A QUESTÃO DA MORTE E O SERVIÇO SOCIAL. Por Carlos Barros

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A QUESTÃO DA MORTE NO ÂMBITO DO SERVIÇO SOCIAL

Por Carlos Barros

Na sociedade brasileira, o discurso apologético da vida implica em práticas que buscam o silêncio em torno da morte, ela é eliminada dos discursos, pois é a morte que faz com que o corpo deixe de ser objeto de atuação do poder, na medida em que ele só atua sobre corpos vivos. É o corpo vivo que produz e consome e sobre o qual se busca exercer um controle, principalmente através de saberes e instituições.

O morto, portanto, não é apenas aquele que deixou de produzir e consumir, ele também é aquele que resiste ao controle do poder governamental. Mas se ainda predomina a prática da não discussão sobre os mortos, do silenciar sobre a morte, ela não deixa de estar presente no cotidiano dos vivos. Sendo, evidentemente, uma presença muito mais expressiva nas camadas pobres da população. Uma presença tão prematura e explícita que muitas vezes alguns discursos buscam justificá-la como morte natural ou fatalidade. Ao tratar a morte como um fenômeno social, percebemos que, até certo ponto, a negação é um processo que acaba interferindo nas práticas profissionais. Junto à negação vem o medo da morte, e numa sociedade em que não há igualdade diante da vida, esse temor acaba fortalecendo as práticas do poder. Quando as camadas mais pobres buscam lutar por seus direitos ou por melhores condições de vida junto ao Estado, elas estão lutando, sobretudo, pela sobrevivência, e isso significa não morrer prematuramente. No entanto, quando a morte sobrevém, o jeito é tentar encontrar alguma dignidade com o fim da vida. Mas de que forma o poder governamental busca contornar esse desejo dos familiares do morto de encontrar dignidade na morte?

A decomposição cadavérica, evidentemente, é igual para todos, mas para alguns privilegiados esse “retorno ao pó” irá concretizar-se no interior de caixões suntuosos, de boa qualidade e adquirido com recursos próprios. Esses caixões, em geral, vão se decompor (junto com seu proprietário) dentro de túmulos particulares. Por outro lado, para os pobres, para os que não têm condições de comprar o próprio caixão, encontra-se uma alternativa: recorrer à “benevolência” do Estado, de modo que se consiga um lugar onde cair morto.

As políticas de assistência social surgem como estratégias que o poder governamental utiliza para assistir aos vivos e, consequentemente, aos mortos. Em outras palavras, o aumento do empobrecimento no Brasil – decorrente do seu modelo econômico – torna as políticas assistenciais um dos melhores instrumentos utilizados pelo Estado para o controle da população. Elas emergem no discurso oficial como benevolências concedidas aos “carentes”.

Tendo em vista uma possível afronta ou um aumento no grau de tensão entre as camadas mais pobres e os grupos que exercem o poder econômico – desembocando em movimentos reivindicatórios -, o Estado utiliza as políticas públicas como forma de controle social. Também se apresenta como um espaço para que o poder governamental possa, de um lado, conter conflitos e, por outro, responder de forma “humanitária” ao agravamento da pobreza e espoliação de grupos sociais.Devemos lembrar que os discursos onde as políticas sociais emergem apenas como estratégias maquiavélicas ou como produtos dos aparelhos ideológicos, acabam deixando de lado a outra face da moeda. Embora as políticas sociais de caráter assistencial sejam utilizadas como forma de controle, elas também surgem como um espaço contraditório, um espaço no qual se estabelece relações de força, de luta e conquista da cidadania. Não é a “bondade” e a solidariedade social que leva o poder governamental a programar as políticas sociais públicas. Elas são o resultado de reivindicações, de lutas acirradas principalmente dos setores mais organizados. Esse tipo de poder se materializa por meio de aparelhos concretos, ele age através de organismos institucionais.

O poder governamental para que possa ser exercido tem que recorrer a saberes específicos, a exemplo do Serviço Social, onde o saber e a prática do assistente social são utilizados como instrumentos a fim de executar os projetos sociais do governo. Neste ponto, convém levantar algumas questões: até que ponto o saber do Serviço Social tem discutido a questão da morte de modo a preparar seus profissionais? Qual o efeito que a morte produz sobre a prática do assistente social? Em que medida esse profissional, com o seu saber técnico, encontra-se apto para compreender e agir diante de situações que envolvem morte, luto e sofrimento, situações nas quais o usuário poderá estar, algumas vezes, necessitando tanto de apoio afetivo quanto da materialidade de um caixão para seu morto?

Outros campos das ciências humanas já deram os primeiros passos no sentido de aprofundar-se nas questões que dizem respeito à morte e ao morrer. Entretanto, no discurso do Serviço Social a morte ainda é um aspecto “ignorado” (ou um tema considerado irrelevante), um discurso onde ainda prevalece o silêncio e o fortalecimento da negação acerca dessa problemática. E um dos resultados é a clara ausência dos assistentes sociais nas pesquisas ou nas práticas multidisciplinares que abordam o assunto.

O Serviço Social é um saber que nasceu, de certo modo, para preocupar-se com a manutenção da vida, com a preservação do corpo do vivo que, devido às precárias condições de existência, vai deteriorando-se, morrendo gradativamente. A prática do assistente social está direcionada exclusivamente no sentido de pensar nos vivos. Assim, esse profissional não se encontra suficientemente preparado para compreender e agir perante situações que envolvem a morte e o morrer.

