MANUAL DE BOAS MANEIRAS PARA UM MUNDO CIVILIZADO. Por Adriano de León

Adriano

Por Adriano de León

MANUAL DE BOAS MANEIRAS PARA UM MUNDO CIVILIZADO:

Norbert Elias e a noção de civilização

Resumo: Norbert Elias, sociólogo alemão, ao elaborar a noção de civilização examina a Modernidade na sociedade ocidental perseguindo as alterações nas imagens que os indivíduos fazem de si mesmos em função da introdução de novos costumes. Ao abandonar as análises mais abrangentes, Elias lança mão da interdisciplinaridade quando analisa cadeias de interdependências cada vez mais complexas para aproximar-se da noção de civilização. Abre, pois, este autor, a discussão sobre os paradigmas metodológicos do discurso sociológico refutando o cientificismo em nome da transdisciplinaridade.

Palavras-chave: Elias, civilização, costumes, indivíduo, interdisciplinaridade.

 

1. INTRODUÇÃO

“Não limpes os dentes com a ponta da faca como fazem algumas pessoas. Isto é um mau hábito.” (The Babees Book, século XIII).

 

               A discussão que este artigo se propõe se encontra intimamente relacionada com o debate promovido pela teoria sociológica acerca da Modernidade. Numa primeira aproximação o fenômeno da Modernidade poderia ser entendido através de fatores clássicos como a acumulação capitalista, a extrema racionalização do mundo ocidental e do subjetivismo como fundamento de uma sociedade abstrata. É sobre a passagem de uma sociedade concreta, baseada em vínculos emocionais e corporificados – a sociedade de sangue – para uma sociedade abstrata, aquela que tem por base a divisão do trabalho e as relações racionais entre os indivíduos que trata o sociólogo germânico Norbert Elias (1887-1990).

               É impressionante como, ao longo de quase 50 anos, os incursos de Elias à relação entre sociedade e indivíduos se atêm a certas premissas, que articulam toda sua produção sociológica. Ele parte do reconhecimento de que cada indivíduo tem um campo limitado de possibilidades no interior da sociedade na qual se vê inserido, sua função. Esta função não apenas precede o indivíduo; sua variação define diferentes tipos de sociedade. Entretanto, já nos adverte em 1939, devemos nos precaver de enxergar nesta gramática das relações sociais algo externo e acima dos indivíduos. Fazê-lo significaria transformar a sociologia numa metafísica, pois estaríamos atribuindo a toda regularidade social o caráter de substância, de algo supra-individual, em analogia às forças substanciais naturais. Tampouco serve, na contramão do primeiro equívoco, substancializar o indivíduo, como se, antes de toda relação, ele já fosse dotado de uma “natureza” (a liberdade, dirão alguns), de uma essência à qual se sobrepõem, em um segundo momento, determinações sociais. Enfoca Elias ( 1982a: 230 ):

“Com este propósito não pude evitar inteiramente a questão de como deve ser explicado o fato de que a sociologia, para cujos principais representantes do século XIX os problemas sociais de longo prazo eram de primordial interesse, tornou-se no século XX uma sociologia de estados, isto a tal ponto que a investigação de processos sociais de grande duração praticamente desapareceu das atividades de pesquisa”.

 

2. MODERNIDADE E TEORIA SOCIOLÓGICA

“Não devolva à travessa o pedaço de carne já mastigado.” (Ein Spruch der ze Tishe Kêrt, século XIV).

 

A solução de Elias aproxima-se das análises de Wittgenstein sobre a linguagem no Tractatus (1921). Ele concebe a relação entre sociedade e indivíduos tal como a entre a melodia e suas notas. Não há como pensar o simples sem examinar, desde o início, sua inserção na estrutura. Mas esta estrutura também não subsiste sem a articulação dos indivíduos que a compõem. Ela é, justamente, esta composição. Em si mesmo, portanto, o indivíduo é insaturado.

É nas relações com outros indivíduos que ele satura suas valências, emergindo daí como portador de uma determinada identidade social. Substancializar esta identidade – por exemplo, concebendo-a sob o modelo de ação e reação entre corpos físicos, ou sob o modelo fisiológico da relação entre estímulo e resposta – equivale a perder de vista a historicidade intrínseca aos fenômenos sociais. Noutros termos, equivale a perder de vista que o processo de individuação que define indivíduos transcorre no tempo e se modifica ao longo da história.

