TRANCELIM. Por Marilia Arnaud

Marilia Arnaud

Por Marilia Arnaud

Para Yanko Cyrillo

(Recriação do conto SARAPALHA, de Guimarães Rosa)

Na minha mocidade, isso aqui era lugar sem risco no mapa, de gente simples e de vergonha, a vida no vagar do encadeado dos dias e janeiros, no tempo espichado, que não se tinha saber de horas, não, senhor, era um acordar com a passarinhada pousada na barra emplumada da manhã, atiçar o fogo dormido, tomar um café preto com uma broa de pão e rumar pro cabo da enxada ou pro cercado de novilhas e vacas de leite. No meio do dia, com o sol tirando faísca de pedra, se fazia um deforete pro repasto do feijão de corda, farinha e jabá, e de tardezinha se arribava pra casa, na canseira boa da terra arada, do gado pascentado, com as graças de Deus. A feira era em dia de sábado, missa, de quinzena em quinzena, e novena no mês de maio, quando as donas botavam os melhores trajes com o fito de engraçar os homens solteiros. Toavam umas ave-marias e uns améns que não alcançavam os altos do céu, a rogação se perdendo pelo meio do caminho, o pensamento pecador atolado nos escuros do depois, que pra essas coisas mulher já nasce sabendo. Perdi a conta de quantas moças donzelas foram desfloradas nessas noites de ladainhas.

Vidinha mansa, sim, senhor. O que se esperava? Chuvas, pasto rico, gado gordo, boa colheita. Deus acudia a todos, até que o tinhoso, não podendo vir, mandou o secretário, o tal do mosquito maleitoso. Uma praga! O bexiguento era matador feito jararacuçu. Pior, porque nem reza de benzedeiro desassombrado botou arranjo no desmantelo do febrão queimando os bofes e do cabra puxando o ar, e suando e estrebuchando, até estuporar e partir dessa pras profundas. E não se tinha proveito no lutar contra os malditos, pois no que se ia matando uns, os outros iam enfunando de sustância e topete. Mas não foi por falta de aviso, não. O Doutor veio da capital, e no que viu o estrupício, acautelou, se não saírem daqui, vai morrer todo mundo, não vai sobrar vivalma pra contar a história. Escapei por destino, ou por sangue ruim, de pestilento encostar e se afrouxar no cheiro. 

Mas o senhor não quer saber do mosquito, não. O senhor quer saber é da mulher do finado Ribeiro, homem de justeza e boa paz, que Deus o tenha. Ah! Foi tanto falatório, desde que ela deu nas canelas com o boiadeiro, e até que não restassem mais que uns quinze, ou dezesseis viventes escapados de entregar os ossos à sepultura, muito se disse e se inventou sobre aquela noite de lua cheia e as que vieram antes, porque não havia nada de sucedido por aqui que não se transformasse numa boa história, sendo da natureza da gente desse lugar ouvir, assuntar, contar, recontar, e saber de menos não era de consideração, não, senhor, porque a história pra ser chocalhada não carece de verdades nem de certezas, e para arrumar as palavras na boca de um povo basta um ajunte de gente e um tantozinho de imaginação.

O moço? Ah! Esse tinha a graça de Roseano. Era bem-apessoado, assim, graúdo, de cabelo e barba arruivascados, uma enfiada de dentes brancos na bocona risonha, que pra ele num tinha tempo de seca, não. Meio boiadeiro, meio cigano. Veio de lonjura muita, léguas e léguas pra cima das cabeceiras do Rio Pará, lá da Iporanga, tangendo um magote de reses, que esse era o seu ofício. Chegou para um pernoite, empós fazer a entrega do gado numa fazenda da redondeza, e acabou arranchando os costados por aqui, pra desenfastiar das andanças. Ficou na vadiação. Lá na venda de Pedro Antunes, tomava uns tragos e proseava, nunca se fadigando de contar umas patranhadas de suas errâncias pelo norte e pelo sul. Também pegou o costume de arriscar a sorte num carteado comigo e Zé Lampeiro, e à noite ainda aprontava umas malinagens de azoinar as mulheres-damas da rua do Rio, tirando uns versos de pé-quebrado e umas notas desafinadas numa rabeca velha.

