SUJEITOS ERRANTES: dos discursos e sua análise. Por Adriano de León

Adriano de León

SUJEITOS ERRANTES: dos discursos e sua análise

Por Adriano de León

“Conhecimento é invenção !”

F. Nietzsche

“(…) Não podemos descobrir o mundo a partir de dentro. Há a necessidade de um padrão externo de crítica: precisamos de um conjunto de pressupostos alternativos ou – uma vez que estes pressupostos serão muito gerais, fazendo surgir, por assim dizer, todo um mundo alternativo – necessitamos de um mundo imaginário para descobrir os traços do mundo real que supomos habitar. Talvez a realidade não passe de outro mundo imaginário.”  P. Feyerabend

1. A Análise do Discurso Mágico

Para falarmos de discurso é mister partirmos dos pressupostos de Paul Feyerabend[1], autor que anuncia as limitações de todas as metodologias, ao passo em que propõe a alternativa anarquista de construir o objeto de estudo. Segundo o autor, sua lógica anarquista vai no sentido de libertar-nos de conceitos fechados e tirânicos (sic) como “verdade”, “realidade” ou “objetividade”.

Lógico é que, no processo investigativo de textos tão díspares à primeira vista – a Magia Erudita Européia e os livros de magia popular do Nordeste Açucareiro do Brasil – haveria que se ter um arranjo metodológico um tanto quanto complexo, como merece o conjunto de textos proposto à análise. Trabalhar com textos – discursos vivos – significa buscar nestes um fundamento da organização da sociedade que produziu e foi produzida por este campo de saberes.

Pensar Magia é pensar o percurso da formação do grande discurso que varre a Europa seiscentista enaltecendo proto-cientistas e condenando às fogueiras da Inquisição os ditos hereges. Trata-se, pois, de uma série enorme de discursos imbricados num mesmo tema recorrente: o conhecimento do mundo e a manipulação das forças da Natureza.

A escolha do método investigativo, a genealogia ou Análise de Discurso[2], significa inverter a tradição intelectual de pensar um sujeito constituindo um saber: é o saber que constitui os sujeitos.

Ao colocar os sujeitos como produto da articulação entre saber e poder, Michel Foucault descarta a possibilidade de que um processo racionalizador seja o condutor das mudanças sociais, como teorizava Max Weber, e, nesta perspectiva, busca uma forma de investigação distinta daquela usada pelos cientistas sociais clássicos. Esta forma Foucault vai encontrar no procedimento genealógico elaborado por F. Nietzsche[3]. Neste sentido, Foucault trabalha com o conceito de invenção, uma vez que não há uma verdade a ser descoberta pela investigação científica, ou seja, uma origem das coisas, e sim como estas coisas foram “inventadas” a partir de um discurso já-dito. Em pensando-se assim, pode-se anexar à genealogia foucaultiana as propostas básicas da Análise de Discurso.

A Análise de Discurso é um procedimento originalmente trazido pelos estudos de lingüística de F. Saussurre, mais tarde adaptados pela ala neo-estruturalista francesa. A Análise de Discurso relaciona-se, principalmente com textos produzidos por instituições, história dos povos, sociedades[4].

Ponto comum entre a genealogia nos moldes foucaltianos e a Análise do Discurso é a premissa do sujeito posicional. Na verdade não existiria um sujeito fixo, o famoso sujeito da História, mas um processo de sujeição que constrói sujeitos nos diferentes discursos. Assim é possível, nos estudos sobre Magia, termos um mago erudito e uma bruxa compactuando a mesma posição de sujeito conhecedor de práticas mágicas.

Para este arranjo metodológico, a constituição do corpus da análise e a própria análise estão intimamente ligados, isto é, são a mesma coisa. Grosso modo, analisar é dizer o que pertence ou o que não pertence a um conjunto determinado. A relação da Análise do Discurso com os dados não é positivista, como por exemplo a definição durkheimiana de fato social enquanto coisa. O investigador no seu percurso analítico não crê na objetividade dos dados. A exaustão da análise dos dados da pesquisa, para o meu caso os textos mágicos, não quer dizer a compreensão total do conteúdo destes textos, mas antes de tudo, a relação que há na produção de cada um dos conjuntos escolhidos para a análise.

Teoricamente a Análise de Discurso ou genealogia trabalham com a relação[5] entre os discursos selecionados, com as relações entre estes vários discursos, que são dados empíricos, pois que existem de fato, mas também são objetos teóricos, uma vez que são construções, invenções, emergências. A busca da exaustão vertical do conjunto discursivo é o foco principal deste referencial teórico-metodológico, pois o que existe não é o discurso puro, mas um contexto discursivo amplo do qual podem ser extraídos diversos recortes.

Um texto qualquer seria uma abstração maior de um sem-número de enunciados. Assim, abre-se a possibilidade de termos um discurso enunciado por diferentes sujeitos, em diferentes espaços e épocas. Aonde existiria, pois, o discurso puro e perfeito ? Este é uma impossibilidade. Discursos são textos já ditos, palavras soltas, gestos extremos capturados por outros enunciadores, interpretados por indivíduos, instituições e sociedades que arranjam os signos mediante um campo epistemológico definido.[6]

Na escolha do corpus da análise de um dado discurso há certas regularidades e identificações que o definem enquanto tal. Este campo específico de discursos que ora chamo de Magia Erudita e textos mágicos nordestinos formam um conjunto regular do que se pode e que se deve ser dito na situação em que aparecem como discursos populares, eruditos, abertos ou secretos.

O texto não é um apenas um texto. É um conjunto de enunciados que possuem uma regularidade e uma identificação recorrente a um mesmo tema. Não são palavras soltas e nem inéditas. O texto enquanto mais um discurso é uma construção individual permitida ou censurada num dado contexto social. O discurso, nesta ótica, não é uma representação do mundo pelos sujeitos, mas, ao contrário, é a construção deste sujeito pela sociedade, pelo silêncio, pelas formas de interpretação da realidade.

