Notas de Petersburgo de 1836

Nikolai Gógol (1809-1952), escritor russo

Nikolai Gógol (1809-1952), escritor russo

De fato, sabe onde foi parar a capital da Rússia? No fim do mundo! Estranho povo o russo: a capital ficava em Kíev – aqui é quente demais, muito abafado; a capital russa mudou para Moscou – não, aqui faz pouco frio: Deus, nos conceda uma Petersburgo! A capital russa vai nos pregar uma peça se for instalada juntinho ao polo glacial. Digo isso porque ela saliva só de ver de pertinho ursos brancos. “Fugir da mãezinha setecentas verstas! (1) Que perninhas mais ligeiras!” – diz o povo de Moscou, estreitando os olhos voltados para as bandas onde vivem finlandeses e estonianos. Em compensação, que brincadeira alegre entre a mãezinha e seu filhote! O que há por trás da aparência, por trás da natureza! O ar se infiltra através da nuvem; na terra branca, verde e cinzenta, tocos queimados, pinheiros, bosques de abetos, colinas… É bonito também que a estrada voe como uma flecha e que as cantantes e tilintantes troicas russas passem impetuosas. E que diferença, que diferença entre as duas! Moscou até agora é a barba russa, e Petersburgo já é um alemão perfeito. Como a velha Moscou se distendeu, se alargou! Como ficou descabelada! Como se deslocou, como se espalhou, como se empertigou a chique Petersburgo! Diante dela, de todos os lados, há espelhos: ali, o rio Nevá; adiante, o golfo da Finlândia. Ela tem onde se mirar. Assim que nota uma penazinha ou um fiapo na roupa, no mesmo instante lhe dá um piparote. Moscou é uma velha caseira, assa bliní (2), contempla a distância e escuta uma história, não se levanta da poltrona, não quer saber o que se passa no mundo; Petersburgo é um rapazinho cheio de expediente, nunca fica em casa, sempre se veste com capricho e, todo enfeitado diante da Europa, faz uma reverência para as pessoas de além-mar.

