A DIVINA RAZÃO MODERNA. Por CarlosBarros

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A DIVINA RAZÃO MODERNA

Por Carlos Barros

A Revolução Francesa que ocorre no século 18 se constitui um dos marcos importantes do nascimento da Modernidade. Profundas transformações no campo econômico, social e científico começam a se estabelecer a partir dessa época. A onda revolucionária simboliza a ruptura definitiva com o mundo feudal, especialmente com a hegemonia do poder eclesiástico. O discurso da liberdade fica amparado pela Razão que agora atinge sua plenitude.

A burguesia emergente acredita estar saindo da Idade das Trevas para ingressar no paraíso onde só deverá resplandecer a “vontade de verdade”, e onde a Razão deve ser o único e eterno deus. Razão que ao mesmo tempo é fonte e desaguadouro de um discurso científico contra qualquer tipo de superstição, contra qualquer forma mágica de perceber o mundo. Já não se consegue imaginar que a nova consciência crítica possa coexistir com antigos dogmas. Em outras palavras, o discurso racional visa inaugurar um processo de extinção do universo mágico-religioso, processo esse que, com o avanço da ciência, teria seu coroamento com a morte da ideia de Deus e, consequentemente, do Diabo.

Com a Revolução, os pensadores iluministas acreditam instituir novos valores morais que se contraponham aos valores eclesiásticos tradicionais. Assim, filósofos, intelectuais e cientistas do século das luzes almejam iluminar a nova sociedade emergente, ou seja, todos os saberes e práticas devem ser irradiados pela luz da Razão. O discurso filosófico, o discurso jurídico e o próprio corpo dos indivíduos são alvos privilegiados dessa percepção racional, pois o corpo não deixa de estar imerso num campo político. Essa nova visão de mundo também desencadeia um processo de perseguição radical do outro, do estranho e de todos que não se encaixam na nova ordem.

Não é difícil observarmos uma das curiosas estratégias do novo mundo racional: exorcizar ou exterminar aqueles que podem se tornar uma ameaça, melhor dizendo, um mal à sociedade moderna emergente. Devem ser decapitados, excluídos, patologizados e enclausurados, pois a verdade e o bem devem prevalecer.

O mal agora é percebido na desordem. No “outro” da Razão é detectado a “desrazão”. A loucura, por exemplo, passa a ser percebida como um dos temerosos e estranhos “demônios” que pairam sobre a racionalidade, a loucura é um mal a ser sobrepujado porque concorre contra a verdade e o bem. Em suma, a loucura com seu discurso trágico e revelador é contida por um discurso crítico e racional, contudo, ela não desaparece. O louco, portanto, não apenas deve ser temido, mas, sobretudo, ser “exorcizado” da sociedade dos indivíduos normais, na medida em que ele ameaça a razão moral.

Em meados do século 17, o enclausuramento do louco juntamente com outros excluídos concretiza-se principalmente a partir da criação do Hospital Geral na cidade de Paris que, na verdade, representa um conjunto de vários estabelecimentos. O Grande Enclausuramento resulta, nessa época, de um novo tipo de percepção social sobre aqueles que não se inscrevem na ordem vigente. Devemos observar que a maior parte dos motivos que levam à prática do internamento está relacionada à percepção de uma “sexualidade imoral”, pois são os sodomitas, as prostitutas, os devassos, os doentes venéreos que em maior número são lançados nesses estabelecimentos.

Outros que também ocupariam esse espaço são aqueles que, no medievo, eram apontados como hereges e profanos, sendo, portanto, diabolizados pela Igreja. O mágico, a feiticeira e o alquimista já não são queimados na fogueira, são agora enclausurados porque representam a desordem moral e social. Também não se pode deixar de mencionar os pobres. Ou seja, uma determinada “ética de trabalho” é que fundamenta a emergência dessa instituição, na medida em que se acredita que a cura da pobreza ou de qualquer “desvio social” está no âmbito da moral.

Dessa forma, o Grande Enclausuramento marca a emergência de uma percepção do trabalho como uma importante solução moral contra a pobreza. Contudo, a partir da segunda metade do século 18, a loucura passa a ser percebida e interpretada numa perspectiva diferente. O louco começa a emergir nos discursos como um indivíduo alienado, que se distanciou de sua essência e natureza.

Essa nova percepção produz consequências. São criadas instituições exclusivas para o louco, ele agora é um “estranho no ninho” dos outros estranhos. Trata-se, na verdade, de uma prática política moderna, pois, com a nova ordem econômica emergente, já não é mais admissível a convivência entre loucos e os indivíduos capazes de trabalhar e produzir. As prostitutas, os homossexuais, os pobres e outros sujeitos até então excluídos, não deixam de estarem aptos para se encaixarem como força de trabalho produtiva.

Mas o louco não é o único a ser temido e, em certo sentido, “diabolizado” em nome da Razão. Também os opositores políticos da nova ordem emergente perderão suas cabeças na “santa guilhotina”, transformando a morte num grande espetáculo disciplinar. Se antes, durante a inquisição medieval, a fogueira se converteu num dos símbolos de medo e morte mais utilizados pelo poder eclesiástico, agora é a vez do cadafalso.

A guilhotina passa a refletir a nova racionalidade. Ela faz com que a morte seja uma ruptura tão brusca como a própria Revolução. A guilhotina, em certo sentido, revela a face disciplinadora do poder, é um mecanismo que corta a cabeça de onde aflora o pensamento, de onde nasce a razão. Pouco antes do processo revolucionário, Voltaire já escrevia no seu Dicionário Filosófico que a loucura era uma doença dos órgãos do cérebro, uma doença que impedia o homem de pensar e agir como os outros. A cabeça, portanto, fascina os pensadores e médicos iluministas que vão esmiuçar o seu interior.

Se por um lado, a morte pública é percebida pelos iluministas como uma ação pedagógico-disciplinar devidamente direcionada ao rebanho dos novos cidadãos, por outro, a morte deve ser negada como objeto de reflexão, na medida em que não condiz com a nova ordem, com os novos saberes guiados pela racionalidade. Agora, só o tempo e o progresso devem ser eternos.

Enfim, os discursos e as práticas modernas trouxeram em seu âmago certos paradoxos. Sob a luz da Razão, da ordem e da “verdade científica”, buscou-se superar o antigo mundo, salvar o Homem das trevas da superstição e levá-lo ao progresso. Porém, tais discursos e práticas mantiveram-se revestidos da antiga dualidade cristã. A Modernidade, em certo sentido, continuou produzindo seus próprios “anjos e demônios”. A “demonização” do louco e de outros estranhos é apenas um dos exemplos que parecem estar longe de revelar toda a ambivalência da Era Moderna que acreditou matar Deus e o Diabo.

Por Carlos Barros


Saberes e Olhares

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