Os conjuntos de textos aqui em análise são fruto da tessitura de basicamente duas memórias discursivas: a memória institucional, a qual dita normas, elabora o discurso oficial e aceito, estabiliza, torna o real um aparato de textos, regras, gestos, comportamentos; a memória do silêncio, o texto subjacente ao discurso oficial, as dobras na superfície do socialmente aceito e dito como realidade.

A própria etimologia do termo discurso evoca a ideia do curso, do percurso, do movimento. Assim entendido, o discurso seria o percurso dos vários sujeitos – o sujeito errante -, sua dispersão e conjunção em dados momentos. Esta dispersão, no entanto, não é aleatória. Ela é socialmente controlada por um corpo de interpretadores do discurso, o qual, ao interpretá-los, atribui sentidos aos mesmos. No caso em tela, a atribuição de erudito, de científico ao discurso mágico europeu, ao mesmo tempo tratado como discurso demoníaco, maléfico, objeto da ignorância é prova da atribuição destes vários sentidos por um conjunto social capaz de fazê-lo, a exemplo do corpo judiciário, da família, da religião e da Ciência, enfim. Estas “ordens sociais” administram os sentidos dos vários discursos com base num jogo de saberes e poderes, estes também frutos de uma construção discursiva.

Analisar discursos ou perseguir a genealogia de uma idéia é pôr em suspenso a interpretação[7]. O objeto de investigação é algo inexistente se não estivesse investido de sentidos para a sociedade e pela sociedade. A investigação da Análise de Discurso, para a lingüística[8] se dá no plano do interdiscurso, para Mangueneau, e no arquivo, para Foucault.[9]

Faz-se mister apontar que não há uma ordenação já-pronta no conjunto de discursos que ora analisarei. Trata-se de um recorte meramente individual, pontos arbitrários que resolvi construir para formação deste corpus de análise. Considerei como recorte temporal dois períodos: o primeiro, que chamarei de Mundo Mágico, correspondente à Europa do século 15 a meados do século 17, aí incluindo-se o Brasil Colonial; o segundo, que tratarei de Mundo Moderno, período compreendido dos meados do século 17 até o apogeu da Modernidade no século 19 e início do século 20. Este recorte será compreendido ao longo da leitura do texto da tese. Ele obedece à descontinuidade entre as duas formas de interpretar o mundo: o mundo visto a partir de similitudes – o Mundo Mágico – e o mundo visto a partir das diferenças – o Mundo Moderno.

Esta diferenciação nas formas de compreender a ordem do mundo é uma conseqüência imediata das formas de controle dos saberes nestes dois períodos. Para cada um destes há uma série de processos internos de controle dos discursos que se faz em relação à classificação, ordenação e distribuição destes saberes a fim de permitir a constituição de uma sociedade relativamente ordenada e passiva.

As teses fundamentais de Michel Foucault são a tônica desta análise. Para Foucault,[10] o sujeito submisso à religião no medievo foi substituído pelo sujeito submisso às letras, às cifras, à precisão, uma idéia que rememora M. Weber. O sujeito do capitalismo, muito embora um sujeito da individualização, é um sujeito livre mas determinado quanto as suas escolhas. O controle dos discursos é o controle dos sujeitos.

Os signos fechados da religião são, desta maneira, substituídos por signos abertos de caráter racional e escolhidos pelos sujeitos.[11]

A escolha dos textos nesta tese significa que os mesmos não apenas representam o real, mas também criam este real. É importante enfatizar a circularidade existente entre o real e os discursos: estes últimos servem de lastro ao mundo real, o qual, por sua vez, legitima toda uma produção de discursos. O discurso da Magia é uma construção mental que se socializa mediante determinadas práticas as quais ora se estabelecem enquanto produção de saberes eruditos, ora enquanto textos malditos produzidos pelo meio popular. No entanto, o popular se mistura ao erudito no processo de circulação cultural[12], numa clara indicação que os conceitos de malévolo, diabólico, doutor, cientista são sujeições originárias de um discurso que pensa ser único porque dominante é.

Assim, a busca dos discursos é a busca da construção destes próprios discursos que emergem em várias falas, sob vários enunciados, configurando o perfil da sociedade que os retém.

A premissa inicial da minha análise consiste em “escavar” dentre o discurso oficial sobre Magia as várias falas que o constituem. Deste ângulo, problematizar este discurso da Magia não quer dizer a representação de um objeto preexistente, nem criar por meio do discurso um objeto que não existe. É o conjunto das práticas discursivas e não discursivas o que faz com que algo entre no jogo do verdadeiro e do falso, e seja constituído como objeto do pensamento. Foucault considera o conhecimento como experiência. Saber e poder para ele são a mesma coisa.

O campo discursivo apresenta uma existência oral e aberta, uma capacidade de repetição que não se encontra externamente determinada mas que, pelo contrário, decorre de sua constituição intrínseca.[13]

A teoria do discurso em Foucault segue duas correntes centrais: a escola francesa que trata a razão enquanto conhecimento da realidade – a razão não objetiva, e a escola weberiana alemã, a qual enxerga a razão como realidade social – o mundo enquanto representação. Esta última tem como fonte Nietzsche e sua genealogia.[14]

A proposta metodológica para a arqueologia dos saberes é perceber os discursos enquanto conjuntos altamente provisórios e altamente precários. Eventos são discursos e vice-versa. Como exemplo clássico a este tipo de procedimento temos a loucura e seus vários discursos.[15] Na Idade Média a loucura era o discurso do sagrado; no século 17, o discurso da doença; no século 18, o discurso do desvio; o discurso da desrazão no século 19 e da clínica no século seguinte.