Petersburgo é toda agitação, dos pés à cabeça; à meia-noite começa a assar pães franceses, que no dia seguinte o povo alemão vai comer, e a noite inteira ora vigia com um olho, ora com o outro; Moscou dorme a noite toda e no dia seguinte, depois de fazer o sinal da cruz e curvar-se em reverência para os quatro lados, sai com pãezinhos brancos rumo ao mercado. Moscou é do gênero feminino, Petersburgo é do masculino. (3) Em Moscou, só há noivas, em Petersburgo, só há noivos. Petersburgo zela por seus trajes com grande decoro, não ama (…) desvios dos rumos da moda; em compensação, Moscou é exigente, e quando uma coisa vira moda, que então seja moda até as últimas consequências: se a moda é cintura fina, que nela seja ainda mais fina; se as lapelas do fraque devem ser grandes, que nela então sejam do tamanho dos portões de um galpão. Petersburgo é um sujeito caprichoso, absolutamente alemão, tudo observa e calcula e, antes de dar uma festa em casa, confere o que tem no bolso; Moscou é um nobre russo e, se já está alegre, então se alegra de uma vez até cair, não se importa com quanto tem no bolso, e isso não o detém; Moscou não ama o meio-termo. Em Moscou, todas as revistas, por mais cultas que sejam, no final trazem sempre desenhos de moda; as de Petersburgo raramente incluem desenhos; quando incluem, os leitores, por falta de costume, podem se assustar. As revistas de Moscou falam de Kant, Schelling etc. etc.; nas revistas de Petersburgo, só se fala de questões públicas e lealdades políticas… Em Moscou, as revistas acompanham seu tempo, mas se atrasam na periodicidade; em Petersburgo, as revistas não acompanham seu tempo, mas são publicadas na data precisa, com regularidade. Em Moscou, os literatos esbanjam dinheiro; em Petersburgo, economizam. Moscou sempre sai de carruagem envolta num casaco de pele de urso e, na maioria das vezes, para almoçar; Petersburgo sai num casaco de flanela (…), corre o mais depressa que pode para a bolsa de valores ou “para o serviço”. Moscou passeia até as quatro horas da madrugada e no dia seguinte não levanta da cama antes das duas da tarde; Petersburgo também passeia até as quatro horas, mas no dia seguinte, como se não tivesse acontecido nada, às nove horas vai depressa, em seu casaco de flanela, para a repartição pública. Em Moscou, Rus (4) chega com dinheiro no bolso e volta mais leve; em Petersburgo, as pessoas andam sem dinheiro, mas se espalham por todos os cantos do mundo com capital de sobra. Em Moscou, Rus chega em kibítikas (5), passando pelos buracos da estrada de inverno, para fazer negócios e comprar no atacado; em Petersburgo, o povo russo anda a pé em dias de verão para construir e trabalhar. Moscou é uma despensa, amontoa pacotes e engradados, não quer nem saber de pequenos vendedores; Petersburgo dissipa tudo em pequenas parcelas, se reparte, se decompõe em mercearias e lojas e anda sempre atrás de compradores gentis. Moscou diz: “Se for preciso um comprador, a gente acha”; Petersburgo pendura uma tabuleta bem embaixo do nariz (…) e monta uma feira de carruagens bem na porta da sua casa. Moscou nem olha para seus habitantes, mas manda mercadorias para toda a Rússia; Petersburgo vende gravatas e luvas aos seus funcionários. Moscou é um grande bazar; Petersburgo é uma loja iluminada. Moscou é necessária para a Rússia; para Petersburgo, a Rússia é necessária. Em Moscou, raramente se encontra um botão com um brasão num fraque; em Petersburgo, não existe fraque sem botões com um brasão. Petersburgo adora zombar de Moscou, de sua vulgaridade, grosseria e falta de bom gosto; Moscou alfineta Petersburgo porque é um sujeito venal e não sabe falar russo. Em Petersburgo, na avenida Niévski, as pessoas passeiam às duas horas como se tivessem saído dos desenhos das revistas de moda expostas nas vitrines, até as velhas têm cinturas tão fininhas que dá vontade de rir; em Moscou, nos passeios públicos, bem no meio da multidão na moda, sempre aparece uma mãezinha com um lenço na cabeça e absolutamente sem cintura nenhuma. Ainda se poderia dizer mais alguma coisa, mas… a distância é de imensas proporções!

II
É difícil captar a expressão geral de Petersburgo. Há algo de semelhante a uma colônia europeia e americana: há também uma pequena raiz de nacionalidade e muita mistura estrangeira que não se fundiu à massa compacta. Nela, as nações diversas são tantas quantas são as diversas camadas da sociedade. Tais camadas sociais são perfeitamente separadas: aristocratas, funcionários do serviço público, artesãos, ingleses, alemães, comerciantes – todos constituem esferas perfeitamente separadas (…), preferem viver e se divertir invisíveis uns para os outros.

