SABERES EMERGENTES. Por Adriano de León

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Por Adriano de León

 

 

SABERES EMERGENTES: gênese e ocaso dos saberes do homem

“Conhecimento é invenção!”
F. Nietzsche

1. DA FERTILIDADE

A imagem de um canavial, à primeira vista, se assemelha a um tapete verde, uniforme e homogêneo. Mas qual nada. Mera ilusão aquele verdor dançante nas montanhas. Ao percorrer as alamedas deste imaginário canavial, o mito da homogeneidade cai por terra. Por entre as fileiras de cana, brotam uma multidão de plantas, seixos, diferentes tipos de solos. Até mesmo a cana se torna diferente neste olhar “por dentro”.

Imaginem agora o campo do conhecimento humano. Também ele aparece aos desavisados como território homogêneo, campo coeso de fatos comprovados e tidos como legítimos. A Modernidade e sua crença num conhecimento único – a Ciência Moderna -, é uma ilusão de que fora deste campo de saberes nada é verdadeiro. Assim, a inteligência comum, o popularesco e o imaginado, apesar de existirem de fato, são relegados a um plano inferior, fora dos conceitos da moderna ciência. Fragmentam-se os saberes, e o mundo moderno do século 15 passa a ser concebido como um panorama unificado. Fora deste quadro de saberes está o que é considerado antigo: religião, magia, contos populares, antigas tradições.

Voltemos ao campo. Sua fertilidade permite que várias formas vegetais se desenvolvam sobre seu solo. Mangueiras se misturam a helicônias apreciadoras de boa sombra; duma ramagem contígua pululam ervas e flores, umas altas, outras espinhentas; as bromélias e orquídeas se espreguiçam causando inveja à ramagem rasteira e aos musgos que existem sem que ninguém os perceba. Vem o homem, lavra a terra, planta a cana. O homem unifica a Natureza, a qual é em si biodiversificada.

Com os saberes se dá o mesmo. Não há saberes superiores a outros. Há, sim, um controle na produção do que pode ser dito, escrito ou revelado num dado momento. Como as plantas, emergem os saberes à vontade. Velhos saberes, novos saberes. O homem e seus mecanismos de controle tratam de ordená-los, apresentá-los como verdadeiros ou falsos e os amarram em estruturas como igrejas, escolas, prisões e família. O estabelecimento de uma verdade é, pois, uma das formas de controle destes saberes tão vastos quanto um campo, tão profundos quanto um oceano.

Com as mudanças nos modelos de pensar o mundo, saberes até então latentes, seja pelo afrouxamento do controle, seja pelo momento histórico ideal, brotam num processo chamado emergência. Deste modo, de emergência e controle são concebidos os conceitos que exprimem nossas interrelações, nossas idéias, nossos silêncios.

2. O CAMPO DOS SABERES

Quando afirmou F. Nietzsche que conhecer é inventar[1], o filósofo aludia à capacidade humana de criar e recriar realidades.

Para a Sociologia Histórica[2], inventar diz respeito à enunciação de signos, formulação de sentidos que dêem conta do caos que é a realidade. Com efeito, o conceito de emergência de saberes diz respeito ao aparecimento de idéias e práticas sociais que visam dar sentido ao real. Daí o erro de pensarmos sempre que os saberes emergentes são sempre novos. O novo e o velho emergem igualmente: o mundo virtual dos computadores caminha com a feitiçaria de Harry Potter; o correio eletrônico está cheio de mensagens de tarólogos, templários, pagãos e budistas; um artista gráfico ateu desenhou a página de um famoso portal esotérico na internet.

Lidar com estes saberes emergentes é formular uma série de arquivos de enunciados e imagens na perspectiva de compreender como eles foram instituídos pela realidade e também como eles instituem esta nova realidade. A idéia que lastreia conceitos como emergência e invenção é, sem dúvida, a idéia de impermanência. Há um movimento pendular na história das idéias que ora constrói, ora destrói fatos e sujeitos tidos como reais. Foi assim com o mecanicismo de Newton e a relatividade de Einstein. Daí porque o extremamente novo é um mito. O novo é uma bricolagem, um arranjo discursivo que nega o velho, mas que dele é parte.