Foucault integra o movimento estruturalista escatológico.[16] Segundo os teóricos desta vertente – Lacan, Lévi-Strauss, Barthes -, as estruturas da consciência ocultam a realidade do mundo e, mediante este ocultamento, efetivamente isolam os homens dentro de universos discursivos, de pensamentos e ações diferentes. Por isso este movimento parece ser profundamente anti-científico em suas teses ao leitor desavisado.

Uma obsessão que percorre toda a obra de Foucault é pensar o homem não a partir do próprio homem, mas examinar os modos de objetivação do sujeito, ou seja, as operações discursivas pelas quais o indivíduo se constitui como mago, bruxo ou cientista. A partir desta objetivação do sujeito, o intuito do discurso é constituir o terreno pelo qual se inscreveram os processos de objetivação, como os discursos sociológicos, literários, institucionais, religiosos, entre outros. A própria etimologia da palavra discurso – o latim discurrere – sugere um percurso das palavras, um movimento para frente e para trás, deslocamentos de sentidos, de imagens, de ações.

A inversão metodológica de maior cunho no que diz respeito a analisar não as interpretações de um discurso, mas o modo como este foi soerguido, quer dizer que o objeto está investido de significância para os sujeitos e pelos sujeitos.[17] Deste modo, um mesmo objeto pode ter diferentes análises, uma vez que a Análise de Discurso é um dispositivo analítico, o que pressupõe sua adaptação a várias formas interpretativas ou dispositivos teóricos.[18]

Foucault chama o corpus da análise de arquivo. Há sinonímias para tal, a exemplo de interdiscurso ou memória discursiva. Vale salientar que dentro deste corpus em análise todas as formas ditas repousam sobre formas discursivas já-ditas. Assim, o arquivo não pode ser algo fechado que se encerre em si mesmo e onde toda análise tenha efeito. Ao contrário ele é, por assim dizer, a ponta do iceberg de toda uma formação discursiva que atravessa espacilidades e temporalidades, bem como classes sociais e indivíduos singulares. Consequentemente não posso pensar numa produção de discurso como ideológica aos moldes marxistas, e sim como uma profusão de ideias, um fluxo contínuos de dizeres, conforme Weber.[19]

O arquivo está sempre aberto, é um eterno vir-a-ser. Início e fim do discurso são, por conseguinte, cortes arbitrários dados pelo analista. Isto não significa dizer que não há um controle na produção de discursos. Para Foucault, a produção de saberes é internamente controlada por micro poderes que agem nos domínios da sua classificação, ordenação e distribuição, que visam, entre outras, domesticar o acaso e a dimensão do acontecimento natural dos dizeres.

Estudar discursos implica em desconstruir a noção clássica da Ciência Moderna que pensa o homem como centro da produção de saberes, ou seja, pensa o homem a partir do próprio homem, ou pior, pensa o homem a partir do homem da Modernidade. Pensar discurso significa examinar os modos de objetivação dos sujeitos, suas operações discursivas, seu percurso durante a produção de determinados saberes. No caso desta tese, quer dizer perseguir a produção de sujeitos como o mago, o perverso, o feiticeiro, o sábio erudito.

Produzir discursos é produzir mediações. Um discurso é sempre uma interpretação ou uma pré-interpretação do mundo. Sua elaboração se dá a partir de uma trama de outros tantos discursos que se entrelaçam para aparecerem como um discurso uniforme e coerente. Se o discurso, portanto, visa a compreensão das coisas do mundo, então ele almeja tornar coerente o que lhe parece difuso, comum o que lhe é disperso, igual o que lhe chega diferente.

O arquivo busca definir os discursos, não as representações. Esta é uma ideia central nos estudos de Análise de Discurso. A descrição das imagens, a reconstituição dos modelos não são temas deste tipo de metodologia. Na arqueologia, sinônimo de Análise de Discurso, o discurso é um monumento. Os dois grandes monumentos que são o tema desta tese são a Magia Erudita e Magia herética que vão se constituir numa proto-ciência na Europa setentista, e no imaginário de um território de perversão e terror no Nordeste Açucareiro do Brasil Colônia, respectivamente.

Faz-se necessário enfatizar que a arqueologia não lida com a ideia de seqüências temporais, como o faz a História das Ideias. A primeira suspende a ideia de que a sucessão é uma coisa absoluta.[20] Isto porque o discurso possui diversos planos de acontecimentos possíveis, os quais podem seguir uma sequência temporal contínua ou não, bem como podem tomar rumos descontínuos numa seqüência temporal contínua. A Magia, por exemplo, dependendo de quem a enuncia, poder ser considerada heresia ou eruditismo, como veremos na sequência desta tese. O procedimento metodológico da Análise de Discurso não lida com a ideia de mudança nas estruturas sociais, e sim com as transformações em que consiste a mudança. Isto significa, antes de tudo, estabelecer a transformação do campo erudito da Magia européia setentista para o campo do maléfico na Terra Brasilis.

O meu procedimento inicial visou estabelecer um campo de pesquisa no qual as relações tendessem a ser numerosas e de fácil descrição. Uma questão insurgiu-se: qual a relação entre os textos clássicos publicados na Europa sob o título de Magia Cerimonial ou Branca e os textos até hoje considerados proscritos no imaginário nordestino, a exemplo das inúmeras edições de livros como São Cipriano ou Cruz de Caravaca ? Diferentes enunciados formam um conjunto quando se referem a um mesmo objeto.[21] Está posto, logo, o meu arquivo, a partir do qual todas as considerações passarão a ser levadas a cabo. Busco não a coerência dos conceitos que foram produzidos ao longo do tempo, mas a emergência[22] destes conceitos. A qualidade de erudito e de maldito, partes de um mesmo discurso, emergem sob formas diferentes. Pretendo analisar, assim, o jogo destas emergências, o aparecimento de um dado discurso ou sua dispersão.

