Elvis não morreu. Por Márcia Tiburi

Revista Cult

por MARCIA TIBURI

Elvis Presley

Elvis Presley

A frase “Elvis não morreu” não é apenas o bordão repetido desde a morte do Rei do Rock em 1977. Ela é defendida por grupos e indivíduos que parecem realmente acreditar que Elvis Presley envelheceu e permanece vivo até hoje, escondido em algum lugar. Sempre há quem pregue tê-lo visto aqui ou acolá e, por respeito aos limites da razão, não há quem se ocupe em provar o contrário.

A crença de que Elvis não morreu tem algo a nos ensinar. Ela manifesta um estado do desejo das massas que surge sempre em relação a um ídolo. O fato de que Elvis seja “visto” por aí surge, de um lado, como uma espécie de prova visual, a prova do testemunho. O testemunho nos obriga a julgar se é verdade ou loucura, alucinação, engano o que teria sido visto. Trata-se daquele tipo de anfibolia em relação a qual não se pode decidir. De qualquer modo, para quem prega que “Elvis não morreu”, o que está em jogo é a verdade. E a verdade é um calibrador do desejo. O desejo de que o rei esteja vivo.

A verdade descartada
É neste sentido que podemos avaliar a questão surgida nos últimos tempos, desde que a técnica da holografia praticada por uma empresa como a famosa, e agora falida, Digital Domain, poderia cumprir a promessa de “ressuscitar” o Rei do Rock para os seus milhões de fãs. O que a empresa de fato prometia era administrar a alucinação coletiva no contexto de um novo estado do desejo das massas. A existência de um show com a holografia do Rei do Rock punha em cena que, morto ou não, Elvis seria exposto como realidade para seus fãs, que pagariam caro para vê-lo. Se antes o desejo de que esteja vivo provocava a lenda de que fora visto por uns e outros, agora ele seria visto por todos que   pudessem pagar para ter acesso ao seu fantasma tecnologicamente produzido.

O que está em jogo é evidente. Com o surgimento da holografia em nossos tempos hipertecnológicos e visuais, a prova visual assume outra dimensão. Ela é completamente oposta ao julgamento sobre algo que ainda poderíamos compreender como verdade. No contexto da holografia, já não importa se Elvis está vivo ou morto. Também não importa se é possível chegar a este tipo de conhecimento. O desejo de que Elvis esteja vivo é substituído pela oportunidade de vê-lo por meio desta nova tecnologia da visão desenvolvida em nossa época.

À nova modalidade de fãs que surge com a holografia (e com ela um outro tipo de subjetividade) basta que Elvis pareça real.

A questão da visão continua sendo a mesma. Para os adeptos do “Elvis não morreu” ele estaria vivo porque poderíamos vê-lo por aí de vez em quando. Depois, morto, poderíamos vê-lo holograficamente. A verdade foi descartada em nome do visual. Mas isso quer dizer que nos contentamos com a fantasia desde que ela seja uma promessa de realidade. Isso não quer dizer, no entanto, que se deseja a própria realidade. A satisfação é sonhar com ela.

Em Rumos da Cultura da Música – Negócios, Estéticas, Linguagens e Audibilidades, um livro organizado pela professora Simone Pereira de Sá (ed. Sulina), há um artigo intitulado “Mortitude: Tecnologias do Intermundo”, escrito por Stanyek e Piekut. O que eles chamam de “mortitude” (deadness) diz respeito a uma curiosa produtividade dos mortos na indústria da música. Na ascensão do necromercado e do necromarketing, há bastante tempo artistas estão valendo mais mortos do que vivos. Elvis, neste contexto da mortitude, passou de Rei do Rock a Rei dos Mortos. Sua imagem antes sagrada foi reduzida a mera mercadoria e, como tal, profanada no logro comum que o espetáculo, o império do capital feito imagem, faz com seus deuses impotentes.

Fonte/crédito: Revista Cult » Elvis não morreu.

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