Da vez primeira que Roseano botou os olhos na mulher do finado Ribeiro, ele estava escarranchado aqui mesmo, num dos bancos dessa praça, carteando. Era dia de feira. Os tabuleiros se espalhavam desde o largo da igreja até o cruzeiro no fim da rua, numa ruma de bichos de pena, vivos e mortos, mantas de carne seca, sacas de farinha, arroz e feijão, tranças de alho, cachos de banana, ovos, abóboras, urupembas e balaios cheinhos de coisa de comer e de beber, de limpar e de enfeitar, e também de matar e tocaiar, parabéluns, lazarinas, bodoques, alçapões, e se ouvia as pessoas nos seus alegres pregões cantados, que aquilo de feira tinha demais parecença com festa. Pois, foi. O boiadeiro carteava nessas justas horas, as mãos cheias de damas, reis, valetes e ases, e dava umas risadas de estrondar, um olho nas cartas, outro nas paragens do mundo, com mais demora naquelas que lhe eram de serventia, os animais e as donas, que dessas se dizia conhecedor de beira a fundo, das suas belezas e mumunhas.

Largou os olhos das cartas e deu com a dita-cuja ali, nem perto nem longe, plantada em frente a um tabuleiro de trancelins. Eu assisti, pasmou-se, sim, senhor. Oh! Bicho femeeiro! Parecia que a mulher era visagem, somente o peito subindo e descendo, e as ventas se arreganhando, feito touro no aceiro da vaca. Por essas coisas que ninguém nunca há de poder explicar, como se ouvisse um chamado, a mulher do finado Ribeiro torceu-se todinha, porque até àquelas horas o boiadeiro só entrevira uma banda da cara e o traseiro dela, e o reimão foi logo fazendo pose, e atentando, e se escancarando naquele riso de nenhum dente falso ou podre. Ela abaixou a vista, mordeu os beiços, tangeu uma varejeira que não existia e puxou os cabelos escorridos para frente, no resguardo das orelhas, como se as orelhas fossem tetas, sem atinar com o prumo da cabeça, nem do restante do corpo. No supetão, Roseano se pôs de pé, assungou as calças e fez tenção de ir até onde ela passarinhava, mas eu segurei o cabra pelo braço e lhe disse umas palavrinhas, que ele tirasse graça, não, que tomasse tenência e botasse peia nos instintos, pra num acabar com o couro esfolado! Homem viajador, de cidades, estâncias, brenhas, brejos e grotões de serras, o boiadeiro devia de saber que, por aqui, tanto as pessoas, como a terra, as moradas, os animais, os pés de planta e até as coisas mais apoucadas eram pertences de algum alguém, e se outro alguém se arvorava de tirar o que já tinha dono corria o risco de ficar sem a vida. Ainda mais em se tratando de mulher. Por que, o senhor me responda, o que resta a um homem de respeito, se lhe carregam o que é seu, o de mais valia, a própria mulher? Quem vai continuar tirando o chapéu pra um homem desse? Honra não tem paga, não, senhor!

O boiadeiro? Não se arreliou, não. Balançou a cabeça e cavocou o chão com a ponta da bota. Bicho cabeçudo, e como ele mesmo dizia, curado de cobra peçonhenta, não desistia fácil, não. O inferno era grande e eterno, haveria de chegar o tempo e de se arranjar lugar para tudo que era condenado. Espiou de novo e ela ainda estava lá, empinada nos mocotós taludos de vaca taurina, os olhos de um verdume limoso se espremendo na vigia, era de qualquer um dar fé, enfraquentada da vontade de ir adiante, a jeito de mulher que não tem dono, ou dele já se desgarrou, desencabrestada, sim, senhor.

Dois quartos de hora antes da ave-maria, quando o sol ia se escapando nos alaranjados por trás dessas serras, Roseano botou os pés na estrada atrás da mulher do finado Ribeiro, que voltava da feira com os mantimentos de guarnecer a casa, e fique o senhor sabendo que isso e todo o mais que vou lhe contar não vi nem escutei, mas pode se fiar no que lhe digo, é tudo sucedido de vera, pois foi ele, o boiadeiro Roseano, quem me falou. E me falou bem assim, que Deus decerto não haveria de perdoar o cristão que deixasse uma mulher formosa como aquela estralando de vontade, sem um adjutório pra sossegar os flancos, pois o marido, esse bem que devia ser um caburé, um mocho bom de uma canga.

