Todas as faces de Drummond

Carlos Drummond de Andrade aos dois anos de idade

A 10.ª edição da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip)presta homenagem aos 110 anos de nascimento do poeta mineiro Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) com três mesas dedicadas à discussão de sua obra. A primeira delas, no dia 4, reúne o escritor e crítico Silviano Santiago e o poeta Antonio Cícero. Santiago, colunista do Sabático, vai contar a história de Drummond desde que ele trocou Itabira, sua terra natal, por Belo Horizonte e depois pelo Rio de Janeiro. Sua análise, considerando a entrevista concedida a este suplemento, cobre todos os períodos da vida de Drummond, mas evita explicar seus poemas pelo amadurecimento do poeta, preferindo mostrar como a tensão entre o mundo rural e a modernidade urbana marcou a construção de sua poesia.
 
A despeito de ser considerado o principal nome da poesia moderna no Brasil, parece existir em Drummond uma luta interna entre a tradição e a inovação. Como ele concilia essas duas forças antagônicas?

Por ser mais representativa do século 20 que do Modernismo brasileiro, a obra poética de Drummond sobrevive graças à abrangência desmedida de sua ambição. Nosso poeta significa o que Victor Hugo significou para a França no século 19 e T.S. Eliot, para o mundo anglo-saxão no século 20. Pouco tem a ver com poetas encasulados como Mallarmé. À semelhança de Eliot, Drummond saiu desembestado pelos tempos revolucionários afora. Recuou frente ao peso da tradição questionadora do talento individual. Seu poema inspirado pela máquina do mundo, de Os Lusíadas, data de 1951, quando o experimentalismo concreto pintava na esquina. Não teve receio de se desengajar do ativismo político, recolhendo-se à reflexão soturna sobre a poesia e as exigências da vida cotidiana. Depois de A Rosa do Povo, publica o inesperado Claro Enigma. Ele ousou, finalmente, seguir o caminho aberto por Pedro Nava e Murilo Mendes nos anos 1960. Para ser o “menino antigo” de Itabira, dá meia-volta no tempo que lhe tocara viver na velhice. Não sei se usaria o verbo “conciliar” para o poeta de sete faces. Esse verbo traz um amaciamento da sensibilidade frente às contradições. Não traduz o destemor de Drummond em se entregar a várias e sucessivas mortes poéticas, a cada vez ressuscitando renovado. Do ponto de vista da personalidade multifacetada que nos lega, Drummond estaria próximo de André Gide (que admirava). Gide dizia que ele era “um ser em diálogo”. Nele “tudo combatia e se contradizia”. No século 20, o antagonismo é o motor da fragmentação do homem.

Numa fase da vida, Drummond, comprometido com a ideologia marxista, tenta imaginar uma nova sociedade que possa eventualmente se erguer do que ele considera uma ruína, o patriarcado mineiro. Muitos consideram essa poesia social de Drummond menor. Como você vê sua produção do período?

Evidentemente, admiro o crítico que tem a cabeça feita pelas suas leituras teóricas. Seu trabalho pessoal e acadêmico contribui para o exercício da radicalidade na leitura. Com fundamento ideológico ou estético, ele traz o desassombro do seu julgamento. Capaz de admirar a poesia modernista de Drummond, que vai de 1930 a 1935, desanca como passadista sua poesia essencial, que vai de 1951 a 1968, e joga sua poesia política no lixo da literatura. Já vê que, no debate das ideias, tudo depende. Por isso, não acredito que a crítica (tomando por “crítica” o conjunto dos críticos reais em dado momento da história) ousaria classificar o que é menor e o que é maior no conjunto de obra tão variada e tão instigante. Ao contrário de Machado de Assis ou de Guimarães Rosa que, como sabemos, amadureceram sua ciência literária publicamente, Drummond decidiu nascer velho e pronto para a literatura. É dessa forma que posso compreender os anos 1920 sem publicação de um livro sequer (manuscritos ele os organizou e às pampas, haja vista o belo exemplar de Minha Terra Tem Palmeiras, enviado a Mário em 1926 e que se encontra depositado e inédito no Instituto de Estudos Brasileiros, da USP). Lançado em 1930,Alguma Poesia é livro depurado de toda ganga juvenil. Lembra a estreia de Clarice Lispector em Perto do Coração Selvagem. Saltam do trampolim das alturas e nunca deixarão impune o autor da travessura desmedida.

O olhar retrospectivo de Drummond para a própria infância mostra que essa poesia é marcada por uma grande força mítica, advinda talvez da associação de sua experiência existencial a seu repertório de leituras. Qual o mito literário que marca os primeiros poemas publicados nos anos 1930?