Com isto, a própria dinâmica das transformações sociais é reinterpretada. Não há porque explicá-las por uma causalidade externa às estruturas funcionais em que se inscrevem os indivíduos, hipostasiando as mudanças a que dão origem na figura hegeliana do Espírito Absoluto, da luta de classes ou (do outro lado da disputa) na decisão soberana dos grandes homens da história. Se há mudanças, estas se devem ao fato de que, em certas formas de vida, os indivíduos se alinham em grupos funcionais que entram em conflito, empurrando toda rede social para novas configurações estruturais. Veja-se, a este respeito, A Sociedade da Corte e O Processo Civilizador, onde Elias examina a modernização da sociedade ocidental, perseguindo o desenvolvimento da imagem que os indivíduos fazem de si mesmos em função dos realinhamentos estruturais que pontuam suas identidades sociais.

No fundo, a própria oposição entre indivíduo e sociedade é fruto da imagem que o homem moderno tem de si mesmo. Com efeito, tal imagem se converte em premissa da investigação sociológica, orientando a compreensão das relações entre indivíduo e sociedade. Elias reencontra seu ponto de partida: a conversão da sociologia numa metafísica que substancializa indivíduo ou sociedade decorre do estruturamento social do indivíduo moderno. A antinomia entre coletivistas e individualistas, portanto, dissolve-se numa disputa ideológica que, o autor o reconhece, possui uma enorme eficácia social. Manobra ousada, para sorte do leitor: a um só tempo, faz de Elias crítico do dogmatismo sem alinhá-lo nas fileiras do positivismo.

O projeto civilizatório da sociedade tem como ingredientes principais os conceitos de individualidade, universalidade e autonomia. A individualidade significa que os homens são tidos como entidades concretas e não apenas como participantes de uma coletivização. A universalidade diz que este projeto abrange todos os seres humanos em geral. A autonomia significa que estes indivíduos são aptos a raciocinarem per si, sem quaisquer tutelas e de sobreviverem pelo seu trabalho cotidiano (Rouanet, 1993:9).

A Modernidade instituiu uma sociedade auto-referencial, isto é, uma sociedade que se organiza e se fundamenta apenas nos valores e normas que ela mesma criou. A proeminência da subjetividade, ou seja, a colocação do sujeito como fonte da nova ordem de valores e fundamento das instituições sociais, marca dominante da Modernidade, encontra nos costumes descritos por Elias a sua raiz mais profunda.

               A sociologia, progressivamente, assume o papel de ciência central ao oferecer medida cronológica às descrições do tempo (Domenach, 1989:54).

               Na discussão sobre o modelo teórico-interpretativo de Elias observa-se uma fuga deste autor à idéia de reprodução. Só se pode fazer um uso sociológico do conceito de reprodução sob condição de uma renúncia radical à noção de contradição interna, ou seja, à idéia metafísica de que o antagonismo concebido indissociavelmente como força social e mecânica lógica é o único princípio capaz de fazer mudar o sistema social, que, de outra maneira, estaria condenado a reproduzir indefinidamente o mesmo equilíbrio. Não é a idéia de sistema que torna perigoso o uso de modelos reprodutivos, mas a confusão entre lógica operatória e a necessidade histórica.

               Verdade é que se pode medir e observar em inúmeras práticas sociais os efeitos de reprodução. Esses mecanismos que justificam empiricamente os recursos a modelos reprodutivos são historicamente inteligíveis, sem que haja necessidade de recorrer a uma lógica dialética da História. Neste sentido mínimo, o conceito de reprodução remete apenas às estratégias e interesses dos agentes definidos por sua posição num sistema, aos instrumentos de ação e aos fins que são estabilizados pelo cotidiano da ação social.

               Deve-se, pois, admitir que não pode haver nenhum modelo sistemático de mudança histórica, seja ela evolucionista, dialética ou cultural. A mudança ocorre sempre que processos reprodutivos incompatíveis se encontram. A mudança não pode surgir num modelo, porque não há modelo pré-concebível do choque entre processos independentes relativamente (Passeron, 1995: segunda parte).

 

3. A HISTÓRIA DOS COSTUMES EM ELIAS

 “Não enfie os dedos nos ouvidos, no nariz e na comida ao mesmo tempo.” (Stans Puer in Mesam, século XV).