Qualquer forma de saber só é possível porque em toda cultura, entre os usos do que podemos chamar de códigos ordenadores e as reflexões sobre a ordem, há a experiência nua desta ordem e de seus modos de ser. O conceito, pois, de campo epistemológico[3] diz respeito à configuração e à disposição que o saber assume em determinada época e lhe confere uma certeza de verdade enquanto saber[4].

Perseguindo esta lógica, a emergência de saberes só se torna possível pelo afrouxamento de algum tipo de controle dos discursos. Na estética esta emergência é mais clara, uma vez que a própria arte é um vasto canal de emissão de signos e ressignificações do mundo. Ela supera os paradigmas, os traduz e os recria. A própria Modernidade, sempre em busca do novo, é um eterno refazer dos sistemas gerais de pensamento, os quais servem de terreno para a emergência, por exemplo, de novas teses no ocidente que surgem através de mudanças nas relações de gênero, nas novas posturas da saúde, na concepção quântica do Universo e do homem.

Na busca a uma epistemologia dos saberes da Modernidade, Michel Foucault n’Arqueologia dos Saberes afirma que a cada época histórica determinada corresponde um certo campo epistemológico, uma estrutura de ordenação de saberes, um campo fértil que serve de base para sua germinação, eclosão e crescimento. Curioso é que em alguns momentos, o projeto arqueológico de Foucault assemelha-se a uma historização de Kant, isto é, enquanto o filósofo alemão falava de formas a priori a ordenar racionalmente as impressões sensíveis, o francês fala numa ordem anterior ao saber que determina as condições e características do próprio saber. O abismo entre eles está no fato de que enquanto o primeiro falava em formas universais, o segundo admite uma transformação histórica da ordenação subjacente aos saberes. Embora o campo epistemológico mude ao longo da história, porém, em cada momento há um e apenas um campo a servir de base para a eclosão dos saberes[5].

Com efeito, a compreensão do aparecimento destes saberes emergentes significa a reconstituição de um arquivo genético, uma rede de discursos que se apresenta uniforme e contraditória ao mesmo tempo. É a partir da análise dos discursos que se imbricam na constituição desta rede que se percebem estes novos saberes. A análise é, à vista disto, exterior aos conteúdos dos discursos. Portanto, analisar a acupuntura, por exemplo, não significa apenas se aprofundar nos seus conceitos e técnicas, mas sim procurar perceber a relação entre a aceitação da acupuntura no ocidente e a busca de uma nova postura nas terapias da medicina clássica.

A busca dos saberes emergentes é atrelada a uma metodologia própria, cujos passos gerais podem ser assim explicitados. Primeiramente, há que se partir da premissa de que cada domínio do saber tem seu contorno e sua especificidade própria e que é inútil tentar instaurar um ideal unitário de ciência. Em segundo lugar, procurar, no interior de cada discurso, conferir-lhe o estatuto de um texto e tratá-lo como uma rede ou um tecido de significações que vale a pena comentar ou explicitar. Em terceiro lugar, a partir dessa análise interna, examinar e estabelecer o conjunto de critérios próprios e específicos de validação da disciplina em questão e do seu ideal de verdade. O intuito deste arranjo metodológico é situar o lugar do conhecimento científico dentro dos domínios dos saberes, estabelecer seus limites e, finalmente, interrogar sobre as possibilidades deste conhecimento.

Esta epistemologia arqueológica sempre considera o saber como histórico. O saber é concebido como uma relva onde brotam e se misturam conceitos que em sua montagem determinam sua fertilidade. O saber é um campo que reveste a terra nua. Os arados do saber são as estratégias metodológicas. Os cientistas são os camponeses que produzem um saber que servirá para nomear as funções, definindo normas e significações.

A emergência de saberes significa, antes de tudo, a emergência de novos sujeitos e de novas práticas sociais. Uma das premissas da Sociologia Histórica propõe uma inversão na tradição intelectual de pensar um sujeito constituindo um saber: é o saber que constitui os sujeitos! Este é o princípio do sujeito posicional. Nesta abordagem não existe o sujeito fixo, mas processos de sujeição que constroem os sujeitos nos diferentes discursos. A sociedade possui, neste sentido, um conjunto ordenador de discursos que servem de nomenclatura de controle: códigos legais, dogmas religiosos, conceitos científicos dispõem sobre o bem e o mal, o certo e o errado, o aceito e o negado.

