A MULHER QUE AMAVA A MÚSICA. Por Carlos Barros

Recreação - Charles Sprague Pearce (1896)

A MULHER QUE AMAVA A MÚSICA

Por Carlos Barros

Enquanto cantava, olhou para a plateia. Os espectadores contemplavam fascinados. Seu cântico adentrava no espírito de cada um dos que ali estavam. Compreendia o poder que tinha. Os semblantes deixavam revelar as emoções que vinham à tona. Sua voz continha algo de mágico. Entristecia os afortunados, regozijava os amargurados. Como nas histórias das sereias mitológicas que há muito ouvira falar, sua voz melodiosa encantava. Conseguia magnetizar os seres humanos.

Fim do cântico. Fim do espetáculo. Fim da magia angelical. Abraços e elogios. O reconhecimento da sua arte. Admiradores com olhos lacrimosos. Admiradores apaixonados. Homens e mulheres ainda sob o efeito sedutor daquela voz. Voz que agora se cala para retornar ao mundo real. Deve retornar para sua casa. Deve submeter-se aos rigores da vida comum.

Anda apressada. Enxuga o suor. É a solidez de uma realidade líquida. Dura realidade para os amantes da Arte. Essa Arte que tenta sobreviver. Mundo de homens e mulheres descartáveis. Descida ao subterrâneo dos indivíduos comuns e consumistas. Mundo dos que não tem a Arte correndo nas veias.

Chegando em casa, o marido reclama da demora. Os dois filhos adolescentes se preparam para sair com o pai. O tempo é escasso. Prepara o almoço. Mas os aplausos e elogios ainda estão ecoando em sua mente. Fica só. Uma tristeza intensa invade sua alma. Perguntas afloram: Teria perdido sua juventude? Valeu a pena casar tão cedo? Seu talento estaria condenado ao “doce lar”? Como harmonizar esses universos paralelos?

A vida corriqueira e insignificante de dona de casa anestesiava sua sensibilidade. Chorou. Mas não amava o marido e os filhos? Por que esta sensação de vazio na alma? Essas perguntas seriam o inquérito do espírito artístico? Deveria abandonar tudo e dedicar-se inteiramente à música? Era a música que verdadeiramente alimentava seu ser, que movia seu corpo, que lhe dava o prazer de um orgasmo espiritual. A música com suas vibrações dava-lhe potência física e psicológica. As estrelas pareciam descer até ela. Lembrou-se do seu primeiro professor de piano. Era menina ainda.

– Você será uma grande artista – disse o mestre.

Perguntas, dúvidas e lembranças. A cabeça começa a doer. Parece que vai explodir. Sentimento de solidão e culpa. Estaria sendo tola? Estaria sendo egoísta, pensando apenas em si? Tantas indagações e nenhuma resposta. Nenhuma saída. Vai até o quarto. Olha-se no espelho. Algumas rugas nascem sorrateiramente sem avisar. Dirige-se à lavanderia. Olha para o tanque. Sente-se frustrada. No lugar de um piano, serão roupas sujas que seus dedos tocarão. Entrega-se ao seu destino. O destino de uma mulher que ama a música.

Por Carlos Barros


Saberes e Olhares

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