Num pedaço que descamba num valo sem cultivo, sentindo o resfolego do homem nas suas costas, ela encurtou o trote e, no se virar, deu com o boiadeiro. “Qual a sua graça, dona?”, perguntou, as gavinhas dos olhos se agarrando e se afundando nela. Empaleceu, abaixou a cabeça e só teve tempo de bodejar um “Luisa”. No que o boiadeiro segurou as mãos da infeliz, ela foi derreando para um lado e amunhecando, sem tino nem sustento nas pernas. Roseano carregou nos braços a mulher do finado Ribeiro pra trás de um moirão de cerca e esperou. Se usasse de urgência e cobrisse a cabrita ali mesmo, no abuso, como era do seu querer, não havia de suceder outra vez. E ainda ia ter de bater em retirada e se embrenhar no oco dos matos pra não perder os quibas. Ou, de menos, pra não levar uma bala no toutiço. Não, senhor. Não podia facilitar. Se tivesse de morrer, que fosse de morte morrida, de sezão ou outra moléstia mais daninha. E no demais, sem esporas e sem cabresto, no entendimento, o negócio se dava à rédea solta e o esquipar sempre era de mais gozo. De maneiras que, já desapeado do intento, sem afobação, foi assoprando a cara dela e repetindo o nome, Luisa, Luisa, Luisa, e aquilo era que nem uma cantiga de acordar, e ela foi ouvindo e esbugalhando aqueles olhos de pasto orvalhado, acuada, pelejando com a vergonha e o perigo da vontade. Deve de ter caçado um socorro no siso, um luzeiro, um credo, uma providência de serafins e de santos, que não chegaram no tempo, porque o querer tinha vindo de primeiro, na repentina do descuido, na manhã da feira. Quem lá pode com o sentenciado do destino?

Não se assombre, não, dona Luisa, que não sou do mal nem vim pra lhe desfeitear. Assossegue, Dona Luisa, que só me acheguei sem a sua licença, porque careço de lhe ofertar uma prenda.” Disse isso e todo confiado já foi puxando um trancelim da algibeira e arrumando o mimo no pescoço da mulher do finado Ribeiro. Veja o senhor como o traste era arteiro, pois mulher não é de se encantar com essas coisas bestas? No dificultoso da situação, ela se arrupiava e tremia que nem folha em procela, derramada ali no tabuleiro com um homem que não era seu marido, a bem dizer, por riba dela, um joelho de Roseano lhe catando uma das pernas. No se sentar de um pinote, arrumando a saia, guardando os secretos da vista buliçosa do boiadeiro, o trancelim escorregou para dentro do corpete e ali se encobriu, sem a bondade de um gesto de sua dona, nem de sim, nem de não, mas que ficando guardado no mormaço das intimidades queria dizer aceitação. Especulava bem, o animal. O negócio ia pra mais, no benefício. Que ela se fosse, tomasse o rumo de casa, que os vaga-lumes já começavam a bordar a noite, e ele, Roseano, também se ia, mais que no rasto, ia por dentro dela, no pensamento revirado, no trancelim, semente amanhada no peito.                               

Justo no dia terceiro de depois, pela hora da meia manhã, quando a mulher do finado Ribeiro se espescoçava na soleira da porta, atalaiando o horizonte, a porteira rangeu e, no suspenso da novidade, Roseano foi que foi se aprochegando, balangando as pernas de montador, vestido apurado em roupa de missa, e se abrindo naquele sorriso arrogado. Bem que ela podia ter se azeitado e escorraçado o mandrião, não podia? Sim, senhor! Estava no seu direito de mulher séria e sem homem em casa. Mas o quê! O boiadeiro foi se dobrando num respeito e pedindo água pra molhar a goela, que ela trouxe na maior presteza, em copo de ágata bem areado, e uns minutos de fresca na varanda, que o sol estava de estorricar couro de bicho bruto. Falou de um tudo, e na fala mais apresentável, temperando a voz, todo chupa-flor, sem perder um erre nem um esse, cioso de causar na mulher apreciação de maior saber e honradez. Ela quieta, suspeitosa, só na escuta, as lagoinhas dos olhos balouçando do chão batido ao mato em derredor, sem cruzamento com os olhos do boiadeiro. No de se ir embora e de agradecer o acolhimento, o cabra desfrechou nela uma mirada daquelas de se arruinar a respiração e de se desaprender o prumo, e disse bem assim, “Dona Luisa, que mal pergunte, o trancelim que lhe dei não foi do seu agrado, não?”. Não respondeu, não, senhor. Suspirou e foi deslizando a mão pela abertura do vestido, ali abaixo do pescoço, onde dois botões tinham se desgarrado de suas casas, e a mão se tapou no abafarete do entre-tetas, segurando, não se há de duvidar, o tal trancelim.