Os festejos juninos e natalícios são um exemplo deste controle e de como ele surge de maneira a oferecer um modelo para toda a sociedade. Estas festividades católicas, na verdade, são resultado da perseguição da Igreja Católica aos cultos pagãos. Os festivais juninos e o Natal são períodos considerados sagrados nos rituais mágicos, uma vez que representam um culto solar antiqüíssimo.[6] Coincidindo com os solstícios de inverno e verão, o culto a terra e sua fertilidade, o culto ao fogo e seu poder regenerador, o culto à água como fonte de vitalidade e, por fim, o culto ao ar como capacidade de expansão, foram revestidos do discurso cristão do culto aos santos: São João, São Pedro, São José, Santana e o nascimento de Jesus de Nazaré. O discurso do calendário cristão, no qual se inscrevem estas datas, foi um capricho da Igreja Romana, pois o dia 25 de dezembro era uma data pagã, dia em que se comemorava o aniversário de Mitra, deus da fertilidade e renascimento. O nascimento do sol, no solstício de inverno, 25 de dezembro, foi uma adaptação cristã dos muitos cultos de fertilidade e festivais pagãos que ocorriam neste período por toda Europa.[7] Em vez de combater o paganismo, discurso religioso o incorporou. O discurso cristão converteu naturalmente as práticas religiosas pagãs em hábito. Por exemplo, o costume de colocar partes do corpo nas igrejas era comum nos templos pagãos de Ísis e Osíris. O gesto de benzer dos padres representava originalmente a benção e proteção do Sol.[8] Oriundos da Magia, os cultos agrários de fertilidade relacionavam a terra com a mulher e estas com a fecundidade. Nestes cultos, as hierofanias vegetais desempenhavam papel significativo. As festas da colheita representam bem isto. O culto aos quatro elementos da Magia – terra, fogo, água e ar – não foram adaptações da Magia ao catolicismo e sim adaptações do catolicismo à Magia. A religião oficial, na vã tentativa de banir a Magia, fez coincidir o culto aos santos com os grandes festivais da colheita. Em sendo um discurso oficial, faz-se parecer que os grandes festivais de fertilidade de junho e julho são festejos puramente cristãos. Para a região Nordeste, as festas juninas não representam apenas o folclore dos santos, mas o culto à fertilidade da terra e das mulheres num tempo cíclico do nascer e renascer eternos. Nestes cultos as idéias basais da Magia estão presentes: o unicismo, as correspondências, o naturalismo, os ritmos e as oposições. Confundem-se homens e meio natural na busca da fertilidade da terra e das mulheres homenageadas nas figuras da Virgem de ventre sagrado.

A abertura destes arquivos, na investigação da emergência de novos saberes, nos conduz quase sempre a um olhar na atualidade. Para a Sociologia Histórica, o conceito de emergência se liga à noção de acontecimento. Central nas abordagens analíticas cujo objeto seria o simbolizado pelo homem, a noção de acontecimento diz respeito a uma irrupção de uma singularidade única e aguda que se dá no momento da produção de um dado saber. As teses gerais aqui apresentadas partem essencialmente das formulações de Foucault.

Neste lastro, aproxima-se Foucault, ao mesmo tempo, das margens do conhecimento bem como da linha transversal dos saberes por ele denominada de discurso. O autor em tela estuda as arqueologias ou genealogias dos saberes produzidos na Modernidade, sugerindo ao leitor uma forma de observar a História a partir de uma reflexão de como ela foi escrita, quem a produziu e quais as condições exteriores a esta produção. Não é errôneo considerar a genealogia proposta por Foucault como uma história do presente, na qual a arqueologia representa um meio de análise. Seguindo os passos de F. Nietzsche, a trajetória metodológica de Foucault tem influências da Escola dos Annales e da também francesa história das ciências de G. Bachelard e G. Canguilhem. A problemática básica destes autores e escolas é a questão crucial da relação entre continuidade e descontinuidade das narrativas sociais, obtidas através do princípio da problematização. Para tal princípio, qualquer texto, seja ele escrito ou oral, iconográfico ou emblemático, seria um discurso vivo, o qual deveria, antes de qualquer coisa, ser posto em questão quanto a sua autoria, enunciados e conceitos. Busca-se, assim, pela abordagem arqueológica, não o discurso puro – este não existe! – mas as imbricações deste com outros discursos numa trajetória não retilínea, não ordenada, mas descontínua e, às vezes, caótica.