A execução de tal pesquisa requer algumas considerações iniciais. De logo, eliminar o tema da continuidade tão enfatizado pelas Ciências Sociais. Continuidade aparece como uniformidade discursiva, o que é falso. A uniformidade é vista apenas quando percebemos a superfície das coisas. O descontínuo na formação dos discursos significa perseguir a emergência de fatos e saberes que se agregam a este discurso que parece estar uniformemente colorido. Disto decorre a suspensão de noções como evolução retilínea, de progresso. O uso de todos estes conceitos em si pode mascarar um panorama social que, por outra análise, poderia ser melhor investigado. Proponho, antes, reconstrui-los para que se visualize como a partir deles a sociedade pôde reagrupar uma sucessão de acontecimentos dispersos e arrumá-los num único e mesmo princípio organizador.

Como a Análise de Discurso trata o discurso em sua instância, é este corolário que permite ao pesquisador enxergar em diferentes textos ideias semelhantes, mas revestidas por um estatuto de poder. É o exemplo do culto aos quatro elementos – ar, terra, fogo e água – tão presente nas festas juninas por meio de práticas mágicas como adivinhações, conjuros, rogos, orações à terra, benção de alimentos, as quais sempre foram vistas, ou melhor dizendo, classificadas, como práticas cristãs através da enunciação do discurso católico. Discursar é exercer poder. A suspensão de todas as formas de continuidade é, pois, condição sine qua non para toda a arqueologia de saberes. Uma vez suspensas estas formas, todas arranjadas pela ciência, tem-se os vários domínios de poderes de onde originaram-se estes saberes. De Gaia para Geologia; da Magia Naturalis para as Ciências Médicas; das Ars Coeli para a Astronomia.

2. A Formação do Campo Epistemológico da Modernidade

Sobre a produção de discursos, M. Foucault[23] enuncia que

As práticas discursivas caracterizam-se pelo recorte de um campo de projetos, pela definição de uma perspectiva legítima para o sujeito do conhecimento, pela fixação das normas para elaboração de conceitos e teorias. Cada uma delas supõe um jogo de prescrições que determinam exclusões e escolhas.”

Uma mesma prática discursiva resume várias disciplinas ou ciências. Estas práticas ganham corpo em instituições – o discurso político, em modos de comportamento – o discurso da etiqueta, em tipos de conhecimento – o discurso médico, em formas pedagógicas – o discurso acadêmico. É através disto que se pode pensar no porquê do reconhecimento do método do médico Paracelso como grande cientista do seu tempo, ao mesmo tempo que se punha nas fogueiras mulheres que lidavam com os mesmos procedimentos fitoterápicos que o citado médico. Ora, o conceito de bruxaria impetrado a tais mulheres advém da fabricação de um discurso, o discurso estereotipado dos pactos diabólicos entre mulheres e entidades infernais explícitos pedagogicamente em manuais de caça às bruxas, como tratados nesta tese.

Os discursos são expressões do tempo em que foram produzidos. Com efeito, a Modernidade é um arranjo discursivo preponderante para se entender o arrefecimento do discurso mágico na Europa. A Modernidade modifica o discurso mágico erudito a partir da institucionalização de saberes, da elaboração de novos conceitos e da crença difundida na Europa e nas suas colônias de que o único saber capaz de desvendar o mundo seria a Ciência Moderna.

A Modernidade é o lugar por excelência do conhecimento científico. A física no século 17, a química no século 18 e a biologia no século 19 tornaram-se paradigmas do conhecimento cientificamente elaborado, com seus objetivos específicos, demarcados por um método de experimentação que institui os critérios de verificação racionais, através de instrumentos de medida. Conhecer é, portanto, quantificar. O aparecimento do discurso racional e do método científico põe em cheque os procedimentos ditos mágicos do século 16. A própria Magia, com efeito, toma ares de proto-ciência através de sua refinada erudição presente nos textos de Eliphas-Levi, Papus, Pico Della Mirandola, Ficino, Paracelso, entre outros. Estes textos, amplamente divulgados, escapam da conceituação de bruxaria presente no Malleus Maleficarum, por exemplo. A Magia Erudita, lentamente, toma aspecto de conhecimento racional, mas sem deixar de trabalhar com a dogmática própria desta forma de saber.

Assim, cada domínio do saber tem seu contorno e sua especificidade própria, o que torna inútil tentar instaurar um ideal unitário de ciência. Ademais , estes domínios procuram, no interior de cada discurso, conferir-lhe o estatuto de um texto e tratá-lo como uma rede ou um tecido de significações que vale a pena comentar ou explicitar. A partir dessa análise interna, procurarão examinar e estabelecer o conjunto de critérios próprios e específicos de validação da disciplina em questão e do seu ideal de verdade.

A arqueologia dos saberes visa, assim três momentos:[24]

1. situar o lugar do conhecimento científico dentro dos domínios dos saberes;

2. estabelecer seus limites;

3. interrogar sobre as possibilidades deste conhecimento.

Neste esquema analítico o saber é histórico. O saber é concebido como um tecido onde se entrelaçam conceitos que em sua montagem determinam sua espessura. O saber é um tecido que reveste o corpo nu. A máquina de tear do saber são as estratégias metodológicas. Os cientistas são os tecelões que produzem um saber que servirá para nomear as funções, definindo normas e significações.[25]

A produção de saberes só é possível porque em toda cultura, entre os o uso do que se pode chamar os códigos ordenadores e as reflexões sobre a ordem, há a experiência nua da ordem e de suas estratégias de poder.

Epistèmê ou campo epistemológico é a configuração, a disposição que o saber assume em determinada época e lhe confere uma positividade enquanto saber.[26]

A cada época histórica determinada corresponde um certo campo epistemológico, uma estrutura de ordenação de saberes, um campo fértil que serve de base para sua germinação, eclosão e crescimento. Uma breve discussão sobre a noção foucaultiana de arqueologia implica num debate sobre as formas de ordenação do conhecimento. Enquanto para os idealistas alemães, no esteio de Kant, tratavam de formas a priori a ordenar racionalmente as impressões sensíveis, Foucault fala numa ordem anterior ao saber que determina as condições e características do próprio saber.[27] O abismo entre eles está no fato de que enquanto o primeiro falava em formas universais, o segundo admite uma transformação histórica da ordenação subjacente aos saberes.

