ARQUEOLOGIA DO MEDO: Satã e a Morte no Cenário Medieval. Por Carlos Barros

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ARQUEOLOGIA DO MEDO: Satã e a Morte no Cenário Medieval

Por Carlos Barros

É arriscado discorrer sobre a concepção dualista no período medievo sem lançar, ao mesmo tempo, nosso olhar sobre a questão da Morte e sua importância na esfera do cristianismo. Debruçar-nos sobre a Morte nos ajuda compreender a ideia do Diabo, do Inferno, ou mesmo da crença em fantasmas como sendo figuras inscritas no cerne de um discurso teológico que visa produzir o medo e a sujeição como efeitos de poder.

No medievo ocidental, o poder eclesiástico busca impor e coordenar o medo da morte em proveito da Santa Igreja, na medida em que a ameaça de morte não deixa de ser um ingrediente importante na manutenção do controle sobre os indivíduos. Portanto, o rebanho é advertido a se manter dócil e fiel, a continuar nas veredas do Senhor até o grande dia do Juízo Final. E no que tange às ovelhas desgarradas? Elas devem retornar rapidamente para o seio de Abraão, caso contrário, podem acabar ardendo nas fogueiras da Santa Igreja e no fogo do inferno.

Todavia, a Morte, em determinado momento do período medieval não vai parecer tão aterrorizante, pois, em certa medida, ela será “domesticada”.[1] O homem medievo, especialmente na França, desenvolve em seu dia-a-dia uma conduta de familiaridade no que se refere aos mortos e a tudo que possa estar relacionado à Morte. As práticas tradicionais de convivência com os defuntos, certamente, estão bem longe das atitudes do homem moderno. Os indivíduos da primeira Idade Média, por exemplo, almejam serem enterrados no interior das igrejas, pois os templos teriam sido construídos sobre antigas relíquias ou mesmo sobre os restos mortais dos santos mártires cristãos. Desse modo, acredita-se que essa prática fúnebre, oenterro ad sanctos, possa ser uma garantia da salvação eterna.

O cemitério, lugar dos defuntos pobres, também serve como exemplo dessa íntima convivência com os mortos.[2] A relação de proximidade dos vivos com os defuntos acaba transformando o espaço cemiterial num lugar bastante povoado, mesmo sem a completa conivência da Igreja. O cemitério medieval está distante de ser um local sombrio e silencioso. Ao contrário, é também o ambiente dos vivos, pois, normalmente, o cemitério se converte em espaço para debates, passeios, encontros amorosos, vendas e trocas de mercadorias[3].

O poder eclesiástico mostra-se, até certo ponto, complacente com a proximidade entre vivos e mortos, mas não deixa de enfatizar que, para os desobedientes, a morte pode significar o caminho para a danação eterna. Porém, a Igreja tenta mostrar justiça para com seu rebanho ao conceder uma misericordiosa saída monetária àquele que pecar. Ou seja, por meio das indulgências é possível escapar, durante certo tempo, do risco de cair nos braços de Satã.

Convém lembrarmos que os textos bíblicos concedem um lugar de relevo à Morte. Na epístola aos Romanos (5,12), por exemplo, está escrito: “assim como o pecado entrou no mundo através de um só homem e com o pecado a morte, assim também a morte atingiu todos os homens, porque todos pecaram…”[4] Para santo Agostinho, “é por isso que os cristãos, fiéis e verazes custódios da fé católica, afirmam que a morte do corpo não infligida por lei da natureza, porquanto Deus não deu morte alguma ao homem, mas como legítimo castigo do pecado…”[5] Vale salientar que o discurso metafísico do Novo Testamento coloca a Morte numa perspectiva menos vinculada ao corpóreo, ou seja, a morte física, o aniquilamento do corpo deixa de ser o pior dos castigos. Daí o discurso sobre a ressurreição do Messias: o filho de Deus morre crucificado pelos pecados da humanidade, mas ressuscita dos mortos no terceiro dia, obtendo, semelhante a Osíris e Dionísio, vitória sobre a própria morte.

