do almoço – Falou para si.

Sobe todos os andares pela escada. Chega ao vigésimo quinto. Suando e quase sem fôlego. Aproxima-se da soleira, do limite que o levará para o fim último. Consegue ver as pessoas lá embaixo andando apressadas. Decide saltar. Mas no exato momento percebe o estômago roncar. Fome logo neste momento? Pensou. Tem uma ideia: teria sua última refeição antes do cadafalso, antes do momento supremo da morte. Desce novamente pelas escadas e devora um sanduiche. Retorna para seu objetivo. Sobe de novo. Esgotado com essas subidas e descidas. Odeia elevador.

Agora não tem retorno. Sua vida sofrida acaba ali. No entanto, agora é a sede que lhe incomoda. Onde encontrar água? Lembra-se da casa de sua mãe. Afasta-se de onde estava prestes a pular. Senta-se no chão. Lembrou-se do velho pai que se matou com veneno de rato após uma briga com a mãe. Saudades dos filhos, raiva da ex-mulher. Fica em pé novamente. Hora de pular rumo ao nada ou a vida eterna. Vida eterna? E se for para o inferno? – Pensou. Refletiu no que o velho pai lhe dissera quando criança: “a vida é um dom de Deus”. A dúvida lhe atormenta a alma. A secura na boca aumenta. Levanta-se decidido! A vida é uma desgraça para ele. Deus entenderia. Mas quem vai cuidar da sua velha mãe numa cadeira de rodas? E seus filhos, o que os coleguinhas vão dizer? Filhos de um pai covarde e suicida?

Olha para o relógio. Uma e meia da tarde. Contempla o céu azul. A paisagem lá de cima é bela. A vida poderia ser bela? O vento sopra forte. Lembra-se dos amigos e da infância. Mas tudo passou, são apenas recordações. O que importa é o presente de sofrimentos. Levanta-se. Eis o grande momento! – diz para si. Por um instante brota o desejo de vingança: que a mídia filmasse seu corpo estendido no chão para que a ex-mulher observasse. E se não morrer na hora? – pensou. Sentiria dores terríveis. Senta-se outra vez. Lembra-se de algo: o aluguel da mãe venceria naquele dia. Não pode deixar sua querida velhinha em tal situação. Desiste de se matar! Retorna para casa. Precisa beber água e tomar um banho.

Autor – Carlos Barros


Saberes e Olhares

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