A concepção de mundo dos homens está balizada por este campo epistemológico. Desta forma,

“Se se quiser empreender uma análise arqueológica do próprio saber, (…) é preciso reconstituir o sistema geral de pensamento, cuja rede, em sua positividade, torna possível um jogo de opiniões simultâneas e aparentemente contraditórias. É essa rede que define as condições de possibilidade de um debate ou de um problema, é ela a portadora da historicidade do saber.”[28]

Esta rede é formada pelo entrelaçamento de vários processos de sociabilidade manifestados pelos diferentes discursos os quais podem se apresentar ilusoriamente como se fossem um só. Desta maneira se é possível enxergar o aparecimento de sujeitos pela imposição de um dado discurso. É o caso da mulher, do camponês, do degredado, vistos como maléficos pelo discurso da bruxomania. Para o caso do estudo na zona açucareira das capitanias de cima[29], a presença do Santo Ofício Inquisitorial a estas pairagens implicou em imputar nas práticas cotidianas dos colonos a pecha de malefício. Sem embargo, mouros, cristãos-novos, mulheres “livres” e curandeiros foram sujeitados ao conceito jurídico de bruxaria oriundo da Europa quinhentista.

O campo epistemológico clássico é marcado pela similitude, pois a ordem intrínseca e anterior aos saberes é a ordem da semelhança. Na relação entre as palavras e as coisas, deve-se estabelecer uma relação de semelhança, como se, assim, fosse possível igualar magicamente a palavra e a coisa, possibilitando uma ação mágica sobre o mundo através da palavra.

O campo epistemológico do século 16 é marcado por uma forte aliança entre a palavra e a coisa centrada na semelhança. O dizer e o falar assumem uma força esotérica, pois se verbo e matéria estão indissociavelmente unidas pela similitude, a palavra ganha uma força mágica de transformar a realidade. Assim, o estudo da gramática repousa, no século 16, na mesma disposição epistemológica em que repousam a ciência da natureza ou as disciplinas esotéricas.

Do que disto resulta é a visão mágica do mundo do século 16 que foi trazida para a Colônia. O domínio das práticas mágicas da sociedade colonial é o domínio das semelhanças. Adivinhar, benzer, curar, são funções mágicas. Tais artes consistem em buscar no campo epistemológico da Magia a semelhança entre raízes, ervas, alimentação, locais sagrados, entre outros, com os padecimentos vividos pelos colonos do tropical território.

O novo campo epistemológico do século 17 já não se funda na semelhança, e sim na representação. Neste campo clássico, Foucault identifica duas instâncias ordenadoras: a máthêsis (com base na álgebra) para ordenar as naturezas simples, e a taxinomia (base nos signos) para ordenar as naturezas complexas. Neste novo campo, o discurso já não estabelece uma semelhança com as coisas, remetendo para uma identidade entre ambos, mas alça-se como uma representação das coisas, uma maneira de ordená-las e dá-las a conhecer através da análise. O campo epistemológico clássico é também o fundamento da ciência moderna, esse gigantesco esforça de levar ordem ao mundo, iniciado com a síntese newtoniana. Ela baseia-se nas representações fundadas numa analítica do número, numa analítica do signo e numa analítica da origem.

A partir de então, findam as perseguições aos bruxos; o novo estatuto das práticas mágicas passa a ser o da superstição. Não é à toa que grande parte do resgate de tais práticas se dá sob o prisma dos estudos do folclore e das tradições populares. Este vasto campo etnográfico é ainda um palco de debates não científicos. Se algo ou alguém é “folclórico”, como diz o coloquial linguajar, significa não considerar este algo ou alguém como sensato ou sério. Assim, o que deve ser ou não estudado cientificamente depende do grau de cientificidade deste objeto. Objeto este arbitrário e historicamente construído.

3. O Arquivo da Magia

Trazendo à baila os discursos como fontes analíticos da Sociologia Histórica, posso construir as séries discursivas referentes à Magia como saber erudito ou como silêncio. A atitude repressiva contra a Magia não só desmascarava os seus adeptos mas também os criava no imaginário da época. Portanto, o estudo da Magia se liga às práticas repressivas, bem como ao recuo geral na repressão jurídica a tais práticas. Um vasto espectro.

Ao referir-me à Magia enquanto arquivo, estou questionando um dos aspectos da teoria do desencantamento do mundo de Weber, uma vez que a Magia não cede lugar às facetas da racionalização: ela recua e emerge sob outras formas de saber, inclusive o científico[30]. Não se pode, portanto, fazer associações de práticas mágicas antigas com a Magia Moderna, uma vez que esta última se reveste de vários discursos que agregam vários outros elementos à discussão[31]. O estudo da Magia dentro dos procedimentos da genealogia significa inverter a tradição intelectual de pensar um sujeito constituindo um saber: é o saber que constitui os sujeitos. Ao colocar os sujeitos como produtos da articulação entre saber e poder, Foucault descarta a possibilidade de que um processo racionalizador (Weber) seja o condutor das mudanças sociais e, nesta perspectiva, busca uma forma de investigação distinta daquelas usadas pelos cientistas sociais. O autor citado enfatiza o termo invenção em oposição à origem.

As formações discursivas apresentam, segundo Foucault[32], uma existência oral e aberta, uma capacidade de repetição que não se encontra exatamente determinada, mas que, pelo contrário, decorre de sua constituição mais intrínseca.

O tema discurso possui sua atualidade maior no que diz respeito à Análise do Discurso, metodologia proposta pelos estudos de socio-linguística e da Sociologia Histórica.