Os homens letrados da Igreja instituem, a partir dessa interpretação, um discurso pedagógico-religioso: para todo aquele que crer, a morte é apenas uma passagem à vida eterna no paraíso. Para os salvos não há motivo de medo, pois, assim como o Cristo ressuscitou, todo aquele que crer e seguir os dogmas da Santa Igreja será salvo, irá ressurgir com um corpo novo e incorruptível. Mas àqueles que negarem ao Messias como sendo o filho de Deus e único Salvador, o discurso é enfático: a sentença é a morte da alma, a morte eterna, a morte que, de fato, deve ser temida por toda a humanidade. É oportuno ressaltar que essa noção de alma, ou melhor, a dicotomia entre corpo e alma encontra-se, de certa forma, arraigada na mentalidade medieval, especialmente a partir das interpretações de Agostinho, pois como ele mesmo escreve: “não é de admirar, tratando-se do corpo: porque o espírito é uma coisa e o corpo é outra…”[6]

E o que dizer do medo de fantasmas? Apesar de o discurso cristão propagar a ideia de uma separação entre corpo e alma na hora da morte, e sua imediata partida para o universo espiritual, muitos continuam tendo a convicção de que os espectros dos mortos retornam a fim de assombrar ou mesmo orientar os vivos.[7] A percepção assustadora do duplo encontra-se, em certa medida, enraizada no mundo medievo.

Os espectros dos defuntos medievais provocam medo em seus contemporâneos. Mesmo que boa parte dos ritos fúnebres seja realizada conforme as regras da Igreja, mesmo que os familiares e as carpideiras tenham pranteado sobre o morto, nada pode garantir que seu fantasma possa voltar e afligir os sobreviventes. De qualquer forma, a poder eclesiástico não se contrapõe, ao contrário, busca administrar essa crença em fantasmas[8] O medo dos fantasmas, de certa forma, não deixa de estar conectado ao medo da noite. Para o homem comum, ou até mesmo para alguns homens da Igreja desse período, a noite pode significar o momento mais adequado para a manifestação do sobrenatural.

Convém não esquecermos que, na antiga Mesopotâmia, Lilith era a deusa maléfica que vagava pelas noites, e que Satã emerge como o Príncipe das Trevas, o senhor da escuridão. A narrativa bíblica destaca em vários trechos a face sombria da noite. De um modo geral, a luz aparece na Bíblia como símbolo de vida e as trevas como símbolo do mal e da morte. Na primeira epístola aos Tessalonicenses (5,5-6), está escrito que aqueles que estão em Cristo não estão em trevas, são filhos do dia. Porém aqueles que não se convertem são filhos da noite e das trevas.[9]

Em suma, a noite foi apenas um dos elementos simbólicos que formaram o cenário político-religioso medievo. O discurso medievo em torno da figura de Satã, da Morte e dos Fantasmas, gradativamente, alcançava seu objetivo: Controle da ordem social e do exercício do poder sobre os indivíduos e seus corpos.

Por Carlos Barros

Referências

[1] ARIÈS, Philippe. O homem perante a morte. Tradução de Ana Rabaça. Portugal: Publicações Europa-América, 1977. v. 1. p. 91.

[2] Ver SILVA, José Carlos Barros. Na hora de nossa morte: as práticas governamentais de assistência ao morto. Dissertação (Mestrado em Serviço Social). Universidade Federal da Paraíba – UFPB. João Pessoa, 1996. 210 p. p. 16-17.

[3] Ver ARIÈS, Philippe. O homem perante a morte. v. 1. p. 42.

[4] Ver BÍBLIA. Português. Bíblia sagrada: edição pastoral. p.1446.

[5] Ver AGOSTINHO, Santo. A cidade de deus. p. 110.

[6] Ver AGOSTINHO, Santo. Confissões. p. 181.

[7] Ver DELUMEAU, Jean. História do medo no ocidente: 1300 – 1800. p. 84.

[8] Ver DELUMEAU, Jean. O pecado e o medo: a culpabilização no ocidente (séculos 13-18). p. 73.

[9] Ver BÍBLIA. Português. Bíblia sagrada: edição pastoral. p. 15.


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