O SÉTIMO COVEIRO. Por Carlos Barros

Imagem do filme "O Sétimo Selo" de Ingmar Bergman

 

O SÉTIMO COVEIRO

Por Carlos Barros

 

Cidade da Paraíba chamada Olho Santo. Cidade de poucos habitantes. Cidade de muitos mortos. Lugar para enterrar virou um estorvo. Olho Santo tinha um pequeno cemitério e sete coveiros. Aconteceu que, num período de um ano, os coveiros começaram a morrer. Dizem que o primeiro morreu de tanto beber cachaça. O segundo afogou-se ao tentar salvar um gato que caiu no riacho. O terceiro morreu de febre. O quarto pisou num prego enferrujado de caixão e morreu dois dias depois. O quinto foi assassinado pelo amante da mulher. O sexto coveiro morreu de causas desconhecidas. O único sobrevivente foi seu José, o mais velho de todos. O prefeito não tomava providencias. José tinha que trabalhar duro. Chegava a sepultar dez defuntos num só dia. O tempo foi passando. Numa tarde, a Morte apareceu para José em forma de gente.

– Chegou sua hora! – disse a figura vestida de preto.

José teve um pequeno sobressalto. Nunca acreditou em alma penada ou coisa parecida. Mesmo assim não deixou de ser educado.

– Mas dona Morte, se a senhora me levar agora, quem vai fazer o serviço? – Respondeu o derradeiro coveiro.

José era bom de lábia. Deixou a Morte pensativa. Mas logo veio a resposta.

– Nada posso fazer, chegou sua hora!

José não titubeou.

– Tenho uma proposta pra senhora, dona Morte. Tô ensinando meu filho o ofício de coveiro, quando ele completar dezoito anos a senhora me leva.

O filho de José ainda tinha sete anos. A Morte parecia encurralada. O diálogo entrou pela madrugada. A Morte enfim cedeu. Viria buscar José no décimo oitavo ano do seu filho.

O tempo passou. Muitos mortos e enterros. Finalmente chegou o dia combinado entre José e a Morte. Quando isso aconteceu, o sétimo e ultimo coveiro de Olho Santo, depois de cantar parabéns para o jovem filho, entrou no quarto e se matou com um tiro na cabeça. Deixou um bilhete para a esposa:

A dona Morte vinha me buscar hoje, mas enganei a Coisa antes que chegasse. Deixo minha pá pra meu filho Tiago. Até queria ser enterrado por ele. Tem um dinheirinho embaixo do colchão, é seu. Assinado: José

A esposa de José não entendeu, mas chorou bastante ao ver o marido morto. Em Olho Santo todos comentaram o fato. O prefeito até esboçou uma lágrima. No fim, todos se perguntavam: e agora, quem vai enterrar o sétimo coveiro?

Por Carlos Barros


Saberes e Olhares

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