A novidade da Análise do Discurso é tomar o sujeito como posicional[33]. Toda Análise do Discurso relaciona-se com os arquivos, ou textos produzidos por instituições, sociedades, indivíduos, silêncios. Basicamente, trabalhar Magia como interdiscurso significa ver nos textos um conjunto discursivo, buscar a posição dos sujeitos nas mais diversas práticas discursivas e nas suas formações.

Daí advém um outro sentido da atualidade do tema Magia: o silêncio como parte de um discurso sobre tal. O silêncio é fundante, uma vez que este se constitui um lapso na linguagem ou uma censura a um dado discurso[34]. Concordando com Foucault, H. White[35] diz que falar é um ato repressivo. No concernente à Magia, o discurso do silêncio implica na impossibilidade de retratar o mundo cercado pelos avanços da ciência clássica, por um lado, e pelos ecos da Inquisição, por outro. Neste aspecto, o objetivo da arqueologia das idéias é penetrar o interior de qualquer modo de discurso a fim de determinar o ponto que ele condena certas áreas da experiência ao limbo das coisas que se pode dizer.

4. O Olhar das Ciências Sociais

As Ciências Sociais são uma empreitada do mundo moderno. Suas origens refletem o imaginário setecentista que consistia em desenvolver um saber sistemático e secular sobre a realidade, como base no modelo simétrico – temporal newtoniano, no dualismo cartesiano e num olhar evolucionista sobre o modo de vida ocidental.

A construção das Ciências Sociais se dá, pois, a partir de uma totalidade, a realidade social, o fenômeno social total, e por isso a distinção das Ciências Sociais provém delas mesmas[36].

Faz-se necessário apontar que o novo domínio do saber construído pelas Ciências Sociais é uma invenção teórica que toma por base o empirismo naturalista das Ciências Naturais e o sistema de metrificação das Ciências Matemáticas. Se por um lado temos a tentativa de configuração de um objeto claro para cada uma das Ciências Sociais, por outro temos inúmeras teorias que tentam dar conta de problemas da vida de grupos humanos na nova realidade da cidade moderna. Em se tratando de construir um modelo universal, as Ciências Sociais já se encontram numa via de mão dupla: a fragmentação entre objetos e teses sobre este; a vã tentativa de tornar objetiva a subjetividade do social.

Estes modelos teóricos do século 19 têm por base a dualidade entre o conhecimento certo – a Ciência – em oposição ao conhecimento imaginado ou imaginário[37].

As Ciências Humanas não receberam por herança um domínio de saber já delineado, domínio este dimensionado previamente, embora ainda não desbravado. A química, por exemplo, toma da alquimia um arcabouço com um referencial básico, tratando apenas de reconfigurar conhecimentos empíricos e mágicos em teses científicas validadas. Desta maneira, a tarefa das Ciências Humanas seria, antes de mais nada, elaborar um domínio de saberes a partir de conceitos científicos e métodos positivos.

O aparecimento das Ciências Humanas coincide com o aparecimento do conceito de homem na cultura ocidental. Este conceito só foi possível no século 19 com o surgimento de conceitos como vida, linguagem e trabalho[38]. O homem é, pois, uma invenção da Modernidade. É um organismo vivo que modifica a natureza e a representa. O mundo dos signos, um mundo dado pela Natureza, passa a ser o mundo construído pelo homem, este ser que, nas palavras de Foucault, torna possível todo o conhecimento.

Não se trata de considerar a inexistência real do homem nos séculos 17 e 18, tampouco de refutar outros saberes que a este se ligavam. A proposta do autor na sua arqueologia é, sobremaneira, advogar a tese que estes saberes não se adaptavam no engradamento conceitual da ciência, que implica em observação, teste e repetição. Ao afirmar que o senso comum contém saberes que podem ser considerados científicos, a lógica de construção destes saberes implicam em algum tipo de mérito ou num grau especial de confiabilidade.

No que possa a ser considerado como feições das Ciências Humanas, há que se perceber que a inclusão de um destes três planos confere um padrão teórico-metodológico a estas. Em se tratando da Sociologia, cada um destes planos gerou um certo padrão teórico, criando assim o que se chama corrente teórica. Isto não implica na inclusão de um só método em vários planos, nem também na buscava de uma metodologia específica para um destes três planos em particular. Assim, a Sociologia pode tentar se revestir de exatidão com a estatística, pode estabelecer fins e laços entre fins com o organicismo, ou mesmo vir a refletir sobre as bases onde se firma num plano mais geral a partir da reflexão filosófica.

A Sociologia, ela própria, tem travado um debate particular quanto aos seus domínios. Há, principalmente, duas vertentes que, apesar de nem sempre contradizerem-se, procuram o travar um debate entre exatidão, de um lado, e causalidade, por outro. O campo da exatidão possível recorre a um método unificado de proposições empiricamente verificáveis dentro de um plano racional e objetivo[39].

A vertente oposta apanha seu material no cotidiano do trabalho, da vida e da linguagem, suportada pelo princípio da incomensurabilidade de Feyerabend[40] e numa certa liberdade de escolha que teriam os indivíduos de uma sociedade. Esta última vertente tem sido responsável por um certo grau de transcendência da Sociologia, bem como das Ciências Humanas como um todo, pelo fato de estabelecer novas construções teórico-metodológicas sobre temas antes considerados exatos.

Ao retrair-se, a exatidão descortina um ser que vive, produz e se comunica. Desta feita, a ciência do homem torna-se possível pelas representações que indivíduos ou sociedades têm de suas relações de produção, dos modos como se processa tal produção, bem como dos mecanismos que detêm ou implementam tal produção. É objeto das Ciências Humanas o simbolizado pelo homem, mas não o próprio homem. Daí advêm os conflitos e vicissitudes da Sociologia, da Psicologia, da História etc., em enxergar o homem corpo de funções e formas, ao invés de observar seus sinais e criações; não a fala, e sim o sentido que esta confere ao mundo.

