ENSAIO SOBRE A DEMONOLOGIA MEDIEVAL. Por Carlos Barros

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ENSAIO SOBRE A DEMONOLOGIA MEDIEVAL

Por Carlos Barros

É em nome de Deus e dos emissários do bem que a Santa Igreja, ao longo do período medievo, busca exercer o poder através das práticas de punição, tortura e morte. Neste intuito, a Santíssima Igreja não deixa de lançar mão da figura do Diabo como justificativa a fim de perseguir os outros, os supostos agentes do mal. Nessa época, quando o cenário político-religioso parece adentrar num colapso, tem início um processo de perseguição aos inimigos da cristandade.

A Igreja passa a administrar cruzadas contra o islamismo, contra os hereges e contra os próprios “irmãos cátaros” que são trucidados por questionar a riqueza e a pompa dos herdeiros de São Pedro. Contudo, o poder eclesiástico ainda é hegemônico, não alimenta nenhuma pretensão de se curvar perante as agitações políticas e econômicas, não comunga a ideia de retroceder perante os adversários de Deus, perante os que abandonam o rebanho. Exercer o poder através do medo torna-se, aos olhos da Santa Igreja, uma das melhores estratégias para disciplinar os infiéis e pecadores.

Especialmente a partir do século 14, o medo do Diabo e daqueles apontados como seus supostos agentes irá ter uma enorme amplitude. Os conceitos e imagens que se multiplicaram ao longo da Idade Média serão herdados pela renascença e expressos de um modo intenso. Mas a gestão dos medos no que tange ao Diabo, também se fundamenta a partir de um saber elaborado por homens ligados à Igreja.

Se Deus é amor e misericórdia quem é o responsável pelos males que recaem sobre a humanidade? Essa questão durante muito tempo vai lançar os letrados da Santíssima Igreja na arena dos debates. De fato, os problemas levantados por Agostinho parecem não conceder ênfase ao monismo que emerge no Antigo Testamento (AT), no qual Jeová ou Javé, o deus de Israel, emerge muitas vezes de forma ambivalente.

Assim, o movimento escolástico busca na Bíblia um saber tradicional que possa nutrir o discurso cosmológico e doutrinário a fim de manter o exercício do poder eclesiástico. Num cenário político e econômico onde o contraste entre a riqueza da Igreja e a pobreza da maioria das pessoas fica cada vez mais acentuado, torna-se imprescindível, para os teóricos medievais, explicar a natureza do mal.

Contudo, há uma preocupação em manter preservada a imagem do Deus amoroso e da Santa Igreja, tanto o Altíssimo como os herdeiros de São Pedro não podem ser relacionados a toda sorte de adversidade e injustiça que recai sobre a humanidade. O poder necessita encobrir as profundas desigualdades sociais e econômicas entre o alto clero e o povo. Os homens letrados da Igreja, portanto, são levados a promover, à luz da narrativa bíblica e da lógica, debates acirrados, buscam explicar a gênese do mal de modo que a culpa não incida sobre o Deus amoroso e, principalmente, sobre os santos padres. Não cabe aqui tratarmos em minúcia as diversas concepções que vieram à tona ao longo desse período, mas é oportuno destacar, em poucos parágrafos, algumas interpretações que acabaram marcando profundamente a visão cristã em relação ao dualismo entre bem e mal.

O AT não confere um lugar de relevo à figura de Satã como personificação do mal. A palavra Satan deriva de um termo hebraico que significa adversário ou opositor. Quanto à palavra Diabo, que vai atravessar praticamente todos os evangelhos do Novo Testamento (NT), ela procede, por meio do latim, do grego diabolos, que é tradução do satan hebraico.[1] Outros nomes como Belial, Belzebu e Demônio também aparecem ligados ao Diabo nos escritos bíblicos.

Cumpre lembrar, no entanto, que a palavra “demônio” para os antigos gregos não tinha a mesma conotação que passou a ter no discurso cristão, no qual o termo surge como sinônimo de Diabo. De fato, a palavra “demônio” procede do termo grego dáimon, uma palavra imprecisa, pois não representa basicamente uma figura maligna. De qualquer forma, acreditava-se que um “demônio bom” teria acompanhado Sócrates até os últimos momentos de sua vida.

Todos esses nomes, com o passar do tempo, acabaram sendo adotados como sinônimos para designar o Príncipe das Trevas. Embora sendo uma tarefa espinhosa encontrar nas metáforas do AT todas as figuras que porventura possam estar vinculadas ao mal, muitos teólogos cristãos tentam rastrear a presença do Diabo e seus múltiplos disfarces.

