COMENDO O OUTRO: os canibais modernos. Por Carlos Barros

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COMENDO O OUTRO: os canibais modernos

Por Carlos Barros

Todos nós ficamos estupefatos com a notícia estampada nos principais meios de comunicação: duas mulheres e um homem mataram e comeram a carne das vítimas. De acordo com o UOL-noticiasA Polícia Civil de Pernambuco informou que uma das três pessoas acusadas de matar e praticar canibalismo em Garanhuns (230 km do Recife) recheava empadas com carne humana e as vendia nas ruas da cidade…”. Ora, já faz parte do nosso cotidiano ler, quase que diariamente, sobre assassinatos e crimes ditos hediondos, mas este caso parece surpreender e incomodar um pouco o nosso imaginário.

 

Não se trata apenas de um “simples” assassinato, são assassinos comedores de carne humana. Isto mesmo: canibais em plena “pós-modernidade”, em pleno século 21, canibalismo em plena era virtual. Enquanto nós, homens e mulheres civilizados, estávamos em nossas Redes Sociais, os “canibais” eram postados, “linkados” e compartilhados pela Internet.

 

Como pode alguém comer carne humana? Se quiserem matar e esquartejar, vá lá, tudo bem, já estamos acostumados com esta banalização da violência. Mas comer o outro é escandaloso para nosso paladar e fino olhar civilizado. Comer carne de galinha, de vaca, de peixes e animais de outras espécies não faz de nós uma aberração. Ensinaram-nos que somos dominantes na cadeia alimentar. Portanto, os animais irracionais estão aí para isso: serem digeridos pelos nossos estômagos modernos.

 

Digno de um filme de terror de baixo custo, colocar carne humana em coxinhas, empadas e salgadinhos tornou o caso inusitado, especialmente para a polícia nordestina. Sabemos que o ritual de comer carne humana não é uma novidade. Foi uma prática cultural exercida por alguns povos antigos e por certas tribos indígenas com o principal objetivo de engolir a força do inimigo ou mesmo uma forma de ingerir o poder dos mais velhos. Mas, vale lembrar, essa questão sempre foi um prato cheio e cardápio exclusivo de historiadores e antropólogos. Esses grandes especialistas que sabem como devorar rituais e costumes.

 

Porém, não tenho dúvida que este caso se transformará num delicioso banquete para explicações psicanalíticas e psicológicas, e também um rico ingrediente para os comedores de verdades científicas. Os especialistas da mente e dos bons costumes, enquanto saboreiam um delicioso caviar, terão tempo para enquadrar estas aberrações humanas em algum paradigma teórico e normativo. Mas eles não estão sozinhos nesta gloriosa folia de explicações e hipóteses. Os sacerdotes, enquanto comem o corpo de Cristo e bebem seu sangue, estarão de joelhos rezando por aquelas almas pecadoras que não sabem o que fazem, ou não souberam como fazer coxinhas e salgadinhos.

 

Alguém disse certa vez: “O Homem é o Lobo do Homem”. Agora teremos que reformular: “O Homem é o comedor do Homem”. E se dermos asas às nossas metáforas e simbologias? Poderíamos levantar algumas questões: Não devoramos o outro todos os dias? Não comemos o estranho e o diferente? Não devoramos o respeito ao corpo da Mulher? Não somos canibais da tolerância contra negros e homoafetivos? Não seríamos também antropófagos de uma nova ordem econômica e social? Não desejamos devorar a liberdade e a consciência do outro? E, se for assim, mesmo depois de toda esta simbólica e gulosa comilança, não suportamos tamanha antropofagia. Vomitamos depois uma enorme quantidade de valores morais e verdades que azedaram dentro de nós. Eis, portanto, as perguntas, ou melhor, o pão nosso de cada dia. Talvez o maior empecilho neste grande banquete moderno seja, simplesmente, porque ainda não sabermos exatamente a receita de como rechear coxinhas e salgadinhos com a essência do outro.

Por Carlos Barros


Saberes e Olhares

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