O percurso da Sociologia Histórica estabelece uma análise da trajetória das formas históricas do saber sem preocupar-se com sua origem ou fim. Este modelo teórico pretende deixar em aberto a dispersão da transformação histórica, a rápida mutação dos eventos, a multiplicidades de temporalidades, as diferentes formas de espaço e tempo, bem como a possibilidade da revisão de fatos tidos como verdades históricas. Isto começa com a crítica de Foucault, via F. Nietzsche, chamada história efetiva ou história do presente, uma síntese do percurso histórico das formas de saber e sua organização social.

3. OS ARQUIVOS

Saberes Emergentes são formas discursivas. São textos já ditos, palavras soltas, gestos extremos capturados por outros enunciadores, interpretados por indivíduos, instituições e sociedades que arranjam os signos mediante um campo epistemológico definido.

A execução de uma pesquisa a partir deste referencial teórico-metodológico requer algumas considerações iniciais. De logo, eliminar o tema da continuidade tão enfatizado pelas Ciências Sociais. Continuidade aparece como uniformidade discursiva, o que é falso. A uniformidade é vista apenas quando percebemos a superfície das coisas. O descontínuo na formação dos discursos significa perseguir a emergência de fatos e saberes que se agregam a este discurso que parece estar uniformemente colorido. Disto decorre a suspensão de noções como evolução retilínea, de progresso. O uso de todos estes conceitos em si pode mascarar um panorama social que, por outra análise, poderia ser melhor investigado. Proponho, antes, reconstruí-los para que se visualize como a partir deles a sociedade pôde reagrupar uma sucessão de acontecimentos dispersos e arrumá-los num único e mesmo princípio organizador.

Sobre a produção de discursos, M. Foucault[9] enuncia que

As práticas discursivas caracterizam-se pelo recorte de um campo de projetos, pela definição de uma perspectiva legítima para o sujeito do conhecimento, pela fixação das normas para elaboração de conceitos e teorias. Cada uma delas supõe um jogo de prescrições que determinam exclusões e escolhas.”

Neste contexto, a emergência dos saberes de cunho orientalista na esfera da religião, da saúde, da compreensão da natureza, entre outros, é marcada por uma certa desilusão da sociedade ocidental, pós II Guerra Mundial, marcada pela real capacidade do homem destruir a própria humanidade. Eis que surgem as teorias da relatividade e as teses quânticas quebrando a idéia do tempo e espaço fixos e sempre existentes. As religiões orientais desabrolham nos países ocidentais alterando o discurso unicista imposto pelo cristianismo romano. Novas relações de gênero surgem no movimento hippie e nas manifestações feministas, desconstruindo a figura do masculino dominador, pai e patrão. Jung abala os alicerces da psicanálise com a sua leitura do tarô e sua concepção dos signos transpessoais. Seringas, bisturis e CTI’s passam a conviver com yoga, reiki, acupuntura, meditação, alinhamento dos chacras. As Ciências Sociais, saberes produzidos no século 19, desconstroem seus conceitos e suas metanarrativas e voltam seu olhar para estudos interdisciplinares que visam romper com as fronteiras da rigidez disciplinar da Ciência Moderna.

Tratar da emergência de saberes nos conduz a perceber novas visibilidades, novos discursos, novos objetos que permitem falar do que antes se encontrava em repouso ou silenciado pelo controle discursivo. Controle é poder.