E cada uma dessas classes, quando observamos mais de perto, é constituída de muitas outras esferas menores, que também não se misturam entre si. Por exemplo, tomemos os funcionários: os jovens assistentes de chefes de gabinete constituem uma esfera própria, na qual não admitem de maneira nenhuma um chefe de repartição. O chefe de gabinete, por seu turno, levanta seu topete um pouco mais alto em presença de um funcionário de escritório. (…) Os professores constituem uma esfera própria, os atores têm sua própria esfera; mesmo o literato, até agora uma pessoa ambígua e duvidosa, se mantém totalmente separado. Em suma, é como se chegasse a uma taberna uma enorme diligência, na qual cada passageiro, durante todo o trajeto, tivesse se mantido fechado em si mesmo, e todos eles só entrassem na sala comum porque não havia mesmo outro lugar para ficar. A tentativa de instituir uma sociedade pública, até agora, não alcançou êxito. O habitante de Petersburgo só vai ao clube para almoçar, e não para passar o tempo. Se Petersburgo até hoje não se transformou num hotel, é por causa de um elemento intrínseco do homem russo, até hoje visto como uma originalidade mesmo com a eterna mistura a coisas estrangeiras. Para falar de cada uma dessas esferas e perceber a vida que transcorre entre elas, com suas alegrias, prazeres, esperanças, dores, é preciso ser um dos que não escrevem absolutamente nada, porque tais senhores, como recompensa por suas atividades, definitivamente não têm tempo. Portanto, não dão atenção a bailes e festas; mas comparecem aos entretenimentos que são encarados com apreço por todas as classes (…). O teatro, o concerto, eis os locais onde se espremem as classes sociais de Petersburgo, e aí têm todo o tempo do mundo para se observarem umas às outras. O balé e a ópera são o tsar e a tsarina do teatro de Petersburgo. Eles apareciam de maneira mais radiante (…) nos anos de outrora, e os espectadores arrebatados esqueceram que existe a grande tragédia que inspira, queiram ou não, sentimentos elevados no coração solidário da multidão que escuta em silêncio, e que existe a comédia, o justo testemunho da sociedade, comovente para nós, a comédia ponderada com rigor, que com a profundidade de sua ironia produz o riso, mas não o riso engendrado por impressões ligeiras (…), mas sim o riso elétrico, vivificante, que se solta sem querer, livremente e de modo inesperado, direto da alma, atingido pelo cegante brilho da inteligência, que nasce do prazer sereno e só é produzido pela inteligência elevada. Têm razão os espectadores empolgados pelo balé e pela ópera… No cenário dramático, surgiram o melodrama e o vaudeville, companhias itinerantes que eram as rainhas do teatro francês, e no teatro russo representavam papéis bastante estranhos. Já faz tempo que se sabe que os atores russos são um pouco estranhos quando representam marqueses, viscondes e barões, como provavelmente seriam ridículos franceses que inventassem de se fazer passar por mujiques russos; e no caso dos bailes, das festas e das recepções da moda que aparecem nas peças russas, como são? E no vaudeville? Já faz tempo que os vaudevilles se infiltraram na cena teatral russa, distraem o povo medíocre (…). Quem haveria de pensar que o vaudeville seria não só traduzido para o teatro russo como até mesmo original? O vaudeville russo! De fato, é um pouquinho estranho, estranho porque essa brincadeira leve e sem cor só poderia nascer entre os franceses, numa nação que não possui em seu caráter uma fisionomia profunda, imóvel; porém, quando obrigam o russo, ainda um pouco duro, pesado, a dar voltinhas como um petit-maître… parece-me que nosso obeso e risonho comerciante de barba comprida, cujos pés não conhecem outra coisa senão botas pesadas, calçou em seu lugar, num dos pés, uma estreita sapatilha de pano e meia à jour, e deixou o outro pé de bota mesmo e dessa forma se postou no primeiro par da dança da quadrilha francesa.

Já faz cinco anos que os melodramas e os vaudevilles tomaram conta dos teatros do mundo inteiro. Que macaquice! Até os alemães… mas quem haveria de imaginar que os alemães, esse povo consistente, adepto do prazer estético profundo, que os alemães agora representam e cantam vaudevilles (…).E ainda temos de aceitar que essa praga seja classificada como um sinal da força do gênio! Quando o mundo inteiro se deixava levar pela lira de Byron, não era ridículo; naquele anseio, havia até algo consolador. Mas Dumas, Du Cange e outros se tornaram os legisladores do mundo inteiro! Palavra de honra, o século XIX irá se envergonhar desses cinco anos. Ah, Molière, o grande Molière! Tu que tão amplamente e com tamanha plenitude desenvolveste teus personagens, que tão profundamente seguiste todos os seus matizes; tu, austero e circunspecto Lessing, e tu, nobre e fervoroso Schiller, que representaste a dignidade do homem sob uma luz tão poética! Dá uma olhada no que fazem em nossos palcos depois de ti; vê que monstrengo estranho, disfarçado de melodrama, se infiltrou entre nós! Onde está nossa vida? Onde estamos nós, com todas as paixões e estranhezas contemporâneas? Quem dera víssemos algum reflexo disso em nosso melodrama! Mas o nosso melodrama mente da maneira mais inconsequente (…).

Notas de Petersburgo de 1836 – cultura – variedades – Estadão.

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