A DIABOLIZAÇÃO DO OUTRO NA MODERNIDADE. Por Carlos Barros

A DIABOLIZAÇÃO DO OUTRO NA MODERNIDADE

Por Carlos Barros

Inferno de Dante

Inferno de Dante

Vivemos hoje um novo tipo de “revolução” no campo tecnológico. A era digital vem estabelecendo a cada dia profundas mudanças no mundo do trabalho e das relações sociais. A Internet vem acirrando os debates em vários campos do saber em torno desta nova rede de informação, de comunicação e interação entre as pessoas. À medida que os computadores se popularizam, grandes “empresas digitais” estão se tornando ainda mais onipresentes e indispensáveis no cobiçado mercado de sistemas operacionais.

Contudo, se por um lado testemunhamos todo o avanço técnico-científico de nossos dias, por outro, não deixamos de perceber as profundas contradições e desigualdades sociais que, de certo modo, são peculiares ao modelo socioeconômico vigente. Em contraponto a um discurso apologético que envolve o processo de globalização e de um comércio sem fronteiras que estaria diminuindo a distancia entre as sociedades, é possível ainda testemunhar, particularmente no Brasil, a morte prematura, a pobreza, a fome, a miséria e a exclusão social de homens e mulheres. O paraíso que deveria emergir com a modernidade e com a própria ideia de globalização mantém ainda uma longa e sólida distância entre “as palavras e as coisas”

Tal esperança de um paraíso distante nos deixa entrever um cenário de pauperização e instabilidade social onde o indivíduo tem dificuldade em se perceberem como sujeitos de uma metamorfose de si próprios e da sociedade em que estão inseridos. Em outras palavras, a complexidade dos fatores históricos, políticos e sociais, que de certa forma estão relacionados à violência e ao sofrimento, se apresentam como elementos desconectados entre si no que tange à percepção da realidade social. Deste modo, os discursos que ressaltam a fatalidade dos acontecimentos, sugerindo que o mundo humano encontra-se permeado por forças externas e sobrenaturais, produzem um terreno fértil para a erupção de movimentos religiosos de cunho escatológico e fundamentalista.

Assim, o mundo atual, a partir de uma perspectiva fundamentalista, passa a ser encarado como um campo de batalha entre Deus e o Diabo, um palco que revela o divino espetáculo da eterna luta entre forças espirituais antagônicas. E não deixa de ser relevante como tal perspectiva pode ser detectada, inclusive, no discurso e na prática política. Mesmo em países como os Estados Unidos da América (EUA), cuja força reside principalmente em sua economia e tecnologia militar, a estratégia de lançar mão do discurso fundamentalista torna-se imprescindível para legitimar seu discurso diabolizador e sua prática de agressão em nome do bem.

A Segunda Guerra Mundial foi um acontecimento histórico bastante peculiar no que diz respeito a todo um discurso em torno do bem e do mal, da necessidade de eliminar o outro em nome de certos códigos morais, da necessidade da guerra em nome da paz. Com a derrocada de Adolf Hitler pelos americanos e seus aliados em 1945, o discurso dos países vitoriosos levava a crer que, após o “trauma” da Alemanha nazista, o mundo ingressaria em uma nova era de paz e harmonia. No entanto, se a Segunda Guerra chegou ao seu término à custa de milhões de mortos no continente europeu, ainda era necessário esmagar o império japonês em favor da democracia ocidental. Vale salientar que os EUA também souberam programar sua “Solução Final”. Sob o cogumelo atômico, Hiroxima e Nagasaki praticamente desapareceram do mapa. O governo americano emergia, então, como o Anjo Miguel desembainhando sua espada e eliminando o terrível Dragão apocalíptico, pois num mundo assombrado pelos “demônios nazistas” e do Japão imperialista era necessária a figura do salvador da ordem, da democracia e da moral. Portanto, parecia ficar claro aos olhos do mundo quem eram os verdadeiros representantes do bem e os que serviam ao mal e ao caos na terra. Contudo, as guerras e guerrilhas continuaram no bojo da “nova ordem mundial”.