Saberes e poderes caminham juntos. Por conseguinte, a emergência de saberes não se dá de forma aleatória e facilitada. A Ciência Moderna impõem-nos seus valores e dogmas à semelhança de um discurso religioso. Os Conselhos Federais de Medicina, Fisioterapia, Psicologia, entre outros exemplos, punem severamente profissionais que façam uso de terapias que não sejam por estes reconhecidas. O reconhecimento, portanto, é uma forma de controle de cunho legalista que visa coibir práticas terapêuticas alternativas às clássicas. As vertentes religiosas mais radicais, por outro lado, induzem seus fiéis a acreditar que antiqüíssimos símbolos religiosos são sinais do diabo. Desta maneira, há a demonização do antigo que visa barrar quaisquer práticas religiosas que se apresentem como outro modelo de fé.

4. O ESPELHO DO MESMO

Saberes emergentes são parte de uma rede de conhecimento, o campo epistemológico, terreno sobre o qual destroem-se evidências e erguem-se novas falas. Esta rede é formada pelo entrelaçamento de vários processos de sociabilidade manifestados pelos diferentes discursos os quais podem se apresentar ilusoriamente como se fossem um só. Desta maneira se é possível enxergar o aparecimento de sujeitos pela imposição de um dado discurso.

É o caso da mulher, do camponês, do degredado, vistos como maléficos pelo discurso da bruxomania. Era considerado bruxaria um conjunto de práticas atribuídas à presença do diabo no meio humano. Os manuais da Inquisição apontavam para uma série de sinais evidentes de bruxaria. O Malleus Maleficarum, o mais conhecido destes manuais inquisitoriais, na sua segunda divisão, traça o perfil de uma bruxa ou bruxo, bem como a arte de identificar tais elementos malignos através de meios próprios, armadilhas de palavras, contradições e possíveis identificações com o Diabo. A última parte é um código normativo processual penal, que ordena desde a peça acusatória até a sentença sem apelação.[10] Se a bruxa ou bruxo não existisse de fato, passaria a existir a partir deste manual de caça – eu diria constituição – às bruxas.

No plano humano, o mal personificado no gênero masculino aparece na figura do judeu como matador de Cristo, fariseus pecadores e hipócritas da sociedade. As principais fontes deste antijudaísmo se acham no teatro religioso, nas comédias populares e no discurso teológico, responsáveis pela sujeição do judeu ao maléfico.

Na metrópole lusitana dá-se um fato[11] comprobatório deste imaginário do maléfico. Em Lisboa, no ano de 1506, em pleno decorrer de uma cerimônia na Igreja de São Domingos, os assistentes de súbito gritam “milagre!” ante a visão de um crucifixo que passa a resplandecer. Mas um homem da assistência duvida: tratar-se-ia apenas de um reflexo. Imediatamente chamado de cristão-novo é condenado à morte e queimado. A rebelião que se seguiu a este fato durou três dias, provocando duas mil mortes.

São duas as acusações contra os judeus: a usura e o deicídio. As recorrentes crises no sistema monetário das cidades, acompanhada da falência de principados, de burgueses aventureiros, colocavam os judeus e sua lógica de possuir bens móveis, além do desenvolvimento do sistema de empréstimos a juros, na posição de alvo principal contra o que se denominava na Europa Moderna de usura. A idéia de extorsão e o enriquecimento a olhos vistos dos judeus foram acrescidos da balda de deicídio que a cristandade popularizou no Novo Testamento. Riqueza desmesurada em detrimento da população empobrecida e a acusação de serem os descendentes dos assassinos de Jesus Cristo também colocam os judeus como cúmplices do Diabo e suas espertezas para desvirtuar os homens.

Ainda no plano humano, o gênero feminino teve sua sujeição à maldade a partir do imaginário da bruxa. Sem embargo, a invenção da bruxa foi possível com a emergência de vários outros discursos. Um discurso teológico que impunha à mulher o status de fornicadora, sortílega e parceira do Diabo, conforme indicava o Malleus. Um discurso biológico que definia como inferior à estrutura da mulher em relação ao homem. Um discurso jurídico, o qual tomava a mulher como um “segundo sexo”, inferior ao homem nos direitos e no convívio social. Os próprios manuais de inquisição se encarregaram de alimentar a pecha de inferioridade feminina na organização da sociedade. Um discurso literário e iconográfico que representava a figura feminina como responsável pela queda do homem do Paraíso ou como a mítica virgem não consumida pelos pecados da carne.