A negação da morte ou silenciar sobre os mortos não deixa de produzir efeitos sobre a prática do assistente social, especialmente aquele que lida diretamente com os serviços funerários. Tais efeitos podem ser constatados nos momentos em que se estabelece a relação entre esse profissional e o indivíduo que procura o Estado em busca de assistência para seu morto. Embora o usuário esteja vivenciando a dor da perda, esse aspecto subjetivo acaba sendo desconsiderado, pois a relação apresenta-se formal e burocrática.Além de ser um indivíduo que, evidentemente, integra uma sociedade que busca ocultar essa problemática, o saber técnico que o assistente social adquiriu não lhe permite encarar a morte numa outra perspectiva. Portanto, torna-se difícil lidar com o desconhecido, com aquilo que faz aflorar os medos, que faz lembrar a própria finitude.

Enfim, discursar acerca da morte e dos mortos é encarar a transitoriedade da existência e ser levado, consequentemente, a reavaliar os próprios discursos e práticas. Mas, também, é ser levado a reavaliar aqueles discursos e práticas que buscam silenciar sobre as reais causas da morte prematura dos pobres e miseráveis. Em outras palavras, o saber do assistente social deve ser enriquecido com essa discussão, pois assim estará criando melhores condições para que o seu discurso e a sua prática possam trazer à tona as causas sociais, políticas e econômicas que fazem com que os homens não sejam iguais diante da morte.

Por Carlos Barros

Referências

BOWLBY, John. Perda: tristeza e depressão. Trad. Valtensir Dutra. São Paulo: Martins Fontes, 1985.

FALEIROS, Vicente de Paula. A política social do Estado capitalista. 5. ed. São Paulo: Cortez, 1987.

_________ O que é política social. 5. ed. São Paulo: Brasiliense, 1991.

FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir. 4. ed. Trad. Lígia M. Pondé Vassallo. Petrópolis: Vozes, 1986.

_________ Microfísica do poder. 2. ed. Trad. Roberto Machado. Rio de Janeiro: Graal, 1979.

RODRIGUES, José Carlos. Tabu da morte. Rio de Janeiro: Achiamé, 1983.

TORRES, Wilma da Costa et al (coord.). A redescoberta da morte. In:_____ A psicologia e a morte. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 1983.

* O presente texto foi extraído de um dos capítulos da dissertação de Mestrado em Serviço Social intitulada NA HORA DE NOSSA MORTE: as práticas governamentais de assistência ao morto. Orientador: Prof. Dr. Durval Muniz de Albuquerque Júnior

 


 

Saberes e Olhares

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8 Respostas »

  1. Como sempre, vc é muito bom em suas escolhas/escritos. Realmente não há uma preocupação dentro do curso e nem fora dele. Simplesmente pela falta de profissionais em estarem lhe dando com essa temática, como se não fosse demanda. Gostei muito da discussão e espero que incentive mais pessoas a recorrer a temática.

    • Ednaldo, fico feliz com sua leitura e análise. Por muitos anos trabalhei com essa temática da Morte e do Morrer (foi tema da minha dissertação de mestrado), e ainda hoje percebo a resistência em abordar esse assunto. Mesmo no espaço acadêmico, encontramos grande dificuldade para implantar no currículo. Acredito que é fundamental estudar, ou melhor, compreender um pouco sobre a Morte para melhor compreender a Vida. Quem sabe, um dia, o tabu da morte possa pelo menos ser amenizado. Obrigado por sua participação e volte sempre! Forte abraço! Carlos Barros

  2. Professor Carlos,
    Muito bom conhecer sue trabalho. Gostaria de ler sua tese, você tem ela publicada? Como posso adquiri-la?
    É muito importante para mim conhecer sua obra. Sou mestranda e meu tema é o luto nas famílias atendidas na assistência.
    Um abraço,
    Thatiane

    • Oi Thatiane. Antes de tudo, obrigado pelos elogios ao meu trabalho. Escrevi sobre a temática da Morte no âmbito do Serviço Social como requisito de conclusão do meu Mestrado na UFPB. Não publiquei (talvez um dia). Tenho aproveitado o espaço do meu Site Saberes e Olhares para compartilhar alguns fragmentos do trabalho. Sobre ter acesso à minha dissertação, você poderá encontrar na biblioteca da UFPB e UFCG. Caso queira mais informações sobre meu trabalho, ou mesmo dicas de referências, convido para participar do meu rol de amigos no Facebook, ou enviar e-mail. Estarei à sua disposição. Forte abraço e seja sempre bem-vinda! Carlos Barros

  3. Obrigada, Prof. Carlos pela resposta!
    Já o adicionei no face.
    Abraços.
    Thatiane

  4. Professor já é muito gratificante poder ler um fragmento de sua dissertação, principalmente quando se é estagiária de Serviço Social em uma empresa de planos funerários, onde ainda há um enorme preconceito por se tratar de um campo pouco conhecido. No entanto gostaria de ter acesso a toda discussão. Vi que há quase 1 ano (infelizmente) ainda não havia sido publicada a sua dissertação, então gostaria de saber se já ocorreu a publicação e caso não tenha ocorrido, se há alguma forma de acessar toda ela?
    Desde já agradeço, pois o que li em seu site me fez permanecer na luta!

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