O livro Die höfische Gesellshaft ( traduzido no Brasil como “O Processo Civilizador” em dois volumes) se inicia com uma crítica radical à abordagem histórica. Para Elias este tipo de abordagem peca por três fraquezas fundamentais: atribui geralmente um caráter único aos acontecimentos que estuda; postula que a liberdade do indivíduo é fundadora de todas as suas decisões e ações; relaciona as evoluções maiores de uma época com as livres intenções e atos voluntários daqueles que possuem poder e domínio.

               O objeto de estudo de Norbert Elias pode ser entendido como o estudo da corte dos reis de França entre Francisco I e Luís XIV. Não se trata, para o autor, de apreender a corte apenas como o lugar de ostentação de uma vida coletiva, ritualizada pela etiqueta, inscrita no fausto monárquico. O objeto do livro é a sociedade de corte em termos duplos. Por um lado, há que se considerar a corte como uma sociedade, isto é, como uma formação social onde se definem de maneira específica as relações existentes entre os sujeitos sociais e onde as interdependências que ligam os indivíduos uns aos outros engendram códigos e comportamentos originais. Por outro lado, há que se considerar a sociedade de corte no sentido de uma sociedade dotada de uma corte e organizada inteiramente a partir dela. A corte desempenha aí um papel central, uma vez que organiza o conjunto das relações sociais.

               Para Elias, o estudo de caso permite atingir o essencial, ou seja, evidenciar as condições que tornam possíveis a emergência e perpetuam tal forma social. Daí a dupla estratégia de investigação aplicada no livro. Por um lado, trata-se de considerar uma situação histórica específica e, conseqüentemente, de pôr à prova dados empíricos, factuais, um corpo de hipóteses e de conceitos. À tipologia weberiana das formas de dominação, para que remeteriam todas as situações concretas possíveis, Elias opõe uma outra abordagem, que estabelece as leis de funcionamento das formas sociais a partir do exame minucioso de uma de suas atualizações históricas. Para tanto, lança mão o referido autor da análise comparativa (Chartier, 1995:21).

               Uma das novidades aqui introduzidas por Elias é o abandono das análises mais abrangentes. As divisões tidas atualmente como evidentes, as condutas consideradas apenas racionais podem assim ser despojadas da sua suposta universalidade e reconduzidas ao estatuto de formas temporariamente circunscritas, segregadas por um novo equilíbrio social que não aquele das sociedades de corte.

               Em O Processo Civilizador as referências pertencem a dois registros diferentes. Há, em primeiro lugar, os textos franceses dos séculos XVI, XVII e XVIII, que constituem o material documental analisado. Em primeiro plano encontramos Saint-Simon bastante citado. No segundo conjunto de referências encontram-se os clássicos da historiografia francesa do século XIX e do primeiro terço do século XX (Hyman, 1982: introdução).

               Para organizar os dados históricos coligidos ao longo das suas leituras, Elias constrói um modelo de interpretação sociológica que pretende demarcar daqueles que dominavam a sociologia alemã no início dos anos ’30. O que surge com maior freqüência é evidentemente Max Weber com sua obra Wirtschaft und Gesellchaft, sobre o qual o autor em tela discute várias teses centrais, a exemplo da teoria dos tipos ideais, a oposição entre os modelos de racionalidade ou a tipologia das formas de dominação. Ao se reportar, também, a Marx, Elias critica a maneira, segundo ele, inteiramente hegeliana, de identificar as descontinuidades históricas em termos de transição do quantitativo para o qualitativo.

               Na apresentação à obra de Elias – O Processo Civilizador – Renato Janine Ribeiro chama a atenção para o fato de ser Elias um sociólogo de notável vocação interdisciplinar. Adota, o sociólogo ora em tematização, a tese de que a condição humana é uma lenta e prolongada construção do próprio homem. Diz Ribeiro que antes de Foucault, Norbert Elias entende que todo e qualquer texto ou mesmos gesto de um pensador merece, por princípio a atenção de quem o estuda. Uma rede enorme de elementos significantes assim se constitui, com a diferença que para Michel Foucault o essencial se dará numa relativa sincronia, enquanto que para Elias numa decidida diacronia – ele entende a civilização como um processo do civilizar dos costumes.

O conceito de civilité adquire significado para o mundo ocidental a partir da unificação lingüística ocorrida na Europa no final do século XVI. Um pequeno tratado escrito por Erasmo de Rotterdam – De Civilitate Morum Puerilium (Da Civilidade em Crianças) – em 1530, revela em suas linhas uma tentativa de auto-interpretação para a sociedade européia no que diz respeito às mudanças em curso naquele tempo (Elias, 1982a: 71). Neste tratado, Erasmo descreve as maneiras de conduta ditas bárbaras as quais deveriam ser evitadas pelos gentis-homens da corte, abrangendo desde as maneiras como as pessoas se entreolhavam até as maneiras de se portar em relação ao corpo próprio e dos outros (Id: 73 e seg.).

