Entrevista: “Hobsbawm foi o historiador mais importante do século 20”

Revista Cult

por MARÍLIA KODIC

Eric Hobsbawm

Eric Hobsbawm

O Professor de História da USP e conselheiro do Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico Francisco Alambert, que tem sua carreira voltada à História Social da Arte e História Contemporânea, falou à CULT sobre a herança deixada por Eric Hobsbawm. O historiador britânico faleceu nesta manhã em Londres, aos 95, vítima de pneumonia.

Qual a importância de Hobsbawm para a historiografia e para os estudos marxistas?

Gostemos mais ou menos dele, Hobsbawm é certamente o historiador mais importante do século 20. Na verdade, ele e o século se confundem. Sua longevidade, sua incrível produtividade, sua militância como professor ou como pensador de esquerda cortaram a experiência do século 20 inteiro.

Nele, sujeito e objeto se confundem. Em seus livros, aliás, pelo menos desde a Era do Impérios (Ed. Paz e Terra), ele misturou suas experiências de vida – de sua família e da história dos judeus errantes pelo mundo – com seu trabalho historiográfico. No caso do marxismo, sem criar nenhum novo conceito ou rever algum mais tradicional, ele aprofundou e transformou em linguagem acessível todos os temas mais importantes do pensamento de esquerda.

E inclusive adicionou outros menos tradicionais, como o papel das mulheres nas lutas políticas, a questão da nação e dos nacionalismos, a “invenção das tradições”, o “banditismo social”, a história da ciência. E principalmente o estudo social do jazz, do qual era fã. Seu livro História Social do Jazz (Ed. Paz e Terra) é uma referência para todos os que se interessam por música popular ou erudita, sobre a história dos Estados Unidos, sobre arte como resistência.

Qual é sua obra mais importante?

Certamente os livros das “Eras”: Era das RevoluçõesEra do Capital e Era dos Impérios (todos da Ed. Paz e Terra). Mas eu destacaria e recomendaria aos leitores sua autobiografia, Tempos Interessantes(Cia. das Letras), na qual narra sua vida dentro e diante das grandes experiências do século 20.

É a história de uma pessoa, de um intelectual gigantesco e singular e de um tempo interessante e terrível. Além disso, há curiosas observações sobre o Brasil (ele esteve aqui diversas vezes e manteve ligações fortes com universidades, intelectuais e movimentos sociais, do PT ao MST).

Haveria espaço para um historiador como ele hoje em dia?

Dificilmente. Afinal, ele conjugou duas coisas: o uso criativo da teoria marxista com uma visão panorâmica, pouco “especializada”. E essas são duas coisas que vão na contramão das tendências hegemônicas da historiografia contemporânea. Além disso, ele escrevia maravilhosamente bem. Isso é raro, raríssimo.

Quem é seu sucessor?

Acho que quem mais se aproxima dessa capacidade de síntese das questões centrais do mundo moderno é o também historiador marxista britânico Perry Anderson. Entretanto, a maneira com que ambos lidam com o marxismo é muito diferente, de certa forma até excludente. Outro inglês, recentemente falecido, Tony Judt, foi também uma espécie de “Hobsbawm social-democrata”.

Fonte/crédito: Revista Cult » “Hobsbawm foi o historiador mais importante do século 20”.

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