O ESTADO, A IGREJA E A POLÊMICA DO CRUCIFIXO. Por Carlos Barros

Cristo de São João da Cruz - Salvador Dali (1951)

Cristo de São João da Cruz – Salvador Dali (1951)

O ESTADO, A IGREJA E A POLÊMICA DO CRUCIFIXO

Por Carlos Barros

Aparentemente havia uma harmoniosa convivência entre o Estado e o poder Eclesiástico, especialmente no Brasil. Mas o velho dito popular nos diz: “as aparências enganam”. Enganaram-se os que acreditaram na paz entre judeus e romanos. Os que acreditam na paz entre palestinos e israelenses. Os que acreditam na democracia do governo norte-americano perante o talibã. Enganam-se os que acreditam que vivemos num mundo de paz, particularmente entre as lésbicas e os cristãos, entre a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e a Igreja Católica. Refiro-me aqui à “polêmica do crucifixo” que vem se ampliando.

Conforme uma matéria publicada na Folha.com, a origem da celeuma teria sido “a Liga Brasileira de Lésbicas que mandou tirar os crucifixos de todas as salas da Justiça do Estado” gaúcho. E tudo indica que esta Via Crucis do maior símbolo cristão vai desaguar no profano Congresso Nacional. Mas devo ressaltar: este texto é laico! Não escrevo em nome de algum deus ou religião, e muito menos em nome da Ciência com sua mensurada “verdade” e cânones sagrados. Meu propósito é lançar algumas faíscas reflexivas sobre tal polêmica.

 

Ainda creio na difícil, e talvez inatingível, tolerância religiosa. E por falar em “tolerância”, é interessante enfatizar que esta discussão do crucifixo em repartições públicas emerge de uma organização homoafetiva. Sabemos que cristãos e homoafetivos dificilmente conseguem ocupar o mesmo espaço. De um lado, o discurso do respeito às diferenças sexuais, de outro, o discurso do pecado, do respeito aos mandamentos bíblicos e da moral cristã. Neste embate discursivo, nesta arena cultural cercada por uma malha de poder, a intolerância ainda reina absoluta.

 

É inegável o poder simbólico do crucifixo sobre os cristãos, deste ícone que, para os que creem, representa a morte e o sacrifício do Filho de Deus pela humanidade. No entanto, parece ser inegável, também, que esta polêmica acerca da presença ou não de crucifixos em “territórios estatais” deixa transparecer uma disputa de poder. Por um lado, a Igreja Católica buscando manter sua hegemonia sobre as almas pecadoras, por outro, o “moderno Estado laico” tentando assegurar sua neutralidade e autoridade numa sociedade civil plural, e que parece bem organizada em alguns setores.

 

É uma falácia afirmar que política e religião não se misturam. A história é testemunha desta luxuriosa e rentável relação. Em nome de Deus, muitos estão sendo massacrados. Em nome de Deus, países estão sendo invadidos. Com discursos em nome de Deus, prefeitos, deputados e senadores estão sendo eleitos como estandartes da moral cristã.

 

De qualquer forma, acredito que essa arena dos debates sobre o crucifixo pode ser frutífera. Esse campo deve ser ampliado. Que possamos olhar a ressurreição de outras vozes religiosas e não religiosas. Vozes ainda simbolicamente crucificadas pelo preconceito e pela arrogância dos que acreditam existir uma única verdade. Que venham os ateus, umbandistas, espíritas, budistas, muçulmanos, judeus, evangélicos e todos os grupos que defendem seus direitos de culto, ou mesmo de não crença em deus algum. Não falo de paz ou de uma suposta harmonia entre os saberes religiosos. Minha principal faísca de reflexão é sobre como podemos aprender a conviver com as diferenças, conviver com outras formas de perceber o mundo. Aprenderemos? Talvez nunca. Mas vale a pena buscar este exercício de pensamento em favor da própria Vida.

Por Carlos Barros


Saberes e Olhares

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