Tal como o conceito de cortesia antes, o conceito de civilidade começa lentamente a se retrair. Pouco tempo depois, o conteúdo deste termos e de outros a ele correlatos é absorvido e transformado em um novo conceito mais amplo: o conceito de civilização. Assim, três estágios marcam o desenvolvimento social à época: cortesia, civilidade e civilização (Id.: 111).

Quanto às categorias trabalhadas na obra de Elias pode-se citar a noção de formação, interdependência, equilíbrio das tensões, evolução social ou evolução das formações. No seu livro O Que É Sociologia ?, publicado em 1970, Elias define o objeto de estudo da sociologia como “redes de interrelações, as interdependências, as configurações, os processos formados pelos homens independentes” (p. 42).

               Ainda neste mesmo volume ele explicita o conceito de figuration como “uma formação social cujo tamanho pode ser muito variável, em que os indivíduos estão ligados uns aos outros por um modo específico de depend6encias recíprocas e cuja reprodução supõe um equilíbrio móvel de tensões”.

               A sociedade em transição significava maneiras em transição de igual modo (1982a: 83). O controle social, no entanto, torna-se mais imperativo e, acima de tudo, lentamente muda a natureza e o mecanismo do controle das emoções (Id.: 93).

               Como o sociólogo que trabalha cadeias de interdependências cada vez mais complexas há uma possibilidade de ultrapassar a oposição entre o homem considerado como indivíduo livre e sujeito singular e o homem considerado como ser em sociedade, integrado em solidariedade e em comunidades múltiplas. A sua sociedade parece-lhes, com efeito, um sistema tanto mais imóvel e imutável quanto a sua escala existencial da mudança e do equilíbrio social.

               Adentrando-se na obra em análise neste texto, o sociólogo germânico pensa a corte enquanto uma peça fundamental na estratégia monárquica de reprodução das tensões. Ao preservar a aristocracia como grupo social distinto, ao mesmo tempo em que se submete ao príncipe, a corte constitui o principal mecanismo que permite aos reis franceses perpetuarem o seu poder pessoal. O monopólio fiscal, o monopólio militar e a etiqueta de corte são, portanto, os três instrumentos de dominação que, conjuntamente, definem esta forma social que é a sociedade de corte. Tal análise sublinha que as relações entre os grupos sociais não devem ser entendidas exclusivamente como lutas de classes (Id.: 194-5).

               Elias enuncia assim o que é, sem dúvida, a tese essencial de toda a sua obra:

“À medida que o tecido social vai se diferenciando, o mecanismo sociogenético do autocontrole psíquico evolui igualmente no sentido de uma diferenciação, uma universalidade e uma estabilidade maiores (…). A estabilidade particular dos mecanismos de autocondicionamento psíquico que constitui o traço típico do habitus do homem ‘civilizado’ está estritamente ligada à monopolização do condicionamento físico e à solidez crescente dos órgãos sociais centrais” (Id.: 193-4).

Comentando acerca do processo civilizador fala o sociólogo:

“O processo de civilização consiste, antes de mais nada, na interiorização individual das proibições que fortalece os mecanismos de autocontrole exercido sobre as pulsões e emoções e que faz passar do condicionamento social ao autocondicionamento” (Id.: 196-8).

               A sociedade de corte é uma configuração onde o maior distanciamento social se manifesta na maior proximidade espacial. É o que se verifica no palácio aristocrático onde ombreiam e se cruzam as existências dos senhores e dos criados. É o que se verifica na própria corte, onde o rei afirma a absoluta distância que o separa da sua nobreza, ao mesmo tempo que vive, em cada instante, no meio dela.[Daí um dos traços fundamentais e originais da sociedade de corte ser a confusão existente entre a vida privada e a vida pública, ou melhor, a ausência nas práticas e nos pensamentos de tal distinção.

               Pode-se aqui, fazer um paralelo da vida cortesã com a época e a história de Nicollai Michiavelli, o qual, ao escrever sua obra imortalizadora – O Príncipe – deixou num plano aberto os segredos da corte, inclusive o manejo do poder secretamente guardado pelo soberano para seus descendentes. Traçou, deste modo o plano da sua morte diante da traição dos segredos da corte, o que veio quebrar todas as suas estruturas de manutenção de poder e soberania.

               Ao se referir à questão da etiqueta diz Elias:

“Pela etiqueta a sociedade de corte procede à auto-representação, cada um distinguindo-se do outro, e distinguindo-se todos em conjunto de pessoas estranhas ao grupo, administrando cada um e todos em conjunto a prova do valor absoluto da sua existência” (Id.: 232).

               Um outro conceito usado por Elias é o termo antigo habitus. Segundo este autor uma tal transformação não modifica apenas as maneiras de pensar, mas toda a estrutura da personalidade psíquica social nos termos do sociólogo. A refreação de todos os impulsos espontâneos, todos os movimentos imediatos produz uma forma de racionalidade inteiramente específica – o habitus – que deve adequar exatamente cada conduta à relação onde ela se inscreve e adaptar cada comportamento à finalidade que ele deve permitir atingir.

               A civilização e, por conseguinte, a racionalização, por exemplo, não constituem um processo numa esfera isolada só de idéias ou pensamento. Ela não envolve apenas mudanças na esfera do conhecimento, transformações em ideologias, mas mudanças em toda a constituição humana, na qual as idéias e os hábitos são apensa um dos setores. O que interessa é compreender as mudanças de orientação do indivíduo a nível de consciência e da reflexão até o estágio mais automático e rígido das paixões e sentimentos. Assim sendo, o modelo de superestrutura e ideologia não é suficiente (Id. 1982b: 243).

               Nas conclusões do segundo volume de O Processo Civilizador, o autor constrói uma interpretação totalmente original da circulação dos modelos culturais, que coloca no seu centro a tensão entre distinção e divulgação. A generalização dos comportamentos e condicionamentos próprios em primeiro lugar da sociedade de corte não deve ser entendida como uma simples difusão, atingindo progressivamente todo o corpo social da elite que o domina. Antes, ela é o resultado de uma concorrência que leva os estratos burgueses a imitarem maneiras de ser aristocráticas e que, por seu turno, obriga a nobreza da corte a aumentar as exigências de civilidade como forma de atribuir-lhe uma valor discriminativo.

               A gradual transição para uma conduta e pensamento mais racionais se costuma associar hoje apenas à burguesia. Freqüentemente encontramos nos estudos atuais a idéia de que a burguesia foi a originadora ou inventora do pensamento mais racional. Os processos de racionalização também ocorreram com a aristocracia, mas esta também não pode ser tomada como originadora de tal racionalização. Essa racionalização carece de um originador em particular. A própria transformação de toda a estrutura social, e dentro de seu curso ambos burgueses e nobres, é considerada certo modo uma racionalização. O que se torna mais racional não é só apenas o que os homens produzem, nem tampouco sistemas de pensamento postos em livros. O mais importante a racionalizar-se foram os modos de conduta de cerotos grupos de indivíduos. Mudanças deste tipo não surgem pois, em classes distintas, mas surgem, sim, em conjunto com as tensões entre diferentes grupos funcionais no campo social e entre as pessoas que competem dentro deles (Id. Ibid.: 271).

               Ao se reportar às noções de poder e de autoridade (1982a: 304), Elias conduz sua análise no sentido de que a atração exercida pela civilização de corte sobre os estratos inferiores da sociedade não deixa de tornar mais exigente esta mesma civilização, os condicionamentos que os grupos então dominantes fazem pesar sobre o resto do cenário social não deixam de produzir efeitos de retorno, que reforçam nos poderosos os mecanismos de autocondicionamento. Ao caracterizar cada configuração social a partir da rede específica de interdependências que nela ligam os indivíduos entre si, Elias propõe igualmente compreender, na sua dinâmica e na sua reciprocidade, as relações que mantêm os vários grupos e, desse modo, evitar as representações simplistas da dominação social ou da luta de classes.

 

4. À GUISA DE CONCLUSÃO

“Não soltes ‘ares podres’, nem escarre sobre a mesa. Faça isto na parede mais próxima”. (Tishzucht, século XI).

“Palitar os dentes? Só no banheiro e no escuro completo”. (Na Sala com Danusa, final do século XX).