É conhecido o poema Infância que, juntamente com o significativo Poema de Sete Faces, abre o livro Alguma Poesia. Nele, Drummond institui o mito de Robinson Crusoé como dínamo da própria vida, da política e da literatura. Refazer a vida e o mundo numa ilha deserta, pelo marco zero. Do mito robinsoniano não se distancia até A Rosa do Povo e as belíssimas crônicas de Passeios na Ilha. Mito de rebeldia, Robinson leva o poeta a se insurgir contra os valores assentados. Também leva sua imaginação de homo faber (e não a de homo sapiens) a funcionar a toda, sendo capaz de rearticular política e socialmente o que milênios de vida civilizada levantaram sob o nome de Ocidente. Esse mito tem algo a ver e muito com a modernidade europeia. Tem a ver com o bota-abaixo do Barão Haussmann, o parisiense conhecido como o artista demolidor, ou com o nosso Pereira Passos diante do Rio colonial. A partir do livro Sentimento do Mundo (1935), Drummond – como Robinson no século 18, Haussmann no século 19 ou Pereira Passos no século 20 – desembesta. Quer dinamitar a ilha de Manhattan, como se lê no poema Elegia 1938.

Para um poeta vindo de Itabira, que adotou a cidade grande, como Drummond lida com sua herança rural, os valores da família mineira, diante do desejo de ser cosmopolita?

Basta ler as cartas que, nos anos 1920, envia da província a Mário de Andrade para detectar que, em oposição ao paulista, imerso no nacionalismo pragmático, Drummond teve desde jovem um penchant cosmopolita. São dele – por que não citá-las neste momento de homenagem? – frases que talvez o enrubescessem na idade madura, quando vira menino antigo em Itabira. Em carta de 1924, escreve: “Tenho uma estima bem medíocre pelo panorama brasileiro. Sou mau cidadão, confesso. É que nasci em Minas, quando devera nascer (não veja cabotinismo nesta confissão, peço-lhe!) em Paris. O meio em que vivo me é estranho: sou um exilado. E isso não acontece comigo apenas: ‘Eu sou um exilado, tu és um exilado, ele é um exilado’.” A notar a semelhança dessa passagem com o parágrafo que abre Raízes do Brasil (1936), de Sérgio Buarque de Holanda. Dele extraio esta frase sobre o brasileiro e sua herança europeia: “Trazendo de países distantes nossas formas de convívio, nossas instituições, nossas ideias, e timbrando em manter tudo isso em ambiente muitas vezes desfavorável e hostil, somos ainda hoje uns desterrados em nossa terra”. E Sérgio faz a pergunta definitiva sobre os limites do cosmopolitismo tropical: “Até onde temos podido representar aquelas formas de convívio, instituições e ideias de que somos herdeiros?” Há todo um capítulo sobre os legados nas vanguardas, que está por ser escrito.

Ao falar de sua poesia política, Drummond evoca a escritora Mietta Santiago, dizendo que era marxista do pescoço para baixo e espiritualista do pescoço para cima. Em que momento ele segue essa vocação mística e como a proustiana evocação do espírito de seus familiares no poemaComunhão se insere nesse embate entre materialismo histórico e mundo metafísico?

Há que analisar com cuidado os poemas religiosos de Drummond, pouco investigados pelos nossos especialistas. Lembro o Jesus Cristo que, cansado de tanto pedido dos romeiros, “dorme sonhando com outra humanidade”. Lembro os poemas em homenagem a Aleijadinho e a Ataíde. Lembro ainda o notável poema escrito à porta da Igreja São Francisco de Assis (Ouro Preto), que termina por esta confissão: “Perdão, senhor, por não amar-vos”. Lembro ainda este outro verso que retiro do poema Museu da Inconfidência: “Toda história é remorso”. Há aí pano pra manga.

Na última década da vida do poeta, seu interesse pelo erotismo parece mais intenso. Há uma razão especial para isso?

Na idade madura a imaginação satisfaz nossa libido com palavras e com figuras de retórica. Freud disse que o sonho é a realização do desejo. Drummond talvez tenha querido nos dizer que a poesia – na estranha combinação entre ardência, voluptuosidade e verso – trouxesse à baila o corpo masculino, na realidade já despossuído de energia vital, mas onde ainda e sempre pulsava o desejo. Há que ler o poema A Paixão Medida (1980) e meditar sobre sexo, amor e velhice: “Trocaica te amei, com ternura dáctila / e gesto espondeu. / Teus iambos aos meus com força entrelacei”. Hipócrita leitor, meu semelhante, meu irmão, te convido a dar continuidade à leitura desse e de outros poemas com a ajuda dos versos de Charles Baudelaire.

Todas as faces de Drummond – cultura – variedades – Estadão.


Saberes e Olhares

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