No aspecto mais geral, o mundo urbano moderno representou um certo controle dos discursos ligados à Natureza. Os cultos de fertilidade, na sua maioria cultos pagãos, foram considerados cultos satânicos e seus seguidores perseguidos sob a acusação de bruxaria.

O controle discursivo se dá por certos procedimentos que têm por meta dominar a emergência de discursos e práticas que possam representar alguma forma de contra-poder ao que é imposto como verdade. É a partir da Modernidade que as formas de repressão discursiva ou de controle das idéias se dá de maneira mais radical. A propaganda massiva das mídias dita os modelos sociais que, uma vez introjetados, são aceitos como formas verdadeiras. A ordenação da dicotomia certo / errado, virtude / pecado, dá-se pelo predomínio de discursos que têm a Ciência e a Religião como lastros da absoluta verdade. Desta forma são impostas as louras como ícones das crianças num país de morenas. Desta maneira, reprime-se o tabagismo enquanto se veicula o consumo do álcool em todos os veículos de comunicação. Aparece Marcelo Rossi e sua fantasia aeróbica, ao mesmo tempo em que se apregoa uma nova inquisição para os movimentos esotéricos, magia, cultos orientais e ritos pagãos.

Assim, mesmo a Modernidade não é suficiente para descalar o conhecimento anterior. Este resiste em novas formas, sob outros enunciados, nas falas ou nos silêncios de outros sujeitos. No mundo dicotômico da Modernidade, os princípios da falsidade e da verdade orientavam os discursos que deveriam ser aceitos e aqueles que não. Origem e autoridade do conhecimento eram patamares que estabeleciam o que deveria ser verdade. O controle dos discursos se dá, então, por mecanismos visíveis – códigos, poder de repressão – e por outros invisíveis – ideologias, teorias, imaginação.

Não obstante este controle, os saberes reprimidos não desaparecem à primeira investida. Neste jogo poderoso de forças, há um movimento de resistência que permite a latência destes saberes. Como sementes, repousam em dormência à espera de um tempo certo para emergirem, aparentemente, como um novo saber. Neste aspecto, uma das formas mais inteligentes de resistência é o silêncio. O não-dito preserva os enunciados que não devem ou não podem ser expressos numa dada circunstância. Funciona o silêncio como um código ético e hermético, dado a saber a uns poucos apenas.

A partir desta lógica, as teses de Galileu e Kepler são silenciadas pelo Papa, e mais tarde aparecem nas teorias de Newton. Portanto, não se pode falar de idéias mortas, pois dos seus escombros se edificam outras tantas.

Os pensadores modernos e sua tentativa de ordenar as coisas, a famosa disciplinarização dos discursos, não se deu apenas no âmbito das Ciências Naturais. A instauração de uma temporalidade diferenciada em espaços diferenciados é um dos lastros principais de teorias sociais sobre conceitos fixos no tempo e no espaço, como homem, cultura, povo, governo, Estado, religião.

Com efeito, a criação de conceitos implica na criação de sujeitos. Do bruxo ao mago erudito, do alquimista ao bioquímico, do astrólogo ao astrônomo, o mesmo discurso se descortina em novos enunciados e sujeitos novos. Com a erosão do campo epistemológico, o astrólogo que era outrora um conhecedor de todas as artes mágicas se reduz a uma especificidade em sendo astrônomo. Individualizam-se não só os sujeitos, mas as formas de saber. Os saberes são compartimentados, fragmentados e disciplinados por uma rede de poderes que orienta o quê, quando e como algo pode ser dito.

Um novo milênio desponta. Com ele, novos saberes irão certamente emergir para da conta do inusitado real. Novos conceitos se entremeiam com os velhos. Uma Pós-Modernidade alvorece deixando claro que o mundo fechado das disciplinaridades se abre para a possibilidade da quebra de fronteiras entre as ciências, rumo a uma transdisciplinaridade. Como há 500 anos atrás estamos numa sociedade híbrida na qual convivem o arado e o satélite, a benzedeira e o internauta, o mago e o clone.