               Em que sentido um indivíduo pode ser autônomo? Esta questão se apresenta sob duas faces. A face externa desta diz respeito à presença de uma psiquê no núcleo do indivíduo – seu inconsciente, suas pulsões. Por outro lado, o indivíduo traz consigo a cada instante e, em si, uma história que ele não pode eliminar, porquanto usa própria reflexividade, sua lucidez e, majoritariamente, seu produto. A autonomia do indivíduo consiste no estabelecimento de um outro tipo de relação entre a instância reflexiva e outras instâncias de ordem mais geral dentro do sistema social, bem como entre o presente e a história através da qual ele se tornou o que é. Este fato permite-lhe escapar ao jogo da repetição, de voltar-se sobre si mesmo, sobre as razões de seu pensamento e sobre os motivos de seus atos, guiado pela ilusão do verdadeiro e pela elucidação de seu desejo.

Que esta autonomia possa alterar efetivamente o comportamento do indivíduo, quer dizer que este comportamento deixou de ser puro produto de sua psiquê, de sua história e da instituição que o formou. Em outras palavras, a formação de uma subjetividade libera a imaginação singular do homem como fonte de criação e de modificação e possibilita-lhe alcançar uma liberdade efetiva que, sem dúvida, pressupõe as indeterminações de um mundo psíquico e sua permeabilidade aos sentidos, sendo estes últimos escolhidos e não apenas determinados antecipadamente.

Ao nos reportamos para o estudo dos costumes, usos e valores de uma sociedade estamos tentando investigar como as idéias, os símbolos e mitos foram se desconstruindo e ao mesmo tempo se reconstruindo no cenário que denominamos imaginário.

O imaginário social de cada época é o elemento que norteia cada sistema institucional, que subdetermina a escolha e as conexões das redes simbólicas, criação de cada período histórico, sua singular maneira de viver e de construir o mundo, de fazer sua própria existência e suas relações com o mundo exterior. O produto do imaginário é o suporte invisível que mantém unido o real que constitui a teia social.

               No que diz respeito à sociologia, esta não consiste, ou não consiste apenas, no estudo das relações contemporâneas, antes devendo dar conta das evoluções de longa duração, que permitem compreender, por semelhança ou por diferença, as realidades do presente. O seu objeto é inteiramente histórico, no sentido em que se situa no passado, mas a sua perspectiva em nada é histórica, uma vez que não se prende com indivíduos, supostos como livres e únicos, mas com posições que existem independentemente deles e com as dependências que regulam o exercício da sua liberdade.

               Daí a importância enorme da obra de Norbert Elias. O estudo das transformações sociais através da diferenciação dos seus costumes e atitudes permite transcender à teorias de ordem fechada e determinística as quais tentam dar conta de uma sociedade complexa através de funcionalismos causais.

               O deslocamento metodológico proposto por Elias vai de encontro às abordagens pretenciosamente universalizantes, tradição da sociologia clássica. Ao colocar o indivíduo ao mesmo tempo autônomo e interdependente dos fatores extrínsecos ao próprio, Elias abre a discussão sobre os paradigmas metodológicos do discurso sociológico, o que nos sugere a transdisciplinaridade como ferramenta de romper os limites acadêmicos que transformam o saber em grilhões de nós mesmos.

 

5. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

CHARTIER, Roger (1996), Lectures et lecteurs dans la France d’Ancien Régime. Internet. http:// http://www.fpuf.edu.fr.

 

DOMENACH, Jean-Marie (1989), Aproaches de la modernité. Paris, Marketing.

 

ELIAS, Norbert (1982a), The civilizing process: sociogenetic and psychogenetic investigations. Vol.1: The history of manners. Oxford, Blackwell.

 

__________ (1982b), The civilizing process. Vol.2: State formation and civilization. Oxford, Blackwell.

 

__________ (1987), O que é sociologia. 3a ed., Lisboa, Edições 70.

 

HYMAN, Maurice (1982), “Introduction to the civilizing process”, in No. Elias, The civilizing process. Vol.1, Oxford, Blackwell.

 

PASSERON, Jean-Claude (1995), O raciocínio sociológico. Petrópolis, Vozes.

 

RIBEIRO, Renato Janine (1990), “Apresentação”, in N. Elias, O processo civilizador. Vol.1, Rio de Janeiro, Zahar.

 

ROUANET, Sérgio P. (1993), O mal-estar na modernidade. São Paulo, Companhia das Letras.

Recomenda-se a leitura de A História da Vida Privada, v.2, organizada por Ariès & Duby acerca da mudança ocorrida na Europa nos domínios públicos e privados.

 


Adriano de León Prof. Doutor na UFPB.


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