Em nossos dias, o mundo vive paradoxalmente uma “guerra na paz”. E um dos acontecimentos emblemáticos que acabou propiciando boa dose de argumentos ao governo dos EUA para a invasão do Afeganistão de Bin Laden e, posteriormente, do Iraque de Saddam Hussein foi o ataque, em Nova York, contra as torres gêmeas do World Trade Center em 11 de setembro de 2001, cujas imagens dramáticas, em vários ângulos, foram exaustivamente reproduzidas por praticamente toda mídia internacional.

 

As torres eram símbolos importantes da economia americana e, por isso mesmo, teriam sido selecionadas pelos artífices do atentado como um dos principais alvos a serem atingidos. Para o ex-presidente George W. Busch, o episódio foi o estopim para convocar uma “cruzada contra o terror”, contra aqueles que agora recebem a alcunha de extremistas ou “radicais fundamentalistas” islâmicos que estariam vendo no império americano o “Grande Satã”. No entanto, aos olhos do governo americano esta seria uma percepção equivocada de sujeitos demoníacos cujos pés ainda estão fincados num radicalismo medieval. Daí a necessidade de cumprir esta missão de “povo escolhido”, de desencadear uma cruzada contra o terrorismo que tenta sitiar a nova Jerusalém que, neste caso, é a divina democracia inaugurada pela Razão iluminista. Tal cruzada contra os hereges antidemocráticos, no entanto, deixa transparecer outras antigas torres, aquelas que foram erguidas a partir da desconfiança do outro, torres que ainda se elevam com o intuito de anular o estranho. Verdadeiras fortalezas que se sustentam para garantir a perseguição aos considerados inimigos do mundo moderno, do mercado, dos valores ocidentais e, sobretudo, dos interesses econômicos e expansionistas do governo americano.

Assim, os EUA, considerado o país de maior força econômica e bélica do planeta, vai se transfigurando, gradualmente, num império do medo, ou melhor, numa teia de medos, pois a guerra contra as organizações ou grupos terroristas não se encaixa nos esquemas convencionais. Estes “inimigos” do povo americano são praticamente invisíveis, atacam de forma inesperada e inusitada. As investidas podem, a qualquer momento, se concretizar por meio de sequestros e explosões.

Todavia, o que realmente pareceu surpreender o mundo ocidental, e que deixou os estrategistas militares em xeque, foi constatar a ressurgência de um tipo de sujeito suicida que escapa a lógica do que poderia ser entendido como uma “guerra civilizada”. Porém, ao medo imposto pelos grupos que levam o anjo da morte onde menos se espera, a resposta dos setores políticos e militares da administração americana é também a prática do medo como revide aos opositores. Todavia, os medos desencadeados contra os inimigos externos também servem para manter o exercício do poder sobre a sociedade americana. Desde os ataques de 11 de setembro, o governo busca alimentar um constante estado de vigilância e desconfiança em relação aos estranhos, deixando os indivíduos a mercê do medo e da diabolização do outro.

Por Carlos Barros

Saberes e Olhares

Adicione aos Favoritos

This work by Jose Carlos Barros Silva is licensed under a

Creative Commons Atribuição-Uso não-comercial-Vedada a criação de obras derivadas 3.0 Unported License

Marcado como: , ,

Classificado em:Acadêmicos, Artigos

Obrigado por sua visita. Seja sempre bem-vindo!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Fim do Mundo

Quanto tempo duraria uma Guerra Nuclear

Catástrofes do Fim do Mundo

Cinzas na Lua

Marte destrói Lua

Lua de Sangue e a Profecia do Fim do Mundo

🔴NOSSO MEDO DO APOCALIPSE, CIÊNCIA E RELIGIÃO

%d blogueiros gostam disto: