SOMBRAS. Por Edmundo Gaudêncio

Edmundo Gaudêncio

SOMBRAS

Por Edmundo de Oliveira Gaudêncio

O que, para minha mãe, era apenas teatro-de-sombras, jogo com lume de candeeiro, mãos e parede branca do quarto de minha infância, era, para mim,  acalanto com luz e gestos. Aquela brincadeira com réstias entre o quase escuro do já-dormindo e a claridade do quase-sonho transformou-se-me, vida afora, em verdadeira obsessão por claro-escuros. Tenho lido muito sobre sombreados, e feito mil experiências com sombreamentos. Vivo, na verdade, entre sombras, feito personagem de Platão que se tivesse viciado em cavernas e que buscasse não a luz, mas a sombra que brota de dentro dela, na dialética da penumbra, dobra entre a claridão e a obscuridade.

Tenho racionado: ainda bem, não incomoda a mim, somente, esta questão banalíssima de fazer muitas perguntas, sem quaisquer respostas, às sombras. Para onde vai a luz, quando, num sobressalto, faz-se escuro? E para onde vai a sombra, quando se faz completa escuridão? Por que quando vem a luz, voltam as sombras? O “Fiat lux” não fez, também, as sombras?

Reconforta-me, porém, que outras pessoas, outros povos manifestem, como eu, respeito, espanto por tudo que é sublunar e sombroso.

Roberto Casati, estudioso do assunto, relata que, entre os hindus, está dito no texto sagrado: “Se a sombra de um intocável tocar o corpo de um brâmane, o brâmane deverá purificar-se”. Diz ele, ainda: “De um lado, pode-se agir sobre os outros agindo sobre a sua sombra; de outro, a sombra alheia pode agir sobre nós e temos de estar alertas. (…) Deve-se, por exemplo, cuidar da própria sombra: um golpe nela desferido pode nos adoentar, como acreditam os habitantes da ilha de Wetar; não se deve permitir que a sombra incida em certos rochedos agourentos e seja em seguida tragada por eles, como entre os ilhéus de Banks; não se deve deixar a sombra deslizar para dentro de um caixão ou de uma cova (na China, para maior segurança, os coveiros amarravam sua sombra a eles com uma fita). A sombra pode não apenas sofrer uma ação como pode agir, e tanto mais sorrateiramente por caminhar silenciosa. A sombra é a forma visível da alma. (…) Não é um princípio vital, dado que só desaparece quando, bem depois da morte, o corpo se dissolve em pó, deixando de fazer sombra.”

Não satisfeito com tantos exemplos, digamos, sombrios, Casati conta uma crença estranha: “Na Transilvânia, em fins do século XIX, para garantir a estabilidade de um edifício ou para fazer que um fantasma o rondasse espantando os ladrões, era uso em eras antigas emparedar uma pessoa viva ou esmagá-la debaixo da primeira pedra do edifício em construção. Em tempos mais próximos de nós, essa prática foi substituída pelo rito menos cruento de sepultar nas fundações a sombra ou a medida da sombra de um passante, que morreria em quarenta dias ou, em todo caso, naquele ano, O mercador de sombra media e punha à disposição do arquiteto a sombra alheia, e talvez, cinicamente, a sua mesma, na falta de vendedores voluntários, mostrando que só acreditava até certo ponto no que fazia”.

Saber de tudo isso, porém, não alivia minha aflição diante de sombras, nem afasta os meus anseios por escuridões, que muito têm aumentado, desde certa manhã de sol que repentina fez-se escura, antes que fosse o esclarecimento prenunciante de trevas.  Naquele dia, atravessávamos a rua, quando tua sombra se sobrepôs à minha, deixando teu sombreado em meu assombro: como podem dois corpos ocupar o mesmo espaço, senão na fusão e confusão de duas sombras que se interpenetram, sem sombras de dúvidas, num orgasmo de sombras? Imaginei teu corpo nu e nua, também, a tua sombra…

…Completamente alheia a minha sombra em que pisaste, seguiste teu caminho, sem te dares conta do punhado de noite que roubei de tua sombra…

Tenho pensado nisto, obsessivamente, estes anos todos: quanto restou de minha  sombra em tua sombra? E que sobrou de tua sombra em minha vida?

Por Edmundo de Oliveira Gaudêncio

Assista os vídeos:

Do Prazer & Do Gozo ou Do Gozo & Do Êxtase (Texto de Edmundo Gaudêncio)

Entrevista com o Prof. Dr. edmundo Gaudêncio


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2 Respostas »

  1. Carlos,este texto do Edmundo é sensacional.É anterior à data,não?já o tinha lido,ao menos a segunda parte dele,tenho certeza.Coleciono os textos dele com todo o cuidado,como quem cuida de uma ninhada sem mãe.Com delicadeza e surpresa.Sempre,desde 1999,quando li o primeiro,busco por textos dele.É meu John Lennon!ahahaha!Poste sempre!Muito obrigada!
    Com carinho
    Patricia

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