Roseano lidou com duas noites sem pegar no sono, naquele farnesim, a mulher do finado Ribeiro encravada nele feito espinho-de-maricá. Na terceira, xumbregou com uma mulher-dama para aliviar os rescaldos e, no empós, dormiu de só espertar com o sol alto. Mas foi abrindo os olhos e partindo pro chão do outro, aprestado no de ver a mulher, variado das idéias. O que fosse seria, mesmo que fosse coisa nenhuma. Pois, foi. Chamou no alpendre e ela veio de dentro de casa, fresca e embelezada no florido do vestir, incensada de água-de-cheiro. Sentindo que ali tinha existido recordação e espera, o boiadeiro endireitou o espinhaço num banco, todo ancho, regalado e falador, mas na consideração, bem nos conformes de visitante. Lá pras tantas, levantou-se e pediu um café. Foi a mulher do finado Ribeiro dizendo que sim, que era pra agorinha mesmo, e sumindo pela porta, e ele, no maior descaramento, se enfiando na casa alheia, na pegada dela. Pois digo ao senhor que a vontade de derribar a chamada Luisa vinha no crescente de uma força desembestada de rio na cheia, abrindo boçorocas, arrastando barrancos, cercas e pedras, bicho grande e pequeno, canoas e pés de pau. 

Na cozinha de fumaça e cheiros, ali na boca do fogo, veio por trás dela e cochichou: “Deixe eu pegar no trancelim, Dona Luisa!” Ela se virou e foi logo esbarrando nele, e assim, demais de perto e no repente, desconheceu a cara inflamada do cabra, viu só os olhões escorados nos dela, e pela vez primeira sustentou as vistas do boiadeiro, e o mundo parou nessa hora em que Roseano, sem esperar resposta, meteu a mão no rego das tetas dela e tateou o trancelim e gemeu “Ai, minha santinha adorada!”, e foi apalpando a macieza da carne consentida, e amassando os bicos duros, e enfiando a língua na boca e nas ventas dela, e dando umas mordiscadas no cangote, e farejando e lambendo os sovacos, e no aferroar a mulher no meio das pernas, ela foi que foi arriando, e se desabrolhando, e se arregoando, despossuída de um tico de pejo, espiritada que nem mulher da vida. Ah! Desmantelo grande!

De hora avante, os dois deram de arrular e de se espojar no adentro da mata, em esconderijo de vistas, lugar de arvoredos em meio caminho pra lá da cacimba, sem existência de moradores nem passantes, nas lambanças e deslumbramentos da maior sem-vergonhice, com o sol e o vento na cara e nas partes. E nessa danação, foram se afeiçoando, e nesse tomado de afeição não puderam mais se apartar, não, senhor, que o bem-querer tinha lá suas precisões, de amanhecer e anoitecer juntos, sem acoitamento, e só de pensar no ele partindo e ela ficando, no nunca mais, o pensamento ia logo desonerando em maltrato, e decretaram se amar até o fim, que fosse da vida, do mundo ou dos tempos. O senhor também se espanta? Não é caso de bem se assuntar? Como um bandoleiro manhoso como Roseano houvera de se enrabichar pela mulher do finado Ribeiro, com tanta dona solta no pasto pra ele campear? Mistérios, que a vida, como a morte, não é de se apanhar o sentido, não, senhor, e as pessoas, ah! No dentro delas, são que nem planta trepadeira, cipoal de tecedura enredada, trevosa que nem noite de novilúnio.   

No dia em que ganhou o mundo no lombo do alazão caneludo do boiadeiro, a lida da mulher do finado Ribeiro deve de ter sido igualzinha a do diário, que era pro marido e Argemiro, um aparentado de sangue que morava com eles, não atentarem com a derrota que estava pra suceder. E digo ao senhor que, de cá pra diante, o que sei é o que não sei, que nunca mais ninguém teve ciência dela nem de Roseano, perdidos nesse mundéu de Deus, e num vai ser por isso que vou deixar de findar a história, pois fique o senhor sabendo que tem na sua frente um devoto das palavras, um contador às suas ordens.

