Biografia gera polêmica ao revelar cartas de amor de Gandhi a arquiteto alemão

Joseph Lelyveld, jornalista e escritor, teoriza que não teríamos o líder pacifista sem a sua passagem pela África

Lúcia Guimarães – O Estado de S. Paulo

Rabindranath Tagore and Gandhi in 1940.

Rabindranath Tagore and Gandhi in 1940. (Photo credit: Wikipedia)

Se o compositor Philip Glass decidisse montar uma versão alternativa de sua ópera Satyagraha, o jornalista e escritor Joseph Lelyveld, autor do recém-lançado Mahatma Gandhi e Sua Luta com a Índia (Companhia das Letras, 480 págs., R$ 48) já teria pronta a sugestão da cena para o primeiro ato. O biógrafo começaria, não na África do Sul, onde o fundador da Índia independente elaborou a tática de resistência não violenta que dá nome à opera. “Eu começaria em Noakhali, na Índia”, diz ele, numa referência à região por onde Gandhi perambulou descalço pouco antes de ser assassinado em 1948, sem conseguir aproximar muçulmanos e hindus.

“Este homem que tinha fama e poder, vagando por uma região rural remota, tentando, pelo próprio exemplo moral, trazer a paz, na esperança de que poderia espalhar a boa vontade pelo resto do país, aquilo era uma utopia fadada ao fracasso. Ele fez jejum, conseguiu acalmar as revoltas étnicas em Calcutá e, em seguida, Nova Délhi, arriscando a própria vida.” Lelyveld acha que os últimos meses da vida de Gandhi já contêm fartura operática suficiente.

A tese desta nova biografia é que não teríamos o mais influente líder pacifista do século 20, o pai da segunda república mais populosa do planeta, sem a sua passagem de 21 anos pela África do Sul, entre a minoria indiana. Foi neste período que Gandhi enfrentou o racismo, o colonialismo e ensaiou os primeiros protestos que iriam definir sua liderança no retorno à Índia, onde ele, em menos de 5 anos, transformou o nacionalismo elitista num movimento de massas.

O Gandhi que emerge dessas páginas é mais humano e contraditório e, portanto, mais fascinante do que o cristalizado ícone nacional indiano. As convicções de um homem conhecido por rejeitar o sistema de castas ou promover a virtude na economia evoluíram ao longo de cinco décadas de vida pública e nem sempre estiveram afinadas com as noções contemporâneas de igualdade, social e racial.

O livro foi inspirado em parte pelas passagens de Lelyveld como correspondente do New York Times na África do Sul e na Índia. Gandhi morreu odiado por muitos de seus compatriotas, que se consideravam traídos por sua luta contra a divisão que resultou na criação do muçulmano Paquistão. Lelyveld compara Gandhi, no fim da vida, a um Rei Lear, “obrigado a reduzir sua ambição de mudar o mundo”. Uma ambição visionária que continua a informar causas díspares, da Primavera Árabe ao movimento ecológico.

O autor que abriu a porta do apartamento com vista para o West Side de Manhattan é cordial, um pouco distante e franzino. O papel de pacificador, numa escala infinitamente menor, também faz parte da biografia de Joseph Lelyveld. Ele foi arrancado da aposentadoria, em 2003, para acalmar a redação do New York Times durante uma de suas piores crises existenciais: o escândalo do fabricador de reportagens Jayson Blair, que resultou na demissão do bombástico editor-chefe Howell Raines.

Lelyveld, ganhador de um Prêmio Pulitzer pelo excelente Move Your Shadow: South África, Black and White (Mova a Sua Sombra: África do Sul, Preto e Branco, 1985), uma história do apartheid, havia se oposto à indicação de Raines para seu sucessor na chefia do jornal. Raines fez tudo para desmoralizar a gestão de Lelyveld, mas conseguiu mesmo foi baixar o moral da redação e, com o escândalo armado pelo protegido Jayson Blair, foi deposto. Arthur Sulzberger, o publisher do Times, tirou Lelyveld de casa com a missão de administrar a transição para o comando de Bill Keller, o seu preferido original, que deixou o cargo no ano passado. Esta trama não está descrita, é claro, na elogiada nova biografia de Gandhi. Mas ela acrescenta uma coda interessante à narrativa da publicação do livro.

Logo após o lançamento americano de Mahatma Gandhi e Sua Luta com a Índia, em março de 2011, uma das primeiras resenhas foi publicada pelo Wall Street Journal e assinada pelo historiador de direita Andrew Roberts. O estudioso, que tem profunda antipatia pelo biografado, destacou uma pequena passagem do livro, em que Lelyveld transcreve cartas amorosas de Gandhi ao arquiteto e halterofilista alemão Hermann Kallenbach. Gandhi morou com Kallenbach em Johannesburgo e os dois fundaram uma comunidade utópica rural, a Fazenda Tolstoy. Foi armado o barraco internacional. Um tabloide sensacionalista inglês estampou a manchete Gandhi Largou a Mulher Para Viver Com Um Amante e a notícia caiu na “tamasha”, a sensacionalista mídia indiana. Gujarat, o Estado natal de Gandhi, baniu o livro, que ainda não estava em circulação. Políticos indianos denunciaram o que imaginaram ser um ataque a seu herói nacional.

Recostado na confortável biblioteca do apartamento, Lelyveld esboça um sorriso maroto. Em meio aos protestos, seu editor indiano antecipou a publicação da biografia e triplicou a circulação, prevendo que o livro se tornaria best-seller. Ele vai à estante buscar um volume da extensa coleção de escritos de Gandhi, em que as cartas a Kallenbach repousavam há décadas mas nunca haviam sido incluídas numa biografia.

Pergunto a ele se, depois de ser bem-sucedido no esforço civilizatório, quando o mais importante jornal de língua inglesa era sacudido pela incerteza e o imediatismo da era digital, ele não acha irônico ter sido atropelado pela dita era: as buscas online pela biografia destacam invariavelmente o suposto bissexualismo de Gandhi. “Sim”, ele concorda, resignado. “Tive que aturar isto durante meses.” Mas, em janeiro deste ano, o autor cumpriu uma turnê de palestras na Índia e foi bem recebido. “Não me tornei notório”, ele conclui, com o alívio de quem, aos 75 anos, conseguiu reescrever a conclusão de parte da própria biografia, à frente do Times.

Mohandas Karamchand Gandhi recebeu seu título honorífico de Mahatma, “grande alma” em sânscrito, do poeta Rabindranath Tagore. O livro de Lelyveld comeca quando o jovem advogado desembarca na África do Sul em 1893 e, em poucos dias, enfrenta com firmeza um juiz que lhe pede para remover o turbante num tribunal. O tema da representação sartorial e do corpo como instrumento de afirmação é bem explorado pelo autor. Lelyveld nota que o homem emaciado e descalço tornou impossível para a futura geração de líderes indianos aparecer em público com trajes ocidentais.

A biografia termina quando Gandhi, tendo recusado qualquer proteção policial, numa Índia recém-independente e dilacerada pela violência genocida entre hindus e muçulmanos, é morto pelos disparos à queima-roupa de um ultranacionalista hindu. No tribunal, o réu justifica o crime, lembra Lelyveld: “Ele tinha um caráter tão nobre, que o governo indiano, para atender Gandhi, ia acabar favorecendo os muçulmanos. Um homem tão moral tinha que desaparecer da cena política”, concluiu o assassino.

Biografia gera polêmica ao revelar cartas de amor de Gandhi a arquiteto alemão – cultura – variedades – Estadão.


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