Os discurso do novo milênio são como uma enxurrada que escavam a terra formando novos leitos. Porém como tal, arrastam na sua correnteza vários enunciados, sujeitos e práticas que ora emergem como o extremamente novo, ora silenciam como falas que ainda não podem ser ditas.

O que percebemos é a superfície. Todavia, eis que há nas profundezas destes discursos uma complexidade de subjetividades que apontam para o novo, que apontam para o velho. Na superfície, conjuntos de saberes são destruídos e dão lugar aos novos saberes. No entanto, só o novo aparece na paisagem. Pura ilusão. O antigo e o novo são apenas faces de uma mesma superfície que se dobra, redobra e se renova. Subitamente da explosão de mil sóis, do choque de mil cometas, do rasgo de mil trovões, emerge um planeta azul e seus abismos que ecoam nossos ditos, mal-ditos e bem-ditos.

Adriano de León Prof. Doutor na UFPB.

NOTAS
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
CAVENDISH, Richard. History of Magic. Londres, Arkana, 1990.
CERTEAU, Michel de. A Invenção do Cotidiano. Petrópolis, Vozes, 1994.
DEAN, Mitchel. Critical and Effective Histories. Foucault’s Method and Historical Sociology. Londres, Routledge, 1996.
DELUMEAU, Jean. História do Medo no Ocidente: 1300 – 1800. São Paulo, Companhia das Letras, 1990.
ELIADE, Mircea. Tratado de História das Religiões. São Paulo, Martins Fontes, 1993.
FOUCAULT, Michel. As Palavras e as Coisas. 5ed. São Paulo, Martins Fontes, 1990.
____________. Arqueologia do Saber. Rio de Janeiro, Forense, 1986.
____________. Resumo dos Cursos do Collège de France (1970-1982). Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1997.
GUENON, Renée. Os Símbolos da Ciência Sagrada. São Paulo, Pensamento, 1993.
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MACHADO, Roberto. Ciência e Saber. 2ed. Rio de Janeiro, Graal, 1981.
MURRAY, Margareth. The Witch Cult in Western Europe. Londres, Ridell, 1979.
NIETZSCHE, Friedrich. A Gaia Ciência. São Paulo, Ediouro, 1990.
THOMAS, Keith. Religion and Decline of Magic. Londres, Oxford, 1991.
[1] A proposta básica de F. Nietzsche em O Crepúsculo dos Ídolos, 1983, p. 187-223, é construir uma filosofia “a marteladas” que derrube os ídolos da Modernidade.
[2] Vide M. Dean, Critical and Effective Histories, 1998: introdução.
[3] A este campo epistemológico, M. Foucault denomina epistèmê. Nesta texto o termo será comumente denominado de campo epistemológico.
[4] Recomendo a leitura de Ciência e Saber, de R. Machado, 1981: 148-9.
[5] Cf. M. Foucault, As Palavras e as Coisas, 1990: 181. Foucault toma o conceito nietzscheano de genealogia para afirmar o conceito de emergência. Nesta mesma linha, M. de Certeau, A Invenção do Cotidiano, 1994, lida com o conceito de invenção nos mesmos moldes da noção de emergência.
[6] Vide, para maiores detalhes, F. King & S. Skinner e R. Guénon, em Tecnicas de Alta Magia, 1990e Os Símbolos da Ciência Sagrada, 1993, respectivamente.
[7] Para saber mais, consulte de B. Leite e O. Winter, Fim de Milênio, 1999, bem como as referências a este mesmo tema em M. Introvigne, M. Murray e K. Thomas.
[8] Cf. R. Cavendish, A History of Magic, 1990: 47 e seg. Também recomendo M. Eliade, Tratado de História das Religiões, 1993.
[9] Resumo dos Cursos do Collège de France (1970-1982): 11
[10] Ao observarmos os processos da Inquisição na Colônia Brasileira, há todo um sentido processual semelhante ao Malleus.
[11] Narrado por J. Delumeau, op. cit. : 287.

Saberes e Olhares

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