ENCONTRO. Por Edmundo Gaudêncio

Edmundo Gaudêncio

ENCONTRO

Por Edmundo de Oliveira Gaudêncio

No bar, apenas duas moscas, o garçom, eu e um casal. Ele olhava para ela com olhos de volúpia, ela olhava para ele com olhos de te quero, ela envergonhada e ele acabrunhado, porém, cada um escondendo seus desejos por baixo de suas vontades. Ele agitava as mãos, grandiloqüente; ela quase não fazia acenos, fazendo jogos de cabelo com meneios de cabeça. Ele não tão seguro, assim, de si, nem ela tão inocente, é verdade. Ele ensaiava, com aquilo, o papel do macho cortejante e ela, o da fêmea cortejada. Os biólogos chamam a isso de ritos preliminares de acasalamento. O garçom, alheio a tudo, tangia as moscas alheias a ele. Alheios ao garçom, às moscas, a mim, o rapaz e a moça trocavam-se olhares e a si se bastavam, alheios ao mundo ou no mundo da lua.

 

Mas, quão tolos somos, quando pensarmos que duas pessoas a sós estão sozinhas! E não é assim? Talvez você pergunte, surpreso. Claro que não!, lhe respondo. Somos, individualmente, multidões. Porque temos uma historicidade que, queiramos ou não, é construída com a soma das historicidades de todas as pessoas que cruzaram suas vidas com nossa existência, entrecruzando suas histórias com nossa história. Somos todas essas presenças embutidas em nossos dias. Em um encontro, portanto, de dois sozinhos, há o encontro de duas multidões anônimas. Não bastasse isso, que é o eu, que são dois eus de duas pessoas a sós, uma diante da outra? Ele e ela, embevecidos, não viam isso, não querereriam saber disso. Ele só tinha olhos para ela e ela, olhos tão-somente para ele. Não viam o tempo que corre. Não viam que estavam diante de mais uma dessas escolhas com as quais, passo a passo, vamos construindo o caminho que nos leva ao nosso destino. Viam apenas a si mesmos, refletido cada um no olhar do outro. Relação de vice-versa, relação de vir-se a ver-se, não viam que toda relação é isto, um jogo. De cartas na mesa, às vezes. Às vezes de cartas marcadas. Apostas e blefes. Um tiro no escuro, às vezes às claras. Sobre a mesa, mão na mão, entrelaçavam-se os dedos. Olho no olho, esfregavam-se as almas, uma na outra, ronronando. Ele a beijou. Ou foi ela que o beijou? Em suma, beijaram-se, alheios ao mundo, alheios ao que sei: Somos um ou somos vários? Fernando Pessoa se perguntava: “Quantos sou? Quem é eu? O que é esse intervalo entre eu e mim?” Isto porque o que chamamos de eucomporta, na verdade, quatro eus diferentes: o eu conhecido, conhecido pelo eu e conhecido pelos outros; o eu oculto, conhecido pelo eu, mas desconhecido pelos outros; o eu ignorado, desconhecido pelo eu, mas conhecido pelos outros e o eu desconhecido, não conhecido pelo eu e não conhecido pelos outros. Somos, assim, diversos, ainda quando únicos. Ser múltiplo é nossa tristeza e nossa felicidade. Diagramaticamente, é isto um encontro entre duas pessoas: ponte entre dois eus conhecidos, sobre o abismo de seis outros eus mais ou menos profundos e desconhecidos. Diante disso, quem conhece o que de quem? E em um beijo, quem beija quem? O eu beija, com seu eu conhecido, apenas o eu conhecido de outro eu? Ou beija, com todos os seus eus, todos os vários eus de um outro eu? Mas, não importa, não viam isso. No espelho narcísico do olhar do outro, só tinham olhares para si mesmos, duas solidões no bar solitário, onde apenas eu, eles, o garçom, depois somente uma mosca, afogada, a outra, em meu copo de cerveja.

 

Chamei o garçom, paguei a conta, levantei-me. À minha saída, o casal me olhou com cara de “Enfim sós”. Nenhum dos dois se deu conta de que, mesmo quando solitários, nós nunca estamos a sós, ainda que sejamos sozinhos na multidão. Pensando em encontros, desencontros, pensando na mosca morta, sai do bar, mais sozinho do que nunca. Ou melhor, saímos do bar, eu e meus três outros eus, que, diga-se de passagem, nem sei se são de fato boa companhia…

Por Edmundo de Oliveira Gaudêncio

 

Ainda:

Texto – Sombras. Por Edmundo Gaudêncio.

Vídeo: Do Prazer & Do Gozo ou Do Gozo & Do Êxtase (Texto de Edmundo Gaudêncio)

Vídeo: Entrevista com o Prof. Dr. Edmundo Gaudêncio


Saberes e Olhares

Adicione aos Favoritos

MyFreeCopyright.com Registered & Protected

 
This work by Jose Carlos Barros Silva is licensed under a

Creative Commons Atribuição-Uso não-comercial-Vedada a criação de obras derivadas 3.0 Unported License

Anúncios

Marcado como: ,

3 Respostas »

  1. Texto muito bom! Não me canso d ler..

Obrigado por sua visita. Seja sempre bem-vindo!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Fim do Mundo

Quanto tempo duraria uma Guerra Nuclear

Catástrofes do Fim do Mundo

Cinzas na Lua

Marte destrói Lua

Lua de Sangue e a Profecia do Fim do Mundo

🔴NOSSO MEDO DO APOCALIPSE, CIÊNCIA E RELIGIÃO

%d blogueiros gostam disto: