Entrevista – “Nietzsche agiu como um álcool forte sobre Camus”

Revista Cult

Entrevista com Michel Onfray

Por MARCOS FLAMÍNIO PERES

No novo A Ordem Libertária, Michel Onfray defende que o autor de O Estrangeiro foi muito superior a Foucault e Derrida na interpretação de Nietzsche; para ele, Sartre era “oportunista”

Michel Onfray

Michel Onfray

Ganhador do Nobel de Literatura de 1957, Albert Camus é indiscutivelmente um dos maiores escri­tores de língua francesa do século 20. Obras como O Estrangeiro O Mito de Sísifo funcionaram como revelações para gerações a fio.

Mas seus romances, suas peças e seus ensaios também fazem dele um filósofo dos grandes, principal herdeiro do pensamento de Friedrich Nietzsche no século 20: “O filósofo alemão agiu como um álcool forte sobre Camus”, defende o polêmico pensador Michel Onfray em L’Ordre Libertaire – La Vie Philosophique d’Albert Camus (A Ordem Libertária – A Vida Filosófica de Albert Camus, Flammarion, 595 págs., 22,50 euros/R$ 58), lançado há pouco na França.

Escrito de maneira apaixonada, esta “biografia das ideias” constrói sua hipótese de duas formas: relendo as obras e a cor­respondência do autor francês de origem argelina e, ao mes­mo tempo, batendo pesado naqueles que foram seus maiores detratores em vida: o casal Sartre & Beauvoir, como Onfray se refere ironicamente.

Ele afirma que Sartre privou da amizade de escritores colaboracionistas tanto para escapar da detenção durante a ocupação nazista na França quanto para arranjar emprego para Simone de Beauvoir na Rádio Vichy.

Um dos eixos de A Ordem Libertária (ainda sem previsão de lançamento no Brasil) é a oposição nietzschiana entre o apolíneo e o dionisíaco, que Onfray estende a vá­rios outros setores, sob o pano de fundo do conflito entre Sartre e Camus. São, respectivamente: Hegel x Kierkegaard, professor de filosofia x filósofo, vida das ideias x vida real, filósofos amigos do poder x filósofos libertários, Paris x Argélia, chuva x sol, carrasco x vítima, verbo x experiência imediata, arrogân­cia x humildade, etc.

A argumentação em torno de for­tes contrastes é a marca dos livros de Onfray, como na sua série sobre a Contra-História da Filosofia, em que busca reabilitar o hedonismo para a história do pensamento. Crítico do elitismo e da academia, foi criador da Universidade Popular de Caen, gratuita e voltada a um público bastante amplo e heterogêneo.

Mas é bom ressaltar que é enorme a simbiose entre biógrafo e biografado neste livro arrojado – muito maior, por exemplo, do que em outra obra tida co­mo referência na área – Albert Camus (Record), de Olivier Todd. Exemplo disso é uma afirmação como esta, dada na entrevista abaixo concedida à CULT: “Camus se constituía em uma reprova­ção viva e perpétua ao casal Sartre & Beauvoir”.

Em momentos assim, o louvável princípio ético de Onfray – que pretende separar o que é “lenda” e o que é “histó­ria” em Camus – parece se transformar em moralismo estrito.

CULT – O que o levou a escre­ver este livro? Ele é uma espécie de “Contra-História do Existencialismo”?

Michel Onfray – Eu queria reparar uma injustiça: a de um Camus apresen­tado (por Sartre e os sartrianos) como um “filósofo para a turma do último ano”, um pensador que apoiou o colo­nialismo na Argélia, um jornalista que filosofa nos jornais e faz jornalismo com a filosofia…

Propus então uma biografia filosó­fica, uma biografia das ideias, na qual tento mostrar que ele foi um grande filó­sofo hedonista, libertário, nietzschiano.

Trabalhando diretamente com a obra, acrescentando as correspondên­cias, realizei um gênero de desconstru­ção existencial; é essa, de fato, minha marca de fábrica e o que me permite tra­balhar numa contra-história da filosofia há pelo menos dez anos.

Ele é o grande herdeiro de Nietzsche no século 20?

Camus foi de fato quem melhor o compreendeu: enquanto Bataille, Deleuze, Foucault, Derrida se apro­priaram de um pedaço de Nietzsche (o anticristianismo, a vontade de potên­cia, o método genealógico, a destruição da metafísica), Camus toma-o em sua totalidade e integra todas essas partes.

Mas ele também acrescenta uma reflexão sobre a ontologia fatalista, a articulação entre o apolíneo europeu e o dionisíaco mediterrâneo, a ética ima­nente, o papel do filósofo-artista, a arte mais verdadeira do que a dialética, o niilismo europeu, etc.

Camus foi negligenciado, se não desprezado, por esses filósofos na mo­da durante o século 20. Os universitá­rios monomaníacos especializados em Nietzsche também acrescentaram seu desprezo ao manterem silêncio sobre a leitura que Camus fez dele.

O sr. opõe a “clareza mediterrâ­nea” ao “peso germânico, europeu”. Não há algo de utópico nessa sua vi­são? Onde se esconde o elemento apo­líneo nesses dois pensadores?

Camus não queria o apolíneo sem o dionisíaco, nem o inverso, mas a medi­da e a vida, isto é, a vida medida; dito de outra maneira, ele queria a vida que não está voltada para a morte, mas a vida que quer a vida.

O grande “sim à vida” nietzschiano é possível na beleza de Tipasa [cidade no litoral da Argélia], sob o sol medi­terrâneo, e não na Europa, à sombra das torres de vigilância e dos campos de morte nazistas e soviéticos. Camus queria que o sol mediterrâneo iluminas­se o sombrio sol europeu do niilismo.

Em seu livro, o sr. afirma querer separar a lenda – criada por Sartre – da história (“desconstruir a lenda para entrar na história de um filósofo maior do século 20”). Não há o risco de criar uma outra lenda?

Não, não estamos condenados à len­da! Não se trata de substituir a lenda escrita por Sartre a golpe de calúnias, mentiras, contraverdades, insultos, insinuações, de ataques ad hominem, por uma outra lenda que utilizaria os mesmos meios contra Sartre. Isso não seria… camusiano!

O contrário da lenda não é uma ou­tra lenda, mas a verdade! E essa verdade supõe que opomos fatos verificáveis à lenda, que opomos textos de Camus às mentiras de Sartre.

Escrevo que Sartre tinha interesse em que esquecessem o que ele havia feito durante a Segunda Guerra (ele transformou em “fuga” sua liberação do campo de concentração, obtida provavelmente através da interferên­cia do escritor colaboracionista Drieu la Rochelle; ele escreve em um jornal colaboracionista, o Comoedia, ele usa pistolão para [conseguir emprego para] Simone de Beauvoir na Radio Vichy [quando a França estava sob ocupação nazista]).

Ao mesmo tempo, destaco que Camus foi impecável (ele quis se en­gajar duas vezes em 1939, o que lhe foi negado devido a sua tuberculose, deu aulas clandestinas a crianças judias em Oran, em 1941, entrou na Resistência, publicou jornais clandestinos, escreveu as Cartas a um Amigo Alemão, dirigiu a Combat, etc.).

Com isso, não oponho uma lenda a uma outra lenda, mas verdades que mostram que existiram dois homens, um dos quais nunca deixou de insultar o outro.

Por que Sartre foi tão implacável com Camus?

Porque desde a mais tenra infância, aos 6 ou 7 anos, Sartre escolheu como projeto existencial tornar-se célebre graças à literatura. Em As Palavras, ele diz isso claramente. Os livros são para ele pretextos para um dia inscrever seu nome no dicionário e nas histórias da filosofia e da literatura. Ele imaginava a imortalidade através dos livros.

Já para Camus, o projeto existencial não é de modo nenhum assim: ele deseja levar as palavras das pessoas humildes a um mundo que as esqueceu, quer defender a liberdade e a dignidade, a humanidade e a igualdade. Para ele, os livros servem para isso.

Sartre era um oportunista inteiramente voltado a esse projeto pessoal, e Simone de Beauvoir era a escriba da lenda necessária para a realização desse projeto. Camus queria devolver aquilo que havia recebido de seu professor de filosofia [Jean Grenier, com quem mante­ve correspondência]: a paixão pelos livros que libertam.

De resto, é preciso lembrar do com­portamento lamentável de Sartre duran­te a guerra e do comportamento exem­plar de Camus na mesma época. Por seu comportamento, Camus se constituía em uma reprovação viva e perpétua ao casal Sartre & Beauvoir.

Como era sua vida cotidiana nessa Paris para ele tão próxima do inferno, como o sr. diz?

Ele primeiro descobriu Paris – o clima, a umidade, o frio, o Sena, que no inverno carregava blocos de gelo.

Depois, abriu espaço em meio ao mundinho dos intelectuais de Saint- Germain-des-Prés, Sartre & Beauvoir, Bataille & Lacan, Lévi-Strauss & Leiris, entre outros. Percebeu muito bem como esse mundinho era apartado do mundo, percebeu a alegria intelectual mundana da embriaguez das palavras, do verbo por si mesmo, da arte pela arte.

Camus aprendeu o francês como língua estrangeira; a cultura não foi para ele, que não provinha da burguesia, um dado familiar; foi preciso adquiri-la a du­ras penas. A partir daí, leva a sério a lín­gua francesa e os livros, não brinca com as palavras, não utiliza as ideias de maneira leviana, apenas pela beleza do gesto.

É essa a razão por que, em O Homem Revoltado, ele luta contra todos aqueles que se servem das palavras com levian­dade – Sade & Lautréamont, Rimbaud & Baudelaire, Breton & os surrealistas.

Rapidamente se distancia desse mundinho, que, desde então, passa a de­votar-lhe um ódio inominável. A com­pra da casa de Lourmarin, na Provença, foi para ele a ocasião de dar as costas a Paris e aos parisienses para ficar de fren­te para o Mediterrâneo e aproximar-se mental e espiritualmente de Tipasa.

“Camus não se esquece de onde vem”. Por que a imagem da Argélia e da pobreza permaneceram tão impor­tantes para ele?

Porque ele era de uma natureza fiel, que não esquece a pobreza, a miséria, embora pudesse ter virado as costas a essa infância e assinar o catecismo das pessoas que detinham o poder. Camus não se esquece de que, se deixou de ter problemas de dinheiro e ficou célebre, conhecido e reconhecido, amado e ce­lebrado, a maior parte das pessoas vivia na pobreza e no anonimato. Ele esco­lheu o campo dos sem voz.

A descoberta da tuberculose mo­dificou sua visão de mundo?

Sim. Não é possível alguém desco­brir aos 17 anos que terá uma vida cur­ta e decadente sem encarar de maneira particular sua presença no mundo, sem se dar conta de sua natureza trágica e absurda. Não podemos entender O Mito de Sísifo sem colocar em pers­pectiva essa informação.

O sr. atribui à “preguiça dos jorna­listas” a compreensão equivocada de Camus como um existencialista – “não se leem as obras, leem-se apenas os co­mentários sobre as obras publicados na imprensa, depois elas são julgadas a partir desse trabalho de desinfor­mação”. Ele sempre teve em tão baixa conta a imagem dos jornalistas?

Camus levou a um nível muito al­to o jornalismo, que pode ser o melhor dos mundos quando é animado pela verdade e a liberdade, mas a pior das coisas quando se torna instrumento de propaganda.

Ora, um jornal é uma empresa que deve ser rentável: o jornal, portanto, preocupa-se menos com a verdade do que com seus acionistas. Camus compreendeu isso muito rapidamente.

Após a Liberação, ele escreveu pági­na antológicas sobre o que deveria ser a imprensa – isto é, livre, inteligente, in­dependente, preocupada com a verdade e a justiça, checando suas fontes. Ele foi um grande jornalista.

O sr. lembra a acolhida hostil que as obras de Camus receberam na im­prensa francesa. Sente-se solidário a ele quanto à recepção de suas próprias obras pela mídia francesa?

Não, embora a imprensa escrita francesa não goste muito de mim.