Além deste descontinuum, as Ciências Humanas, desde o século 19 têm lidado com três modelos. O homem da sociedade orgânica e funcional é o tema do modelo biológico. O homem dos desejos e conflitos é enfocado no modelo econômico. Com Comte, Marx e Freud, a priori, dá-se o reino do modelo filológico, o qual interpreta o homem dentro de um sistema estrutural. A partir destes três modelos várias categorias são criadas na tentativa de localizar e interpretar as representações do homem, indo do espectro do consciente até o inconsciente. Que se reafirme constantemente este grau de descontinuidade: as Ciências Humanas são parte do momento moderno do conhecimento, estando, portanto, suas condições de existência à deriva deste campo epistemológico, o qual também se desvanecerá tal qual a magia, a alquimia e a gramática.

A formação de uma linha racional de pensamento sociológico tem referencial no controle de uma linguagem sociológica de enunciados conceituais inteligíveis[41]. Com efeito, a formação dos conceitos na Sociologia se dá nos domínios da pesquisa sociológica, a qual está sempre produzindo uma série de conhecimentos empíricos futuramente interpretados através destes conceitos quase sempre reformulados. Trata-se, pois, de um conhecimento seqüencial obtido graças a diversidade dos métodos de comparação da análise sociológica.

A teoria social, neste sentido, enfoca os processos de mudança social, de modernização e revolução. O progresso é seu universo teórico e o tempo histórico sua dimensão primária. A Modernidade, por sua vez, trata o progresso a partir dos processos de modernização com lastro numa semântica de futuro, padronizando a espacialidade como fixa e o tempo como senhor da dialética. Bourdieu[42] afirma que a escrita retira a prática e o dito do fluxo do tempo, em corroboração com o anteriormente dito.

No intuito de colocar na arena as categorias de espaço e tempo Michel Foucault, Gaston Bachelard e Michel de Certeau têm sido responsáveis por abordagens que implicam na desconstrução destes conceitos. Foucault[43] vê no corpo o elemento irredutível do espaço social, uma vez que é sobre o corpo que as forças de repressão e controle se exercem. Sendo o corpo humano limitado espacialmente, o espaço exterior é apenas uma metáfora para um dado lugar que ora restringe o corpo a ele mesmo, ora o libera completamente. Corroborando com Foucault, Michel de Certeau[44] toma os espaços sociais como palcos abertos de realização da criatividade humana. Para ele a cidade é este espaço multifacetado com espaços singulares frutos de uma ampla gama de ações. Os ritmos, as pulsações da cidade é o que define o espaço simbólico por meio de práticas sociais de vários grupos. Para Bachelard[45] o espaço é considerado um elemento imaginário. Segundo este autor, o tempo é apenas uma sequência de pontos fixos nos espaços por onde circula o homem. O espaço é um tempo comprimido. Seu local de apropriação é a casa, pois é neste espaço onde aprendemos a imaginar. Ainda mais, Bachelard considera os espaços como invenção que confere um sentido novo para a realização das práticas sociais.

Certo é que a Sociologia é tida como incerta dentro do quadro geral das ciências em se tratando da presença de um foco claro no campo epistemológico moderno. Isto significa uma precariedade teórica pela sua proximidade com outros ramos do conhecimento, principalmente com a filosofia. Contudo, este fato não implica num demérito para a Sociologia, nem a sua transposição para um esteio metafísico. Antes, este pseudo-dilema aqui apresentado é fruto da extrema complexidade epistemológica onde se localiza a Sociologia, bem como de sua nata interdisciplinaridade. Os conflitos oriundos desta rede de saberes num mesmo ramo do conhecimento tem sido o motivo principal dos debates teóricos travados entre modernos e pós-modernos, cada qual advogando a tese, por vezes infundada, que o saber sociológico é próprio, portanto eficaz em si, ou que este é fluido, portanto agregado a outros tantos saberes e metodologias.

A situação da Sociologia no domínio das ciências é uma via de mão dupla. À primeira vista ela enquadra-se nos arcanos da ciência pelo seu procedimento instrumental originado do empirismo de Bacon, do positivismo de Comte e das regras de Durkheim. Assim, assemelha-se a uma lente que busca a ordem orgânica dos grupos e comunidades. A outra faceta a desloca dos enunciados da ciência situando a mesma em espaços projetivos das outras ciências. Por tudo isto a Sociologia é um complexo enorme de saberes arranjados em uma semântica que almeja ser única, definida por categorias próprias as quais instituem o tempo como tempo do trabalho, da vida e da linguagem.

Com efeito, a semântica sociológica propõe um conjunto virtual, pois que jamais se concretizará como integral e universal, formado de séries de conhecimentos inteligíveis e creditáveis de análise.

A Sociologia, seguindo esta linha de raciocínio, não foi instituída pela sociedade do século 19, através das visões de Saint-Simon, Tocqueville, Comte, Durkheim, entre outros, e sim é ela responsável pela invenção desta sociedade como objeto de estudo e como realização espaço-temporal da cidade moderna.

No quadro dos saberes do século 19, ela surge como um discurso fundador da sociedade. De acordo com H. White,[46] o intuito de qualquer discurso é constituir o terreno onde ele pode decidir o que contará como fato na matéria em consideração e determinar qual o modo de compreensão mais adequado ao entendimento dos fatos assim constituídos. A Sociologia é, antes de mais nada, um jogo de linguagens técnicas, teóricas e metodológicas.

Escapar deste quadro extremamente teórico significa escapar do mito newtoniano, o qual reduz o mundo a uma simplicidade reduzida à leis universais. Significa uma derrocada geral no que diz respeito às metodologias dos modernos, responsável pelos métodos determinísticos e apriorísticos tão presentes nas metanarrativas do século 19.

A Sociologia é também uma adaptação de teorias e métodos. Com efeito, deve ter tais métodos e teorias analisados no jogo de valores da época em que foram concebidos. Este é o primeiro passo para a valorização do saber sociológico, e também a primeira etapa para a crítica e superação deste discurso totalizante. Mundos novos. Novas aproximações teórico-metodológicas. Abrir as fronteiras do conhecimento, fugir aos grilhões da disciplinaridade, desmantelar ideias e construir outras tantas. Eis a magia que se está por fazer.

