Coisas da Política – Ideologia, quero uma para esquecer. Por Paulo Rosenbaum

Em seu tempo o filósofo grego Sócrates falava de uma juventude sem valores, perdida e apática, que parecia somente se importar com o imediato e buscar o caminho das facilidades. Como se vê, abundam exemplos na história de que estamos nos repetindo.Quando Cazuza formulou sua famosa letra no álbum  Ideologia, vocalizou e capturou perfeitamente o arquétipo de uma geração. A ruína do socialismo, a crise das religiões e a truculência capitalista nos lançaram no mesmo vazio com que filósofos, como Pascal e Nietzsche, já se deparavam em suas respectivas épocas.

A reação ao monstruoso vazio foi tardia. Duas décadas depois ela chegou explosiva com o ressurgimento da história, que apenas e astuciosamente hibernava para desespero dos teóricos de Harvard. O terror, o retorno selvagem das tradições religiosas como armas e o acirramento no entorno das ideologias, infelizmente não nos trouxe uma nova Renascença, como se esperava.

A bancarrota sucessiva de guias fáceis, diretrizes mentais e líderes duvidosos nos obrigou à busca de atalhos para conseguir sobreviver ao deserto. Esta aridez chegou à política. Que os leitores me desmintam, mas isso só vale para quem puder ouvir o programa eleitoral gratuito até o fim. Lá há de tudo, mas predominam vozes estudadas, promessas vagas idênticas, e a solidária ausência de sinceridade para com o eleitor.

As sessões diante da TV justiça também não parecem ser solução, muito menos com a mensagem subliminar de que a partir dali “passaremos o país a limpo”. Deveríamos, isso sim, começar a ficar preocupados com o discurso moralista dos que nada devem. A sede por punição e a sanha pela impunidade acabam se anulando e, pior, retiram o mérito do processo — que importa mais do que o resultado  —  já que a questão em jogo transcende eventuais condenações e absolvições. Mas, e se a moda pega? Lembram-se dos fiscais do Sarney? E se houver a tal onda moralizadora que apanhe e queime todos nós na ratoeira das transgressões? Quem sobraria do lado de fora do caldeirão dogmático? Será um pouco entediante, sobretudo estranho, observar da jaula os poucos felizardos a gozar de liberdade. Um julgamento só deveria ser espetacularizado assim se a discussão, pedagógica, ficasse centralizada nos conceitos de verdade e justiça.

Será que existe uma ética da esperança? Fosse eu filósofo com algum poder, começaria com o pedido de condenação sumária da convicção. Para ela, não caberia habeas corpus, suspensão da pena ou direito a outras instâncias. Homens de convicção são aqueles que, de antemão, já bateram os martelos por toda a vida em todos os assuntos. Opinião formada, cabeça feita, não é assim que eles se apresentam? Homens de convicção podem cometer crimes para, em seguida, indultarem-se. Para eles, é tudo preto no branco, certo ou errado, isso ou aquilo. Para estas almas resolutas nascidas sob o signo da certeza absoluta e da causa, não existem zonas cinzentas.

A ética da esperança teria como inciso primeiro do parágrafo único a regra que nenhum outro código teve coragem ou vergonha para estabelecer: somos tão falíveis e tão pouco autoconscientes que é provável que aqueles a quem julgamos com tanta sabedoria todos os dias, às dezenas, sejam melhores que nós.

Se não dermos invertidas corajosas à lógica da razão, quais chances teremos para mudar qualquer coisa? Muitas mudanças na humanidade começaram com pequenas inversões de sinal. Em geral, oposta aos gritos da maioria. Se pensarmos bem, em matéria de ousadia, precisamos mais do raro do que do comum. Atravessamos o século 19 e o 20 com as duas guerras mais sangrentas da história e chegamos ao século 21 sem nenhuma garantia de que esses erros não se repetirão. Será que não há nenhuma tomada de rédea à vista? Só assim o destino não teria meta pré-fixada, como acontece no planejamento de vendas e mercados futuros.

A quase única resposta para esta prisão chamada ideologia é assumi-la como um parasita que tenta nos convencer de que precisamos de pernas e cabeças alheias  para viver. Por isso mesmo, simplesmente sensacional a figura de linguagem “voto de cabresto”, mereceria figurar no Oxford Dictionary como expressão idiomática local com caráter universal.

Deve haver algum motivo para que, ao nascer, sejamos os animais com menor autonomia dentre todos os mamíferos.  O verdadeiro poder não está nos mandatos, e sim em assumir passos próprios. Só assim o Estado seria um servidor da comunidade e não seu demiurgo. A democracia, como uma criança, também precisa aprender a se movimentar e dizer do que precisa e do que pode prescindir para crescer.

Ninguém disse que seria fácil, e talvez nem mesmo haja escolha, mas quem não aprender a andar sozinho vai rapidamente virar passado.

Fonte/crédito: Jornal do Brasil – Coisas da Política – Ideologia, quero uma para esquecer   .

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