Mas a televisão, onde o ringue é a lei, me convida frequentemente: lá tenho liberdade para restaurar as contraverda­des da imprensa escrita e propor minhas teses sem que elas sejam deformadas ou caricaturizadas (de modo a poderem ser mais atacadas).

Além disso, em um debate ao vivo, são raros os jornalistas que, em minha presen­ça, ousam me chamar de nazista, pedófilo enrustido, antissemita e outras qualidades que lançam contra mim no papel.

Camus tinha contra si uma grande parte da impressa escrita, mas não tinha a televisão para se defender.

O sr. também critica os “batalhões freudianos”, mas, ao mesmo tempo, diz que Camus era fixado nas figu­ras do pai ausente e, sobretudo, da mãe presente (“segundo ele mesmo  admite, ama a mãe mais que tudo”). O sr. não está usando o instrumental da psicanálise quando diz isso?

De fato, a psicanálise contaminou tudo! Mas a ideia de que se sofre com a morte do pai e o mutismo da mãe não precisa de Freud para ser verdade!

Freud afirma a universalidade do complexo de Édipo; mas, se você quer realmente seguir a psicanálise, seria pre­ciso afirmar que Camus queria matar seu pai e deitar-se com sua mãe. E será muito difícil encontrar em minha obra uma hipótese como essa!

Pode-se amar a mãe, como foi o caso de Camus, sem ter vontade de deitar-se com ela. E Camus, órfão de pai desde os oito anos, jamais teve vontade de matar um pai morto.

O sr. ressalta, como característica ética de Camus, a relação íntima entre vida e pensamento. Ele de fato vivia se­gundo esses princípios?

Sim, foi impecável sob esse aspecto: viveu seu pensamento e pensou sua vida. Jamais escreveu uma coisa e viveu o seu contrário. Jamais ensinou virtudes que não tenha praticado. Não estigmatizou

nos outros vícios que teriam sido os seus.

A argumentação de seu livro ca­minha o tempo todo sobre oposições claras. Não receia ter sido demasiado esquemático?

Sempre desconfio daqueles que du­vidam da clareza por a considerarem esquemática. Preferem a obscuridade por acharem que ela dá conta melhor da

complexidade do real… Se há algum erro que eu deva assumir, prefiro pecar pelo es­quematismo do que pelo obscurantismo.

Seu estilo é marcado pela recor­rência às acumulações e aos aforismos. Isso não é demasiado retórico?

Mas se for preciso renunciar à retó­rica na demonstração filosófica, o que resta então? Apenas a afirmação gratui­ta, o capricho pessoal transformado em verdade universal! A retórica é a arte da persuasão. Você conhece alguém filóso­fo que escreva para não persuadir?

“Camus ama o romance de Cervantes”, o sr. diz. Qual a impor­tância do Quixote para ele?

Camus ama o romantismo desespe­rado do homem que sabe que sua causa é perdida, mas que luta por ela porque é justa. É preciso haver homens que deem a impressão de lutarem contra moinhos: lutar contra os “gulags” em uma época em que quase a totalidade da intelligent­sia está contaminada pelo vírus marxis­ta-leninista é manifestar um quixotismo à altura de Camus.

Ele amava Cervantes porque tinha sangue espanhol em suas veias, por meio de sua avó. Também tinha em alta conta os anarquistas e os republicanos espa­nhóis, em seus combates antifascistas.

Quais leituras mais influenciaram sua visão de mundo?

Acredito que tenham sido suas lei­turas mais precoces: Les Croix de Bois, de Dorgelès, mais tarde La Douleur, de André de Richaud, quando tinha 16 ou 17 anos, e em seguida Les Îles, de Jean Grenier; depois, bem mais tarde, Tolstói e Dostoiévski.

Em sua opinião, qual é sua obra mais importante? Em qual gênero se exprime melhor?

Não dá para escolher, tamanha a quantidade de obras-primas que pro­duziu em cada um dos gêneros ro­mance, filosofia, teatro ou ensaio. Mas, se for para jogar o jogo, responderia que é O Primeiro Homem – e que ele está ali inteiro, apesar de ser um romance inacabado.

Fonte/crédito: Revista Cult » “Nietzsche agiu como um álcool forte sobre Camus”.

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