Carregou água da cacimba pra casa, rachou lenha, torrou e moeu o café, cozinhou o feijão e preparou o fubá, lavou roupa, ordenhou a cabra e cevou as galinhas e os bacorinhos criados em chiqueiro por trás da casa. Os homens tinham saído cedo para a roça e só voltaram à boquinha da noite. Encontraram a mulher remendando um vestido, mofina e afinada, e digo ao senhor que, antes do boiadeiro, era uma morena assim da cor de terra, bem fornida de carne e apurada no bambinar dos quartos, daquelas de se encher as vistas e de dar gosto, mulher pra um homem se deitar com ela e nela se acabar. Com a sezão tomando conta do mundo, o marido deve de ter matutado naquela magrém e enfarruscamento, mas no que ela não enfebrecia, era de mais prestância pensar em moléstia de pouca monta ou em prenhez, que a esperança não se tinha gastado de todo. Pois devo de informar ao senhor que a infeliz tinha um aleijo. Era maninha, de nascença. Filho nela, não vingava, não. Os feitos encruavam dentro da mãe-da-vida. Desgosto pro finado Ribeiro, que aquele viver desagasalhado do calor de umas crias era sina de cortar o coração.

O senhor, que parece homem de muitas ciências e excelências, deve de saber bem sabido o que é bem-querer de macho e fêmea. Eu já passei por essa consumição, é de se arrecear, uma fraqueza do juízo e um fogaréu nas entranhas, cá embaixo a estrovenga se estufando numa fome danada de uma dona só, e nos princípios nem se sente que o negócio está se estrumando, e por isso não se pode empatar que cresça, e depois não se dá mais conta nem se pode arredar pé, quer se passar o resto da vida atracado àquela dona, assenzalado, sim, senhor, sem o menor querer de alforria, porque a natureza se vicia e pede mais, e se renega pai e mãe e qualquer um que venha no contra, e sendo a mulher posse de outro, o mais maludo dos machos acaba se escangalhando, que é bem assim, uma judiação, dói, que dói, nos repuxos, num dessangre de não escorrer uma só gota de sangue, numa chaga aberta de não se poder alimpar nem tratar com ungüento de flor-de-sapo. Bem-querer é feito raiz de ipê roxo, estrompando a terra, demandando grandeza de largura e fundura, estribando e repuxando para a escuridão de encandear e de encandecer.

Na derradeira noite que a chamada Luisa viveu por essas bandas, a lua estava pejada de um amarelidão sem clemência, como se São Jorge, boiadeiro de marrãs desgarradas, espiasse o malfeito com olhos de julgamento, e deitava uns clarões no terreiro defronte da casa do finado Ribeiro, alumiando a copa alta do cedro e os dois homens, que a mulher devia de estar na camarinha, no anelo da certa hora. Roseano, especado no oitão da porteira, aguardava, no combinado, os sapos e grilos entoando uma cantoria que zoava de alarme no seu coração. Dali enxergava as sombras que os besouros de terra e água, rodopiando em torno da lamparina, entornavam nas paredes do alpendre, e avistava também o finado Ribeiro e Argemiro sentados num casco de cocho emborcado, tomando a aragem da noite, as palavras poucas e os gestos vagarentos, um alisado na barriga, um pigarro, uma cuspida de fumo mascado, garantidos dos silos abarrotados de arroz, do prato de comida, da cama quente. Boiúno, o finado Ribeiro, desprecatado da infortuna que a mulher estava engendrando para aquela noite, do amanhã desmanchado no sem perdão e sem consolo da falta dela. Oh! Desgraceira, que não saber é ruim, e se saber engambelado, em qualquer hora, é desengano ainda. E digo ao senhor que nem o pio agourento da coruja na cumeeira da casa, nem os grunhidos e os espernegados do cachorro Jiló fizeram com que o pobre botasse tento na tramóia.

Não deixou nem missiva de acabamento, que escrever, a chamada Luisa não sabia, não, senhor. Voou nas asas abertas da noite, debaixo de um céu ramado de estrelas, inchada de luar e querer. No peito, iam o trancelim e o coração agalopado.

Por Marilia Arnaud


Saberes e Olhares

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