MEMÓRIAS DE UM MILITANTE. por Carlos Barros

MEMÓRIAS DE UM MILITANTE

Autor – Carlos Barros

The-Third-of-May-Goya-y-Lucientes-Francisco-de-1808_thumb.jpgÉramos jovens estudantes universitários. Chamavam-nos de comunistas. Diziam que éramos subversivos. Talvez fôssemos tudo isso, mas tínhamos uma certeza: estávamos arriscando nossas vidas por um ideal. Jovens sonhadores que sonhavam um sonho de liberdade, um sonho de uma nova sociedade. Éramos jovens universitários devoradores de livros, mas não éramos tecnicistas. Nossa visão já não era reducionista. Nossa leitura transitava entre a Sociologia, a literatura e a Filosofia. Tínhamos a sensação de que um nevoeiro se dissipava diante de nós.

Éramos jovens universitários preocupados com política. Descobrimos que éramos sujeitos históricos. Éramos filhos da história e da cultura. Descobrimos que o tempo não era linear. Tudo era invenção humana, logo, tudo poderia ser transformado pelo Homem, pelo Homem-Coletivo. As leis, a linguagem, os papéis sociais não passavam de invenções. Éramos jovens universitários brasileiros vivendo em plena Ditadura Militar. Não lutávamos por restaurantes universitários, carteiras de estudante, ou mesmo pelo nosso diploma de formatura.

Éramos jovens universitários militantes. Organizamo-nos clandestinamente. Tínhamos um grande inimigo: as baionetas. Soldados armados até os dentes. Coronéis no meio do caminho, caminho que nos levaria para uma nova sociedade. A luta foi difícil! Fomos presos e torturados. Muitos jovens universitários morreram porque acreditaram na utopia, num ideal. Os torturadores marcaram nossos corpos, mas não destruíram nossos sonhos. Hoje, os que sobreviveram, já não são jovens universitários. Envelhecemos, e com a velhice veio a pergunta: o que mudou?

Autor – Carlos Barros


Saberes e Olhares

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6 Respostas »

  1. Me lembro bem dessa época,eu era adolescente,e o clima era de medo, o que mais me marcou, foi o nosso vizinho que assim como você,foi preso e torturado.Vocês foram grandes heróis,em uma luta inglória e desigual.Um tempo de covardia e terror.Hoje vejo os jovens sem espírito patriótico,sem garra para lutar.Se dói em mim,imagino em vocês,que lutaram tanto, ver essa apatia.Espero que um dia essa semente que vocês plantaram possa germinar e nós possamos ter um país livre de tanta corrupção!

    • Elaine, são tempos que não devem ser esquecidos para que não ocorra o mesmo massacre. Muitos deram suas vidas, e o que nos entristece é ver como os jovens de hoje, em sua maioria, andam, de certa forma, “descolados” da realidade social e política em que vivemos. Mas continuaremos acreditando num mundo melhor. Mais uma vez agradeço seu comentário. Sua participação é sempre importante! Forte abraço do amigo Carlos Barros.

  2. Eu compartilho da sua reflexão, eramos jovem e “Não lutávamos por restaurantes universitários, carteiras de estudante, ou mesmo pelo nosso diploma de formatura”. Lutávamos por uma sociedade mais justa e humana. É lamentável quando nos deparamos com o avesso dessas históricas lutas. Tomemos como exemplo o que acontece hoje na Universidade Estadual da Paraíba. A greve historicamente foi instrumento de luta entre a classe operária e o patrão, parava-se as máquinas na indústria que produz mercadoria, como forma de pressionar o patrão, que por sua vez teria seus lucros diminuídos. A greve numa instituição pública os maiores prejudicados são a pagadores dos custos, – a sociedade -, vivemos noutro tempo e acredito que existe meios mais adequados para reivindicar direitos dessa., específica, categoria profissional. Somos educadores e precisamos ensinar nossos jovens a construir bandeiras de lutas que contemple o outro, em comunhão acredito que possamos construir uma nova história. Também tenho esperança de que somos os agentes dessa mudança.
    Grande abraço

    • Olá, Nilvanda. Em poucas palavras, você faz uma interessante análise histórica e social, e ainda da conjuntura atual. Gostaria de destacar o enorme desafio que temos pela frente. O mundo mudou, as metanarrativas ficaram sob suspeita… Concordo contigo! Que possamos ainda acreditar nas mudanças, especialmente a partir da Educação. Agradeço muito sua participação. Seja sempre bem-vinda ao meu Site. Abraço carinhoso do amigo Carlos Barros.

  3. Acredito que as baiionetas continuam apontadas, não mais com esse nome ou a forma anterior, ela agora te instiga a ter e não a ser. O coletivo já não tem mais importância. A tortura agora é psicológica. Lute, e será ridicularizado. Tente se fazer ouvir e as passoas estarão ocupadas demais para te apoiarem. E assim, como sonhar?

    • Janaina, muito interessante seu comentário. Acredito que você resumiu o que alguns autores denominam de pós-modernidade. O declínio das ideologias, o poder do consumo, o individualismo exarcebado, o coletivo esquecido. Mas, quem sabe, ainda possamos sonhar. Obrigado por sua participação. Seja sempre bem-vinda ao meu site Saberes e Olhares. Forte abraço! Carlos Barros

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