As figuras ou personificações zoomórficas de Satã emergem na maior parte dos discursos teológicos. Aos olhos da maior parte dos letrados da época, a imagem da Serpente é um dos primeiros simulacros de Satã que aparecem na Bíblia. No livro do Apocalipse (12,9 NT), a Serpente surge associada à figura de um Dragão durante a batalha cósmica entre Deus e o Diabo. Vale salientarmos que essa mesma passagem bíblica acaba sendo utilizada para tentar explicar a origem do próprio Diabo sem, no entanto, envolver a imagem do bom Deus. Os teóricos cristãos buscam relacionar o texto de Isaías (12,9 AT) com os versículos do Apocalipse. Em tal interpretação, o profeta do AT sugere que Lúcifer teria sido o mais belo anjo criado por Deus, mas que, em dado momento, sentiu orgulho da sua posição e decidiu tomar o trono do Altíssimo.

Com a hipótese da queda de Lúcifer, alguns intérpretes das escrituras se esforçam ao máximo para assegurar certa neutralidade do Altíssimo. O argumento: Deus é todo amor e jamais poderia ter criado o mal, a culpa foi do anjo rebelde. Com isso, Lúcifer teria perdido não apenas seu lugar no céu, mas também sua referida formosura. Santo Anselmo, já no fim do século 11, é um dos que se debruça com afinco para tentar elucidar a origem do mal à luz da razão escolástica. Anselmo, depois de idas e vindas aos textos sagrados, acaba chegando a conclusões que ratificam a culpa de Lúcifer: definitivamente o mal não é uma sombra de Deus. O anjo rebelde pecou voluntariamente e introduziu o mal moral no mundo e, em seguida, espalhou esse mal ao enganar Adão e Eva.

De qualquer maneira, o dilema da ambivalência do Deus cristão e a tentativa de colocar sobre o Diabo a responsabilidade dos malefícios parece não ter uma solução definitiva. Porém, a incansável busca por um significado claro da personificação e da presença do mal no AT encontra seu ponto alto no prólogo do texto de (1,6). Nesse antigo texto, Satã parece exercer um papel coadjuvante, pois é o Altíssimo quem define as regras do jogo no qual se apostam a fé e a perseverança de Jó. E o que torna a questão ainda mais espinhosa para os escribas da Igreja medieval é conciliar ou tentar esclarecer esse aparente monismo e hierarquia na corte celeste. Ora, se de fato o Satã que aparece no texto de é a Serpente citada no texto do Gênesis (AT) ou mesmo o Diabo que emerge no NT, então a reputação do Altíssimo fica arranhada, pois o bom Deus torna-se, na mais simples das hipóteses, coautor do mal.

Mas se o AT não concede muita ênfase ao Príncipe das Trevas, a narrativa do NT é rica em referências ao Inimigo de Deus e da Igreja. De fato, não há como se referir ao discurso do NT sem ter em mente a figura do mal, pois nos evangelhos o Diabo aparece como o principal oponente do Messias. Cristo e Satã se encontram várias vezes na narrativa bíblica, antecipando, segundo os interpretes das escrituras, a grande batalha cósmica entre o bem e o mal que se concretizará no Juízo Final.

Sob essa atmosfera demoníaca onde se respira a dualidade entre bem e mal, onde se imagina uma batalha invisível por trás das práticas humanas, o poder eclesiástico decide agir de forma ainda mais sistemática contra os supostos poderes do Maligno. Assim, durante o ano de 1234, sob o comando do Papa Gregório IX, a Igreja institucionaliza sua repressão contra seus inimigos, contra todos que acredita serem agentes de Satã. Os cátaros, judeus e mulçumanos são, no princípio, alguns dos sujeitos privilegiados sobre os quais recai a sorte da perseguição, da tortura e da morte promovida pela Inquisição. O medo e a desconfiança são apregoados até prenderem toda a Europa num profundo cerco de controle social.

O elemento feminino, gradativamente, vai se destacando como ameaça, vai emergindo como um diabólico incômodo aos olhos dos homens da Igreja. Acusada da prática de feitiçaria, a mulher torna-se o principal alvo da inquietação dos juízes eclesiásticos. A mulher, este ser que, segundo certa interpretação bíblica, teria sido a responsável pela queda do homem, pois, não resistindo à tentação da astuta Serpente, levou seu companheiro Adão a comer do fruto proibido e, por isso mesmo, foi castigada pelo Criador. Gênesis (3,16): “…Javé Deus disse então para a mulher: ‘vou fazê-la sofrer muito em sua gravidez: entre dores, você dará à luz seus filhos; a paixão vai arrastar você para o marido, e ele a dominará”. Em Eclesiástico (25,12) está escrito que “…nenhuma ferida é como a do coração, e maldade nenhuma é como a da mulher. (…) Prefiro morar com um leão ou dragão a morar com mulher maldosa…”[2]

