ENSAIO PARA UMA FILOSOFIA DA MORTE. Por Carlos Barros

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ENSAIO PARA UMA FILOSOFIA DA MORTE

Por Carlos Barros

Com o advento da Modernidade surge, também, a ideia de uma existência desencantada, a visão de um mundo livre de certos medos que já não se sustentam perante o “Poder da Razão”. O pensamento racional busca constituir uma existência longe de qualquer tipo de reflexão acerca da morte e do morrer, uma vida sem conjecturas mágicas ou sobrenaturais do que porventura possa sobrevir no pós-túmulo. O Sujeito moderno, portanto, deve estar ciente que ele é o início, o meio e o fim de qualquer religião[1].

Todavia, emergem determinadas expressões significativas da “vitória da morte” sobre o Homem civilizado: a angústia e o medo. Alguns filósofos, especialmente de correntes existencialistas, se debruçam sobre esse “dilema humano”. Perante a consciência da morte a vida se apresenta como um absurdo, a morte torna a existência sem sentido e um campo fértil para o niilismo.

O Homem moderno encontra-se encurralado ante o paradoxo: por um lado, a consciência da própria individualidade, consciência do seu suposto lugar de proeminência na natureza, mas, por outro, assombrado por sua condição transitória, por sua finitude, assombrado pela consciência da própria morte e da certeza que seu corpo apodrecerá. Ernest Becker escreve “…o homem tem uma consciência de sua esplêndida e ímpar situação de destaque na natureza, dotado de uma dominadora majestade, e no entanto retorna ao interior da terra, uns sete palmos, para cega e mudamente apodrecer e desaparecer para sempre…”[2] Com isso, emerge a vontade de transcender ao próprio corpo, de alcançar a imortalidade[3].

No âmago do discurso filosófico, o horror da morte seria, para alguns, um paradoxo no âmbito da racionalidade moderna. Se não existe um deus, se não há uma alma transcendente, se somos seres destinado ao nada, porque a angústia nos acompanha? Sobre o medo perante a certeza de um nada, de um não-ser após a morte, Arthur Schopenhauer, na primeira metade do século 19, escreve no texto intitulado Da Morte. Para este filósofo, o medo da morte não se encontra no plano cognitivo, o medo, de fato, é algo natural e presente em todos os seres vivos, estando ele relacionado à “vontade de vida”.[4]

Não aceitando a ideia da morte, o Homem ocidental moderno permanece no limiar da angústia. Em Ser e Tempo, o filósofo alemão Martin Heidegger afirma que negar a própria morte é não viver a existência com autenticidade, pois, segundo ele, o Homem é um ser-para-a-morte. A filosofia existencial Heideggeriana, portanto, sugere reconhecer a morte como possibilidade permanente e a angústia como parte intrínseca à vida[5].

Vale salientar que, para Heidegger, a angústia não se confunde com o medo, pois o medo estaria sempre relacionado a algo identificável que nos ameaça. Contudo, a angústia não identifica, não consegue assimilar o objeto ameaçador. A angústia é angústia de nada, é, em suma, angústia da morte.[6] Aprisionado ao tempo, o Homem, desde o seu nascimento, já é suficientemente velho para morrer e, sendo assim, fugir da morte é incorrer na inautenticidade, é não viver a existência de forma plena.[7]

Seguindo a trajetória do discurso existencialista no que concerne à problemática da morte, encontramos Jean-Paul Sartre questionando o pensamento Heideggeriano. Se Heidegger estabelece seu discurso a partir da aceitação da morte como dimensão intrínseca à existência, como “ser-para-a-morte”, fazendo do Homem um ser autêntico, Sartre, por sua vez, se contrapõe a essa ideia de integrar a morte à vida, a essa tentativa de querer humanizar a morte.

Para Sartre, a morte é um acontecimento que destrói todas as possibilidades, que interrompe todos os projetos humanos tornando a vida sem sentido. É impossível desejar acolher e esperar a morte.[8] Sartre, portanto, busca eliminar tudo que porventura possa se basear na morte, pois nada pode ser tão absurdo como a morte súbita, que retira todo o sentido da existência. Enfim, o discurso sartreano rejeita essa humanização da morte na medida em que ela é a “…nadificação de todas as minhas possibilidades, nadificação essa que já não mais faz parte de minhas possibilidades. Logo, a morte não é minha possibilidade de não mais realizar presença no mundo, mas uma nadificação sempre possível de meus possíveis…”[9]

De qualquer modo, apesar do avanço científico e tecnológico que vem se ampliando desde o nascimento da Modernidade, a morte ainda triunfa sobre as certezas da “Divina Razão”. De fato, os discursos de Schopenhauer, Heidegger e Sartre são significativos, pois chamam a nossa atenção para as profundas dificuldades do Homem moderno em lidar com a morte e o morrer.

Por Carlos Barros

Referências

[1] Ver FEUERBACH, Ludwig. A essência do cristianismo. Tradução de José da Silva Brandão. 2. ed. Campinas-SP: Papirus, 1997. p. 223.

[2] Ver BECKER, Ernest. A negação da morte. Tradução de Luiz Carlos do Nascimento Silva. 2. ed. Rio de Janeiro: Record, 1995. p. 39.

[3] Ver MORIN, Edgar. O homem e a morte. Tradução de João G. Boto e Adelino dos Santos Rodrigues. Portugal: Publicações Europa-América, 1970 p. 34.

[4] “…O tornar-se não-ser não pode nos afetar, da mesma forma que o não-ter-sido. Do ponto de vista do conhecimento, o medo da morte parece carecer de fundamento: ora, é no conhecimento que consiste a consciência; a morte para a consciência, portanto, não é um mal (…). Resulta que o horror da morte, para nós, não é tanto o fim da vida, pois isso não pode parecer a ninguém como particularmente digno de pesar, mas antes a destruição do organismo, uma vez que este é a própria vontade de vida que se manifesta no corpo…” Ver SCHOPENHAUER, Arthur. Da morte. Tradução de Pietro Nassetti. São Paulo: Martin Claret, 2001.

[5] Ver HEIDEGGER, Martin. Ser e tempo. Tradução de Márcia de Sá Cavalcante. 5. ed. Petrópolis: Vozes, 1997. p. 50.

[6] Ver MARANHÃO, José Luiz de Souza. O homem: ser-para-a-morte. In:_____ O que é morte. 2. ed. São Paulo: Brasiliense, 1986. p. 70.

[7] Para Morin, “…a angústia, e por conseqüência a própria morte, é o fundamento mais certo da individualidade (…). Toda morte é solitária e única. Nenhuma filosofia fora até então tão diretamente centrada na morte, ninguém descobrira a tal ponto no coração do Ser, no movimento do tempo, na ossatura da individualidade humana. Até então nenhuma filosofia aprofundara tanto a angústia. Pode-se dizer que a angústia heideggeriana abrange em parte o que chamamos a inadaptação antropológica.Ver MORIN, Edgar. O homem e a morte. p. 277.

[8] Ver SARTRE, Jean-Paul. O ser e o nada. Tradução de Paulo Perdigão. 9. ed. Petrópolis: Vozes, 2001. p. 654.

[9] Ver SARTRE, Jean-Paul. O ser e o nada. p. 658.


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