O MEDO, A MORTE E A BRUXA DE BLAIR. Por Carlos Barros

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O MEDO, A MORTE E A BRUXA DE BLAIR

Por Carlos Barros

Um ponto em que parece não haver discordância é o fato de que o medo é uma emoção intrínseca aos seres humanos e a todos os animais. O medo pode ser considerado, em princípio, um comportamento básico para a manutenção da espécie, porém, ao contrário dos animais, temos consciência de nossa própria morte, somos capazes de antecipar ou imaginar ameaças futuras. Os seres humanos, conforme sua época e cultura inventam novos medos que, até certo ponto, terminam por ser institucionalizados e administrados como forma de tentar garantir a obediência e o controle social.

Sabemos que o medo é um ingrediente relevante no âmbito do discurso e das práticas religiosas. Um dos aspectos importantes que nutre determinados temo­res ligados à religião, especialmente a cristã, é a crença numa continuidade após a morte, a crença num além-túmulo. Tal medo está conectado à ideia de castigo ou ao perigo de ter que pagar pelos pecados cometidos durante a vida terrena, é o medo do julgamento de Deus que, com a morte, poderá levar ao indesejado encontro com Satã em seu reino infernal. Nesse sentido, o Deus cristão apresenta-se tão ameaçador quanto o próprio Diabo. Tanto o Catolicismo quanto o protestantismo souberam – e ainda sabem – se apropriar deste temor do incógnito destino que poderá advir numa outra vida.

Ainda pertinente às consequências oriundas de uma suposta vida sobrenatural que se prolonga depois da morte, há o medo do morto. Aliás, um medo bastante comum em boa parte das religiões que abraçam a doutrina da reencarnação. Tais discursos doutrinários afirmam que, pelo menos durante certo período, as almas podem continuar vagando na face da terra. Nestes casos, crêem os vivos que não tendo cumprido os devidos rituais de passagem, por não terem rezado pela alma do defunto, ou até mesmo porque determinadas atitudes tenham desagradado ao finado enquanto este ainda vivia, o espectro poderá regressar para consolidar algum tipo de vingança.

E já que não cabe aqui ponderar acerca da morte do medo, devemos, então, discorrer um pouco mais sobre o medo da morte, pois os medos relativos à morte e ao morrer também possuem seus matizes.

Um medo bastante peculiar à emergência da Era Moderna é o medo existencial da morte, ou seja, o “deixar-de-ser”. A partir de uma perspectiva existencialista, o medo pode significar o temor do encontro com o nada absoluto, é o medo de encarar o fim da própria existência e da perda da continuidade. Desse modo, o que nutre o discurso da absurdidade da existência humana é a convicção de que, após a morte, haverá um encontro com o nada.

E o que dizer do medo de morrer, ou seja, desse processo que nos leva à extinção enquanto realidade consumada? De fato, o medo de morrer envolve uma série de outros “medos secundários”, como por exemplo, o medo da iminente perda da própria integridade física e o medo de uma possível dependência do outro no que tange à satisfação das necessidades mais imediatas.

Se uma das pretensões dos “ideólogos” da Modernidade foi eliminar, ou pelo menos abrandar a intensidade de alguns dos medos que pairavam sobre o mundo medievo, não é tão difícil apreender que o objetivo não tenha sido completamente alcançado. As luzes da Razão acabaram por gerar novas penumbras e incertezas. Vivenciamos novos temores que perpassam nosso dia-a-dia. A violência urbana, as epidemias, a internet, a solidão, a velhice, o desemprego e a exclusão social são alguns exemplos desses medos que assombram as sociedades ocidentais contemporâneas. Medos que, direta ou indiretamente, estão relacionados à insegurança, à dor e à morte.

Mas, por outro lado, não podemos deixar de assinalar que o medo, paradoxalmente, também exerce certo fascínio, desde que tal fascínio não venha a se configurar uma ameaça próxima e real ao ponto de colocar em risco a própria vida. É deste curioso paradoxo entre medo e deslumbramento que se nutre boa parte da indústria cinematográfica dedicada aos filmes de terror. Um exemplo que cabe ser mencionado aqui é o filme A Bruxa de Blair, cujo roteiro expõe o medo de forma intensa, tornando-se o elemento mais terrível e, ao mesmo tempo, admirável, no processo de sedução do espectador.

A narrativa (e aqui uma breve sinopse) trata de três estudantes que pretendem realizar um documentário sobre uma suposta lenda que envolve uma figura conhecida como a bruxa de Blair. No entanto, ao se enveredarem na floresta, lugar onde a lenda teria sua origem, os jovens se perdem, não encontram o caminho de volta. Mas o que de fato chama a atenção ao longo do enredo é a ênfase em alguns medos que afloram. O medo relacionado à perda de referência geográfica, o medo que envolve a sensação de abandono, o medo da escuridão, o medo de algo que se imagina estar em algum espaço, mas que não se consegue visualizar. A neblina e a escuridão não permitem entrever o perigo ameaçador que se encontra na obscuridade.

Em A Bruxa de Blair, o objeto do medo não se explicita em figuras aterradoras materializadas pelos chamados “efeitos especiais”, o medo brota a partir de alguma coisa ou alguém que não se consegue ver. Trata-se de uma circunstância na qual o medo está conectado a algo que se oculta na penumbra da floresta, ou melhor, na psique de cada um de nós, nas sombras profundas do “inconsciente coletivo”. De todo modo, milhões de espectadores continuam enriquecendo a indústria do cinema que lucra em cima da ideia do medo como produto de consumo.

Mas aquém da ficção, encontra-se um mundo impregnado de medos concretos, de perigos reais, de relações perigosas e, muitas vezes, de ameaças imaginárias ou que ganham amplitude a partir de certos discursos e praticas de poder.

Por Carlos Barros


Saberes e Olhares

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4 Respostas »

  1. Maior que o medo da morte é o medo das perdas e desligamentos que a morte representa. Existe o medo de deparar-se com uma outra realidade após a morte física, com um mundo invisível, paralelo ao que conhecemos, onde tudo o que foi buscado durante a vida tridimensional , intuído e acreditado mostra-se completamente diferente do que qualquer coisa que a imaginação supôs. E se esse mundo paralelo for um estágio de consciência totalmente expandida? O grande medo é deparar-se com a torpeza dos próprios atos e dos outros. Todos sem suas várias personas usadas para enfrentar os medos reais e engendrados do estágio da vida tridimensional com tantas limitações e prisões físicas e espirituais. Nesse mundo paralelo, se existir, perderemos as máscaras, as certezas, as verdades tidas como absolutas, as teorias, e, principalmente, as ilusões. E seremos uma consciência lúcida. Talvez isso seja o insuportável.

    • Rosele, é com grande prazer que recebo sua visita e leio seu comentário. Muito interessante as questões que você levanta sobre outros medos. Chamou-me a atenção esse difícil (quase insuportável) medo do perda do outro. Mas, quero crer, essas perdas ou a própria Morte é “pedagógica”. Nos ensina a viver cada instante como “se” fosse o último. Buscar amar ou valorizar o outro como “se” fosse a última vez. Que assim seja! Volte sempre. Abraço carinhoso pra ti. Carlos.

  2. Parabéns pelo texto. Acredito que muito ainda se tem que estudar acerca do medo. Hoje em dia, muito mais forte do que o medo da morte, é o medo da violência, seja ela qual for… Minha opinião é que estamos vivenciando na atualidade um medo mais voraz, mais patológico… o medo que, antes, em sua maioria das vezes, era percebido de modo isolado, especialmente sendo visto e “tratado” por especialistas da área da psique, agora são medos mais coletivos… Temos uma sociedade adoecida pelos problemas sociais da modernidade… O que fazer??? Me preocupo com o medo, pois o vejo muito ligado a questão do comportamento humano. Infelizmente, vivemos tempos difíceis no campo dos valores, da ética, etc… Para mim o medo da morte (relação pós-morte, o que existe além da vida), está dando lugar ao medo de como posso morrer (as várias formas de morrer), ou seja, as mortes provenientes de violência e barbárie. Apesar que tudo está sendo banalizado e a naturalização também da violência pode mudar (se já não mudou) também este sentimento, esta sensação…

    • Olá, Adenize. Quero agradecer sua visita e o excelente comentário que postou. Gostei da sua leitura e interpretação do texto. De fato, estamos “rodeados” de antigos e novos medos, alguns bem ampliados pela mídia de um modo geral. Acredito que a Modernidade, ou melhor, a Hipermodernidade tem gerado insegurança, ansiedade e muita angústia. Mas ainda acredito que o medo da morte e do morrer, quando não explícito, oculta-se silenciosamente por trás de muitos outros medos. Enquanto vivermos numa sociedade que busca silenciar sobre os aspectos existenciais da Morte, a angústia será nossa eterna companheira. Do ponto de vista sócio-cultural, como viver sem medo numa sociedade cada vez mais individualista e controladora? E você lembrou muito bem a questão da violência. E o que dizer dos medos que acompanham a Era Digital? No que tange aos especialistas da mente – eles também com seus próprios medos – , não creio que serão capazes de amenizar nossos temores, pois estão inseridos na mesma “geografia cultural”. Gostaria mais uma vez agradecer sua visita. Seja sempre bem-vinda. Forte abraço. Carlos.

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