As Escrituras parecem não deixar margem de dúvida. A mulher é um ser perigoso, uma presa fácil aos propósitos de Satanás, pois exala sua sexualidade para distanciar o homem do caminho da salvação. A partir desta perspectiva, os homens da Igreja encontram no saber bíblico o fundamento de que precisam para justificar o seu medo do feminino. Nesse ponto, importa sublinhar dois aspectos: o primeiro diz respeito ao crime de bruxaria. De fato, as mulheres compõem um número bem maior dentre as vítimas, mas os homens também não escapam ao olhar inquisitorial. O segundo aspecto está relacionado ao próprio conceito de feitiçaria e bruxaria que muitas vezes aparecem como sinônimos.

A conexão da feiticeira com o mal ou, mais precisamente, da mulher com o Diabo vai ser expandida com a divulgação do Malleus Maleficarum (O Martelo das Feiticeiras). O papa Inocêncio VIII, em dezembro de 1484, promulga uma bula na qual amplia enormemente a autoridade dos inquisidores alemães Heinrich Kramer e James Sprenger. Vejamos o que escreve Inocêncio VIII:

de fato, chegou-nos recentemente aos ouvidos, não sem que nos afligíssemos na mais profunda amargura, que em certas regiões da Alemanha do Norte, e também nas províncias, nas aldeias, nos territórios e nas dioceses de Mainz, de Colônia, de Trèves, de Salzburg e de Bremen, muitas pessoas de ambos os sexos, a negligenciar a própria salvação e a desgarrarem-se da Fé Católica, entregaram-se a demônios, a Íncubos e a Súcubos, e pelos seus encantamentos, pelos seus malefícios e pelas suas conjurações, e por outros encantos e feitiços amaldiçoados e por outras também amaldiçoadas monstruosidades e ofensas hórridas, têm assassinado crianças ainda no útero da mãe (…). Essas pessoas miseráveis ainda afligem e atormentam homens e mulheres[3]

Escrito em 1484 pelos dois padres alemães, o Malleus está entre os mais importantes tratados teológicos sobre o Diabo e bruxaria do fim da Idade Média. Publicado em várias edições, torna-se leitura quase que obrigatória de teólogos e caçadores de feiticeiras, transforma-se num verdadeiro manual para conhecer as diabruras do Inimigo de Deus. Eis um ingrediente a mais na acusação dos inquisidores. Centenas de mulheres são torturadas e queimadas não apenas pela prática de feitiçaria ou pela manipulação de encantamentos, mas também por se acreditar que tenham mantido relações sexuais ilícitas com o próprio Maligno. Não sendo ainda suficiente certa associação entre o sexo, a mulher e o pecado, agora o discurso dos autores do Malleus visa esmiuçar os pormenores dessa luxúria satânica.

Mas quem são esses abrasadores amantes que se apoderam tanto do corpo feminino quanto do masculino? No caso dos homens, são os “Súcubos”, demônios específicos que assumem a forma feminina para enganar e seduzir o indivíduo. No que tange à mulher, são os “Íncubos”, demônios luxuriosos que as possuem com o propósito de fecundá-las com o sêmen colhido e transportado de um corpo masculino. Mas poderia o Diabo ser capaz de transportar algo no mundo material? Questões que Kramer e Sprenger tentam responder aparentemente sem muita dificuldade:

a razão, porém, por que os demônios se transformam em Íncubos ou em Súcubos não está no prazer, já que, enquanto espíritos, não possuem nem carne e nem sangue; mas é sobretudo com essa intenção – através do vício da luxúria – que conseguem infligir aos homens duplicado mal, ou seja, ao corpo e à alma, de sorte que os homens possam se entregar mais a todos os demais vícios. E não há dúvida de que sabem qual a melhor disposição dos corpos celestes em que o sêmen é mais vigoroso, já que os homens assim concebidos serão sempre pervertidos pela bruxaria.[4]

Todavia, a figura do Satã medievo começa adentrar num gradativo declínio, o qual vai se acentuar principalmente durante o século 18 quando a Revolução francesa irá impor um duro golpe nas concepções cristãs e nas estruturas do poder eclesiático.

Por Carlos Barros


[1] Ver RUSSELL, Jeffrey Burton. O diabo: as percepções do mal da antiguidade ao cristianismo primitivo. p. 173-174.

[2] Ver BÍBLIA. Português. Bíblia sagrada: edição pastoral. p. 922.

[3] Ver KRAMER Heinrich e SPRENGER, James. Malleus Maleficarum. Tradução de Paulo Fróes. 5. ed. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, 1991. p. 43.

[4] Ver KRAMER Heinrich e SPRENGER, James. Malleus Maleficarum. p. 84.


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