ENIGMAS DO FEMININO. Por Carlos Barros

Duas banhistas - William-Adolphe Bouguereau (1825)

ENIGMAS DO FEMININO

Por Carlos Barros

Elas estão no princípio do mundo. Um tímido Adão perante a ousada Eva. Nua e desobediente. Comeu o fruto proibido. É expulsa do paraíso. Para os intérpretes da cristandade a mãe de todas as mulheres pecou. O corpo feminino paga o alto preço da condenação: não gozarás! Gritam os juízes da moral em nome de Deus. Os doutores da Lei interpretam: O primeiro elemento feminino é responsável pela queda do homem. Eva não resistiu à tentação da insidiosa e fálica Serpente.

Elas emergem no Monte Olimpo e no Antigo Egito. Deusas entre deuses. Afrodite espalha seu aroma sobre gregos e troianos apaixonados. A doce Ísis e sua paixão por Osíris. As lágrimas de saudade do marido-deus transbordam o rio Nilo.

Elas estão na terra e no mar. Soberanas sob o sol do deserto. Poderes de uma rainha sedutora. Cleópatra ofertando o cálice do prazer aos amantes perdidos de desejo. Nos mares alimentam fantasias e orgias de marujos solitários. Sedutoras sereias com seus cânticos libidinosos.

Elas estão nas florestas amando e dançando. A natureza e a vida observam. A mãe-terra treme de alegria. O encanto de uma época encantada. Bruxas! Gritam os juízes medievais. São torturadas. Seus carrascos gozam com a nudez feminina. Os gemidos de dor excitam os acusadores. São lançadas nas fogueiras da Santa Inquisição. A sexualidade reprimida do masculino ante o feminino queimando. O fogo da carne não consegue ser dissipado pelas chamas.

O elemento feminino resiste, sobrevive. Renasce das cinzas! As mulheres continuam entidades poderosas num mundo desencantado. Bruxas modernas na solidez de uma modernidade sem magia. Transitando por todas as áreas do saber. Dialogam no campo científico. Abraçam ciências ocultas e reveladoras das suas possibilidades. Em busca do tempo perdido, do orgasmo reprimido. Libertam-se. Enfrentam a moral arcaica dos machos infantilizados. As deusas-bruxas da nova ordem defendem seu lugar no mundo.

Sedutoras, ciumentas, alegres, tristonhas, apaixonadas, sonhadoras, passivas, dominadoras, misteriosas. Misteriosamente coerentes e contraditórias. Prostitutas que amam. Santas que abençoam. Ninfetas que clamam por sexo selvagem. O masculino racionalizado tenta decifrar, esquadrinhar, explicar. Não consegue! O feminino escapa aos paradigmas de uma cultura masculinizada.

Homens e deuses de todas as nações dobram seus joelhos perante os enigmas do feminino. A lua cheia brilha de gozo e mel. As estrelas resplandecem sobre a potência das fêmeas. Potência de Vida. Feminina Vida.

Por Carlos Barros


Saberes e Olhares

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12 Respostas »

  1. Sem palavras! Muito bom, muito bom!!! A verdadeira rendição do homem ao feminino!!!

  2. Lindo texto. Realmente esse controle do feminino vai para além, ultrapassando os gêneros. Que as digam as “Travestis e Transexuais” que ao se reconhecerem no feminino passam a serem introjetadas de duas formas de repressão, a negação do masculino e toda essa carga de repressão citada para o feminino. Muito bom!

    • Olá Ednaldo. Sua leitura e interpretação do texto me deixa bastante feliz. Seu comentário toca nas questões de gênero, o que considero uma reflexão de fundamental importância em nossos dias. Obrigado e seja sempre bem-vindo! Forte abraço! Carlos Barros

  3. É o enigma do feminino que de certa forma compactua com a eternidade do humano… da prevalência do sensitivo, intuitivo e da razão.Parabéns pelo texto. Abs. Gisele

    • Olá Gisele. Seu comentário revela uma excelente leitura do meu texto. Talvez seja esta a razão do Enigma do feminino, a relação com a eternidade do humano, como você bem descreve. Enigma que, a meu ver, torna o masculino amedrontado e impotente. Fico muito feliz com sua apreciação. Seja sempre bem-vinda! Forte abraço! Carlos Barros.

  4. Horrível esse texto. Extremamente preconceituso e “clichê”, senso comum. Que tal agora explicar porque a mulher é a rainha do lar?

    • Olá Raquel. Antes de tudo, agradeço sua visita e participação no meu site. Todas as opiniões e diferenças devem ser respeitadas. Discordo apenas quando afirma que estou sendo preconceituoso. Leia o texto com atenção. Trata-se de um texto poético. Não visa ser uma análise sociológica, ou mesmo uma visão antropológica acerca da questão de gênero, embora acredite que, até certo ponto, tudo esteja entrelaçado. Não afirmo que a mulher “é a rainha do lar”. Refiro-me, fundamentalmente, aos enigmas do feminino. Forte abraço e seja bem-vinda! Carlos Barros

  5. Carlos quero parabenizá-lo pela delicadeza de seu texto, pela poesia de suas palavras e pela sutileza das intenções implícitas, Vc é um autor fantástico ao qual desejo muito sucesso.

    • Oi Alice. Fico feliz com suas palavras que me deixam ainda mais motivado. Como sempre enfatizo aos leitores, meu site não objetiva fins lucrativos. Meu desejo é, sobretudo, continuar escrevendo e compartilhando com você e todos os nossos colegas visitantes. Obrigado e continue participando com seus comentários! Forte abraço! Carlos Barros

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