NOTAS


[1] P. Feyerabend, Against Method, 1975.

[2] Para uma investigação mais detalhada sobre tais conceitos veja M. Foucault, 1986 e D. Mangueneau, 1993, respectivamente.

[3] H. Singer, A Genealogia Como Procedimento de Análise. A autora trabalha os conceitos de emergência epistemológica e invenção na obra de M. Foucault. A proposta básica de F. Nietzsche em O Crepúsculo dos Ídolos, 1983, p. 187-223, é construir uma filosofia “a marteladas” que derrube os ídolos da Modernidade.

[4] Ver D. Mangueneau, Novas Tendências em Análise do Discurso. 1993: 13 e seg.

[5] Id. ibid.: 32.

[6] A este campo epistemológico, M. Foucault denomina epistèmê. Nesta tese o termo será comumente denominado de campo epistemológico.

[7] E. P. Orlandi, em Análise de Discurso, 1999: 25 e segs., estabelece uma diferença básica entre Análise de Discurso e Hermenêutica: a primeira visa compreender como o simbólico constrói sentidos, analisando a sua própria interpretação, esta objeto da Hermenêutica.

[8] Aqui no Brasil a UNICAMP representa esta vertente. Há toda uma ligação da Análise de Discurso com três teorias: a Psicanálise, o Marxismo e a Lingüística Clássica. Nesta tese as citações da Análise de Discurso não têm necessariamente esta referência teórica.

[9] Foucault pensa o arquivo como um conjunto de saberes que se constróem a partir da intervenção de um conjunto ordenado de poderes.

[10] Ver principalmente L’Ordre du Discours, 1971 e Vigiar e Punir, 1977.

[11] Esta é a leitura de E. P. Orlandi sobre a obra foucaultiana, em Foucault Vivo, 1987: 53-65.

[12] Este conceito foi formulado por C. Ginzburg, em O Queijo e os Vermes, 1987.

[13] A este respeito ver M. Mitajvila, Corpo, Poder, Saber, Tempo Social 7: 53-66, 1998.

[14] Ver P. Veyne, Foucault Revoluciona a História, 1995.

[15] Ver A História da Loucura¸ de M. Foucault, 1993.

[16] Esta é a idéia de H. White, Trópicos do Discurso, 1994: introdução.

[17] A este respeito, E. P. Orlandi, em Análise de Discurso, 1999: 26, apresenta uma série de considerações sobre a proposta metodológica da Análise de Discurso, bem como estabelece uma diferenciação entre esta e a hermenêutica como procedimento analítico.

[18] Veja o exemplo da escola de Campinas ligada a Análise de Discurso: as análises feitas por Orlandi e outros seguem bem a vertente marxista que tem a ideologia na produção de discursos como tônica principal. Este não é o nosso caso.

[19] Para M. Weber, em Sociology of Religion, 1992: cap. 2 e seg., bem como para D. MacRae, um dos seus biógrafos, ideologia seria para este autor “um fluxo caótico de idéias”.

[20] Ver Foucault, A Arqueologia do Saber, 1987: 191.

[21] Id. ibid.: 36.

[22] Foucault lida com o conceito nietzscheano de genealogia para afirmar o conceito de emergência.

[23] Resumo dos Cursos do Collège de France (1970-1982): 11

[24] Veja o texto de M. Mariguela, A Psicanálise na Arqueologia das Ciências Humanas, 1995: 121.

[25] Id. ibid: 123.

[26] R. Machado, Ciência e Saber, 1981: 148-9.

[27] Para maiores detalhes recomenda-se ler O Conceito de Epistèmê e sua Arqueologia em Foucault, 1995: 15, bem como As Palavras e as Coisas, 1990, p. 181.

[28] M. Foucault, As Palavras e as Coisas, p. 90.

[29] Chamavam-se “Capitanias de Cima”, às capitanias do norte, hoje Nordeste do Brasil.

[30] Keith Thomas, 1991: capítulo 4, descreve as influências da Magia nos escritos de Newton, Kepler e Darwin, todos participantes de sociedades secretas de cunho esotérico.

[31] Esta é a tese de C. Guinzburg , em O Queijo e os Vermes, 1987.

[32] In: A Arqueologia do Saber, 1986.

[33] Cf. D. Mangueneau, 1995: 14.

[34] A idéia de silêncio fundante é de E. Orlandi, 1995, a qual toma Foucault como tema básico de suas pesquisas sobre o silêncio, o censurado, o não-dito.

[35] 1994: 32.

[36] B. S. Santos, 1989, discute as rupturas epistemológicas ocorridas nas Ciências Sociais e seus vários discursos.

[37] Esta é uma das teses elaboradas pela Comissão Gulbenkian Para a Reestruturação das Ciências Sociais, 1996: 18.

[38] M. Foucault, 1990: 362.

[39] Veja a discussão de I. Lakatos presente no capítulo 4 do livro de A. Chalmers, O Que é a Ciência, Afinal ?

[40] No seu livro Contra o Método, P. Feyerabend defende a afirmação de que nenhum dos métodos da ciência até agora propostos foram bem-sucedidos.

[41] Esta é a temática básica de J. C. Passeron, 1991: 38 e seg. Este autor, ao tratar do léxico da Sociologia , enuncia as estruturas lingüísticas agregadas a um raciocínio próprio deste ramo do saber.

[42] 1993: 104

[43] In: Vigiar e Punir, 1988, pas.

[44] In: A Invenção do Cotidiano, 1994: 48 e seg.

[45] A Formação do Espírito Científico, 1995.: 103.

[46] In: Trópicos do Discurso, 1994: 16.

Por Adriano de León. Professor do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da UFPB – Brasil


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